Em visita ao concelho de Abrantes, ao início da tarde desta sexta-feira, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou-se preocupado com a possibilidade de mais inundações provocadas pelo regresso de chuva forte e pelas descargas de barragens.
Aos jornalistas, apelou aos cidadãos que evitem correr riscos e alertou que o território poderá enfrentar uma nova subida do nível das águas entre a noite de sexta-feira e sábado. “Tudo está preparado em termos de prevenção, em termos de acorrer às necessidades mais urgentes”, disse.
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As ruas de Rossio ao Sul do Tejo e outras zonas ribeirinhas do concelho de Abrantes, embora os caudais tenham diminuído, continuam inundadas esta sexta-feira, num dos episódios de cheia mais graves das últimas décadas.
A subida do caudal do rio Tejo levou à emissão de alerta vermelho pelas autoridades de proteção civil, desencadeando evacuações em várias locais e mobilizou um esforço de emergência que envolve bombeiros, forças de segurança e serviços municipais.




Ao início da tarde desta sexta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se ao concelho, acompanhado pelo secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, para observar de perto a situação e contactar com as equipas no terreno.
A visita iniciou nas instalações do Quartel dos Bombeiros Voluntários de Abrantes, onde o Conselho Municipal de Proteção Civil tem coordenado as operações desde que os níveis do Tejo começaram a subir de forma abrupta nesta semana, consequência de chuvas fortes e descargas programadas de várias barragens que alimentam este rio.
No Posto de Comando Municipal, Marcelo Rebelo de Sousa encontrou-se com elementos dos Bombeiros, da Proteção Civil, da GNR, da PSP, do Regimento de Apoio Militar de Emergência (RAME) e com os autarcas do concelho, numa sala que tem sido ponto de organização das ações de resposta e de monitorização da evolução da cheia durante os últimos dias.

Na sala de reuniões, o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, começou por sublinhar o simbolismo da presença do chefe de Estado, referindo que, embora não se tratasse de uma circunstância positiva, era importante tê-lo no concelho num momento particularmente difícil.
O autarca recordou que Abrantes ainda não tinha recuperado totalmente dos efeitos da depressão Kristin, que deixou casas destelhadas, infraestruturas elétricas colapsadas e problemas significativos nas redes de abastecimento de água, quando surgiu este novo episódio de cheias.


Segundo Manuel Jorge Valamatos, a situação atingiu níveis críticos quando os caudais debitados pelas barragens atingiram os 8000/m3 por segundo, resultado da conjugação de descargas das barragens do Fratel e da Pracana, duas infraestruturas determinantes a montante do concelho.
O autarca alertou que este valor colocou Abrantes “nas linhas vermelhas”, sublinhando que um caudal superior teria consequências catastróficas não só para o concelho, mas também para territórios a jusante, como Constância, o Ribatejo e todo o distrito, influenciados também pela barragem de Castelo de Bode.
Apesar do cenário de risco, o presidente da Câmara deu nota de alguma estabilização nas últimas horas, explicando que os caudais libertados pelas barragens a montante se situam agora na ordem dos 4000/m3 por segundo, enquanto as ribeiras do concelho começam a regressar aos valores normais para um período de cheia.

Manuel Jorge Valamatos destacou ainda o trabalho desenvolvido pelas diversas entidades envolvidas na resposta à crise, referindo o contributo “absolutamente extraordinário” dos serviços municipais, do Gabinete de Proteção Civil, do RAME, dos Bombeiros, da GNR, da PSP, da ULS Médio Tejo, da Cruz Vermelha, do Sub-Comando Regional de Emergência e Proteção Civil, dos sapadores florestais, da Associação de Agricultores e de todas as estruturas de proteção civil.
Segundo o autarca, foi graças a este esforço conjunto que os danos não assumiram proporções mais graves.
Ainda assim, deixou um alerta claro quanto à evolução da situação. De acordo com a informação disponível, as barragens espanholas apresentam níveis de armazenamento muito elevados, com Alcântara a rondar os 96% da sua capacidade, enquanto Castelo de Bode, que recentemente tinha recuperado margem de encaixe, se encontra novamente cheia.
Um cenário que mantém Abrantes numa situação de elevada vulnerabilidade e obriga a um estado de vigilância permanente.

O Presidente da República sublinhou que o território enfrenta, neste momento, dois problemas distintos. Por um lado, um problema “do passado”, que começou já a ser resolvido, resultado da articulação entre o poder local e o poder central, mas com uma iniciativa que classificou como decisiva por parte dos autarcas, das freguesias e das instituições no terreno.
Marcelo Rebelo de Sousa destacou a conjugação de esforços após os danos causados pela tempestade Kristin, afirmando que não se via noutras situações semelhantes, apesar das várias calamidades registadas nos últimos anos.
O chefe de Estado salientou ainda que essa capacidade de resposta resulta de uma aprendizagem coletiva, que permite hoje uma atuação mais rápida e eficaz perante cenários complexos, onde tudo é colocado em causa em simultâneo: habitação, atividade económica, vias de comunicação, infraestruturas de água, eletricidade e telecomunicações.
Nesse sentido, frisou a importância do levantamento rigoroso da situação e dos prejuízos, como primeiro passo para a resposta aos danos causados.

