Rio Douro - Ponte do Pocinho. Foto de Alvão, 1940 (do livro Douro, António Barreto)

São de Fausto, o Bordalo Dias, algumas das mais belas canções da música portuguesa. “O Barco Vai de Saída”, “Se Tu Fores Ver o Mar”, ou “Navegar, Navegar”, têm em comum a aventura, o desafio e o horizonte de vistas largas e perigos vários.

Ali, tudo parece fazer sentido. Letras buriladas ao pormenor, musicalidade quase perfeita, numa viagem por mares quantas vezes já navegados, “adeus ó cais de alfama… e vai ao fundo sim senhor, que vida boa era a de Lisboa”.

E é ao som de “Rosalinda” que escrevo estas linhas. Tento afinar o tom da escrita pela voz de Fausto, como aconchego de fundo.

Sem rede, nem diapasão que me valha, confesso que não é fácil. A canção é lindíssima, o tema sempre actual. Concentro-me mais na música dele, que na escrita minha. Não há problema, os leitores perdoam, é por uma boa causa.

Mudo de registo e passo a ouvir “… e assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal”. Cheira-me a revolução, que diabo! Afinal, agora já não é tanto assim. Mas o Fausto insiste: “…segura bem o teu par, que o baile vai terminar”. Mudo de novo. E não me canso de o ouvir. Pouso a caneta que a crónica pode esperar. Aliás, duvido que alguém a leia. No domingo foi a Catalunha. Os catalães são um osso duro de roer. Por lá, só mesmo o regresso impossível de Freddie Mercury e Monserrat Caballé poderia atenuar a coisa.

E houve autárquicas também. A esta hora, ainda se fazem contas de somar e de sumir. Nestes momentos haverá sempre os que se somam e multiplicam em beijos, abraços e cumplicidades. Muitas. E os que se sumissem, pouca falta cá fariam.

Retomo a escrita. Está difícil não falar de futebol, nem de política, depois de um domingo assim. Tento resistir. Afinal, muita gente falará sobre isso.

Volto a Fausto. E, baixinho, assim como quem não quer a coisa, parece-me ouvir lá longe, mas cada vez mais perto: “Por este (R)io acima”. Será?

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *