Vila Nova da Barquinha mantém vigilância das cheias no Tejo. Foto: mediotejo.net

“O foco principal continua a ser a Praia do Ribatejo, onde as famílias ainda não têm luz, e estamos a garantir apoio imediato a quem mais precisa”, afirmou no sábado o presidente da Câmara Municipal, Manuel Mourato, no âmbito da reportagem realizada naquela freguesia, em Vila Nova da Barquinha e em Tancos, junto ao castelo de Almourol, onde o Tejo corria com caudais perto dos 2.600 metros cúbicos por segundo (m3/s). No domingo, a estação registava às 12h00 cerca de 3.100 m3/s.

O município, em articulação com os serviços sociais e outras entidades, esteve no terreno a disponibilizar refeições quentes às famílias mais afetadas, banhos quentes e pontos para carregar telemóveis no pavilhão desportivo e armazenamento de alimentos em arcas congeladoras na antiga cantina escolar, ao mesmo tempo que lida com o problema das cheias no Tejo, situações que colocam o concelho em duplo alerta.

Praia do Ribatejo encarou quatro dias sem eletricidade com apoio da comunidade e vigilância das cheias. Foto: mediotejo.net

Maria Olívia, de 81 anos, encarou estes quatro dias sem eletricidade com uma serenidade que surpreende. Sem luz em casa mas sempre bem disposta, disse que aproveita o sol para sair à rua e para “dar os bons dias aos vizinhos”, mantendo contacto com quem a rodeia e preservando o ritmo da vida quotidiana.

Apesar da impossibilidade de usar telemóveis ou televisão, consegue gerir o seu dia a dia com o fogão e o esquentador a gás, mostrando uma atitude prática e positiva perante a situação. Olívia recordou a própria infância, quando não havia televisão nem eletricidade, olhando para os desafios atuais à luz dessa experiência, afirmando saber que “há pessoas que estão em condições bem mais difíceis” do que ela.

“Não posso queixar-me. Temos pão, batatas, azeite, gás para cozinhar… Há sempre algo que nos faz continuar. É preciso pensar positivo e olhar à volta, há quem esteja pior que nós”, explicou.

A maior preocupação, confessa, era conseguir manter os telemóveis carregados para falar com os filhos em Lisboa, tendo agradecido o apoio da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal, que disponibilizaram pontos para recarregar os aparelhos.

Praia do Ribatejo encarou quatro dias sem eletricidade com apoio da comunidade e vigilância das cheias. Foto: mediotejo.net

A nossa reportagem encontrou também Mariana Duarte, de 28 anos, no Pavilhão Desportivo da Praia do Ribatejo, onde tinha aproveitado para tomar um banho quente e carregar o telemóvel, apoios que considerou “essenciais” para conseguir gerir o dia a dia durante estes quatro dias sem eletricidade.

Na sua casa, todo o equipamento é elétrico, incluindo o fogão e o esquentador, e a falta de luz impede-a de cozinhar, tomar banho quente ou carregar aparelhos. Sem televisão para acompanhar o dia, acaba por se deitar mais cedo, sentindo o peso da interrupção da rotina quotidiana.

“Os banhos quentes e o carregamento do telemóvel aqui têm sido mesmo essenciais, sem isso seria muito mais difícil lidar com esta situação”, afirmou Mariana, destacando a importância dos apoios municipais para manter alguma normalidade.

Praia do Ribatejo encarou quatro dias sem eletricidade com apoio da comunidade e vigilância das cheias. Foto: mediotejo.net

O presidente da Câmara explicou que, além do apoio à população, a autarquia tem coordenado ações de solidariedade com outros concelhos do Médio Tejo mais afetados pela tempestade, como Ourém e Ferreira do Zêzere, disponibilizando, com o apoio da comunidade e de empresários locais, camiões com lonas, colchões e outros bens essenciais. Ao mesmo tempo, monitoriza hora a hora a situação dos caudais do Tejo.