Marcelo Rebelo de Sousa referiu que já era expectável que, em alguns concelhos, à situação inicial se juntasse o problema das inundações e das cheias, um cenário considerado inevitável e que resulta essencialmente de dois fatores: a precipitação e as descargas das barragens.
Explicou que estas descargas estavam previstas e afetam vários pontos associados aos principais rios com origem em Espanha, existindo a perceção de que o dia de hoje representaria uma “folga”, não no sentido de alívio, mas como oportunidade para preparar uma fase de maior risco e pressão.
O Presidente da República alertou para o caráter particularmente exigente do que se tem vivido ao longo de mais de uma semana, apontando o efeito cumulativo dos fenómenos como o maior desafio.
A acumulação da chuva, do vento e, agora, da água resultante das descargas das barragens – apesar do “cuidado extremo na sua gestão” – pode fazer com que situações aparentemente controladas se compliquem rapidamente.




Nesse contexto, advertiu para o risco significativo de subida dos níveis de água a partir das descargas previstas entre a noite de sexta-feira e sábado, mostrando-se convicto de que as entidades locais estão plenamente conscientes desse cenário.
Ainda assim, deixou palavras de reconhecimento pela capacidade de resposta demonstrada, que considerou “muito impressionante”.
Marcelo Rebelo de Sousa destacou ainda o trabalho preventivo desenvolvido por todas as entidades envolvidas, sublinhando que a situação está a ser acompanhada “a par e passo”, com monitorização constante da evolução ao longo do dia.

Deixou também uma palavra de reconhecimento e incentivo aos presidentes de Junta de Freguesia presentes, destacando a importância do papel que estes têm desempenhado junto das comunidades locais.
O secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, que também esteve presente em Abrantes, referiu que as previsões meteorológicas para a noite desta sexta-feira e manhã de sábado apontam para chuva forte que, a juntar às descargas das barragens, poderá originar nova subida dos caudais dos rios.
Marcelo Rebelo de Sousa concluiu dizendo que “a luta continua” e apelou a que a população “continue com o bom senso e maturidade que têm tido, sem se colocarem em situações de risco”.

Após a visita à sede de operações, a comitiva dirigiu-se a Rossio ao Sul do Tejo, onde os efeitos da cheia se mostram com maior evidência: o ringue polidesportivo da freguesia está rodeado por água, enquanto os “Mourões” e um estabelecimento comercial junto à linha de água, permanecem submersos, assim como toda a zona ribeirinha da margem sul.
No terreno, o autarca de Abrantes voltou a salientar a intensidade dos trabalhos de apoio e evacuação. Explicou ao chefe de Estado que, por razões de proteção civil, pessoas e bens estão a ser retirados das áreas mais vulneráveis, numa operação que tem contado com o envolvimento ativo de bombeiros, forças de segurança e voluntários.
Valamatos frisou ainda o forte espírito de entreajuda da comunidade, sublinhando que muitos cidadãos se disponibilizaram a acolher temporariamente quem teve de sair das suas casas, numa demonstração de solidariedade que tem marcado a resposta local ao desastre.

Em Rossio ao Sul do Tejo, o Presidente da República deslocou-se às zonas ribeirinhas afetadas pelas cheias, onde pôde constatar no local a dimensão dos estragos e contactar com alguns moradores. Durante a visita, Marcelo Rebelo de Sousa falou com uma residente que sublinhou que “mobílias há muitas, mas vida há só uma”, uma ideia reforçada pelo chefe de Estado.
A Proteção Civil e os Serviços Municipais continuam no terreno e a monitorizar e acompanhar a situação. As cheias em Abrantes surgem no contexto de um período de tempo extremamente adverso que tem afetado grande parte do território nacional, com vários dias consecutivos de chuva intensa e descargas elevadas nos principais rios, levando a um número crescente de ocorrências e mobilizações de emergência.


A montante, em Espanha, a Confederação Hidrográfica do Tejo indicava esta manhã uma “tendência descendente” na descarga da barragem de Cedillo para Portugal, que passou de mais de 6.300 m³/s na quinta-feira para cerca de 3.900 m³/s, mantendo-se, ainda assim, como a que mais água liberta em toda a bacia do Tejo, num contexto em que várias barragens espanholas permanecem em aviso vermelho devido ao mau tempo.
A Proteção Civil alerta para o risco de novas inundações, transbordos e instabilidade de vertentes, recomendando retirar bens de zonas inundáveis, proteger animais, evitar travessias de vias alagadas e seguir informações oficiais.
O Plano Especial de Emergência para Cheias na bacia do Tejo foi ativado em nível amarelo no dia 24 de janeiro de 2026 e elevado para alerta vermelho na quinta-feira, face ao agravamento dos caudais e risco extremo de inundações, segundo a Proteção Civil.
