Ano após ano, continuamos a assistir, impávidos e serenos, a episódios de abusos de vária ordem nas praxes das várias Universidades de norte a sul do país.
Em tese, o que está na sua origem até pode ser nobre, mas da teoria à prática vai uma longa distância e, nos dias de hoje, o que se passa na realidade na maioria das situações, está longe de poder ser aceite como um processo de integração e não será nunca uma boa experiência de vida.
Aquilo a que teimam em chamar “processo de integração”, eu chamo processo de abuso, humilhação e subserviência praticado por jovens de carácter duvidoso que aproveitam as tradições para se vingarem daquilo que lhes foi feito no início do seu processo académico.
Como atitude gera atitude, fenómenos de abuso e de humilhação, que colocam em causa a dignidade humana ou que estejam assentes em comportamentos de risco não podem ser considerados bons processos de integração, porque quem está a ser “integrado”, se
“sobreviver”, mais cedo ou mais tarde, vai projetar a sua revolta e vai querer fazer aos outros o mesmo que lhe fizeram a ele.
Quando se dá poderes ilimitados a personalidades mesquinhas, frustradas, com baixa auto-estima e sem formação pessoal, corre-se o risco que sejam ultrapassados os limites do aceitável e de se perder o controlo da situação.
E por favor não utilizem o argumento de que só adere à praxe quem quer, porque todos sabemos que quem não adere é excluído, marginalizado, perseguido, ameaçado e em muitos casos, utilizando a simbologia perfeita de não integração, através da proibição do
uso do traje académico.
Não sou radical e não acho que as praxes devam ser proibidas, mas na minha opinião, todo o processo deve ser analisado, revisto, alterado e melhorado, passando a estar assente em conceitos pedagógicos, sendo uma prática divertida e desenvolvendo valores que sejam a essência positiva do ser humano.
E se acham que é impossível melhorar o processo e que aquilo que acabei de referir é utópico, olhem para o exemplo do ISCTE e para o seu “IULCOME”, como um verdadeiro programa de receção e integração dos novos alunos.
Ignorar a realidade, fingir que a anormalidade é normal e continuar a permitir que os episódios de abuso e humilhação se repitam, faz de quem mantém essa permissividade, cúmplice de tudo o que de mal possa acontecer. Reitorias e Ministério da Educação na linha da frente. Todos nós, cidadãos que silenciem a consciência cívica de cada cada um, logo a seguir.