Manuel Mourato, presidente CM Vila Nova da Barquinha. Foto: mediotejo.net

O comandante dos Bombeiros Voluntários da Barquinha, Jorge Gama, explicou que “foi uma situação completamente atípica e intensa. A tempestade Kristin provocou muitas quedas de árvores, aluimentos e interrupções, e temos de gerir ao mesmo tempo o plano de cheias”.

Praia do Ribatejo encarou quatro dias sem eletricidade com apoio da comunidade e vigilância das cheias

“Mesmo num concelho pequeno, conseguimos responder musculadamente, mantendo equipas no terreno, distribuindo água e apoiando outros concelhos do Médio Tejo, como Ourém e Ferreira do Zêzere. O pior já passou, mas as ocorrências continuam a aparecer e os solos saturados podem causar novos constrangimentos nos próximos dias.”

Desde o início da crise, a Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, em colaboração com os Bombeiros Voluntários, Juntas de Freguesia, GNR e escuteiros, tem mantido equipas no terreno na freguesia da Praia do Ribatejo para apoiar a população.

Dezenas de moradores usufruíram de refeições quentes, banhos e pontos de carregamento de telemóveis, enquanto as equipas contactam famílias mais vulneráveis, acompanham as operações de restabelecimento de eletricidade e água e entregam bens essenciais, como colchões oferecidos por empresas locais.

O presidente da Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo, José Pimenta, acrescentou, a meio da tarde de sábado, que “cerca de 150 a 200 pessoas” ainda estavam sem eletricidade numa das fases da freguesia, com cerca de 3 mil habitantes.

Este fenómeno meteorológico atípico provocou a queda de mais de uma centena de árvores, postes de iluminação, telhados, sinalética e outras estruturas em vários pontos do concelho da Barquinha, tendo também provocado, de forma indireta, instabilidade no sistema de abastecimento de energia elétrica e de água em diversas localidades, nomeadamente Atalaia, Cafuz, Matos, Limeiras e Praia do Ribatejo.

“Estamos a prestar apoio no pavilhão desportivo para banhos, disponibilizar arca frigorífica para mantimentos, e hoje, com os escuteiros, iniciámos um porta a porta para aferir necessidades da população”, disse, tendo feito notar alguma ansiedade da população que que procura respostas.

“As pessoas perguntam quando regressará a luz e a água, mas transmitimos apenas informações oficiais. O essencial é manter o apoio e a proximidade e esperar que isto se resolva por quem de direito”, declarou. A situação seria normalizada na freguesia perto da meia noite de sábado.

José Pimenta, presidente da Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo. Foto: mediotejo.net

Por parte do município foram ainda disponibilizados geradores a instituições sociais, garantindo assistência direta e contínua aos afetados pela tempestade Kristin e pelas falhas no fornecimento de energia.

A proteção civil e os bombeiros mantêm-se no terreno, a cortar árvores caídas, desobstruir vias e verificar aluimento de barreiras, enquanto os serviços municipais monitorizam hora a hora a situação dos caudais do Tejo.

Manuel Mourato, presidente CM Vila Nova da Barquinha. Foto: mediotejo.net

No sábado, sob um sol que brilhava sobre o concelho, os efeitos da tempestade eram visíveis: crianças brincavam em espaços públicos parcialmente interditos, turistas observavam o castelo de Almourol a partir da margem, no miradouro junto ao café de apoio, enquanto o parque de estacionamento e o cais de embarque para as visitas estavam submersos.

É ali, naquela margem, que o presidente da câmara reforça a vigilância constante sobre o Tejo, com especial atenção ao Cais de Tancos e à zona baixa da vila.

Foto: mediotejo.net

Embora o dia tenha sido de relativa tranquilidade, a previsão de chuva intensa para os próximos dias poderá provocar novas inundações e obrigar a medidas preventivas adicionais, com o município a manter o apelo à população para evitar zonas de risco e contactar os serviços sempre que necessário.

Entre a preocupação e alguma normalidade que o sol devolveu ao concelho, a resposta da comunidade faz-se de serenidade e entreajuda, personificada no espírito de Maria Olívia.

“Há sempre algo que nos faz continuar. É preciso pensar positivo e olhar à volta, há quem esteja pior que nós”.

c/LUSA


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