Alguns elementos da Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor, e Matilde, a neta de um dos músicos. Créditos: mediotejo.net

O mínimo que se pode dizer da criação da Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor é que a sua história nos remete, desde logo, para um passado vivido por muitos e ainda não esquecido, com uma dimensão popular de bailarico e entretenimento de gerações, que dançavam ao som dos sopros ou do acordeão, instrumento bastante para dar início a uma festa.

“Quando éramos miúdos, na feira, toda a gente queria comprar uma harmónica e fazer um grupinho”, recorda António Lopes que tomou conta dos destinos desta Orquestra de músicos autodidatas em 1996.

O presidente explica que o mais difícil desta arte musical são os acompanhamentos. “O Germano sabe ler música… para mim são bengalas”, brinca. Na verdade, dois ou três elementos do grupo sabem ler música. “Quem não tem cão caça com gato” ou seja, encontra-se uma forma de conseguir os tons, coloridos nas diversas letras das canções. Uns destaques a vermelho, outros azuis e outros a negro significa meio tom. “Se for a soprar é o azul, dois registos a soprar e aspirar”, enumera António Lopes. Com paciência e gosto os músicos “conseguem adaptar-se e fazer os acompanhamentos”, garante.

Entre o público, “os mais idosos gostam muito. É quase um regresso ao passado. Os bailes eram tocados com harmónicas. Os mais novos têm outras preferências”, sabe o responsável.

Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Talvez no passado fosse possível descrever a Orquestra como uma “comissão de amigos, ciente do seu bairrismo”. Atualmente é muito mais do que isso, embora o número de elementos que compõem a Orquestra seja hoje menor do que foi em tempos. O grupo chegou a ter 21 elementos, agora contam-se 12.

“Já fomos mais. Atualmente a partir de certa hora, não se vê ninguém na rua. As pessoas estão em casa… ou a ver novelas ou seja o que for. Para nós é estranho. Até temos um grupo que todas as noites se junta num espaço para não falar de coisas sérias. Contamos anedotas, contamos mentiras, e saímos de lá todos bem dispostos. Dá-nos saúde e bem estar”, refere rejeitando o isolamento social.

A verdade é que a pandemia “abalou o grupo”, admite o presidente. “Nem podíamos ter espetáculos. Parámos talvez um mês, na altura mais crítica, mas ensaiávamos, arriscando, separando o grupo e como o espaço é amplo…”, justifica. Os ensaios decorrem duas vezes por semana, à terça e sexta-feira.

Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Com o nosso jornal, além do presidente, estiveram João Rodrigues, José Manuel, António José e Germano Ribeiro. O elemento mais novo (Pedro) tem 26 anos e o mais velho (João Barreto) conta 86. Contudo, grande parte dos elementos tem mais de 70 anos e o envelhecimento do executantes é uma preocupação.

A Orquestra tem como atividades preferenciais a recolha, adaptação instrumental e execução pública de melodias tradicionais, principalmente de Portugal e das suas regiões.

Executa as suas melodias na harmónica de boca, instrumento musical largamente enraizado na cultura popular. Pretende conservar e aumentar o gosto pelas melodias populares e pela utilização da harmónica entre as gerações mais novas.

Exclusivamente masculina, neste orquestra “os miúdos também tocam… mas é difícil retê-los. Ando para deixar isto a gente mais nova, mas as pessoas não querem. Incentiva-se, vieram uns três ou quatro rapazes, mas tem de haver um sacrificiozinho daqueles que vêm aprender. Se um abala, vão-se todos”, lamenta António dizendo que os jovens entram para a Orquestra durante a escola em Ponte de Sor, mas saem quando vão estudar para a universidade ou quando iniciam a vida profissional.

Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Primeiramente, o agrupamento musical foi batizado de ‘Os Mindagos’. Grupo esse que, tendo sido formado em 1942 por Joaquim Rosa – em novembro de 2022 a associação cultural completa 80 anos -, teve vários anos de inatividade, sendo reativado em 1977. Mas apenas nos anos 1980 passou a designar-se como Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor.

Na origem do projeto esteve a paixão pela música e assim continuou até ao presente. “O que nos move é o gosto pela música. O gosto particular pela harmónica. Quando estamos um mês sem tocar, falta-nos qualquer coisa. Isto é um bocadinho complicado! Um instrumento destes tem 64 notas”, diz António Lopes. Mas afinal, são “um grupo de amigos” e a música também pode ser pretexto de camaradagem. Nos ensaios “às vezes dá para a anedota, às vezes come-se um bolo, porque alguém faz anos. O contacto com as pessoas, as nossas viagens, é muito importante”.

Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Numa das nossas visitas à sede da Orquestra de Harmónicas, a 26 de maio, dia da espiga – tema que depois foi tocado para nós -, o grupo tinha recentemente estado em Pena, perto de Cantanhede, num encontro de gaitas de foles – as harmónicas são gaitas de beiço – mas as visitas ao estrangeiro também fazem parte do currículo. A Orquestra já tocou em Espanha, nomeadamente em Granada, Malta, Itália, também na Sicília, Sardenha, Canadá, Croácia, Sérvia, Tunísia, Marrocos, através do Festival Sete Sóis Sete Luas.

Na realidade, a Orquestra é uma raridade. “Única no mundo não será. Na Europa há uma mas é mista. Do género, será única no mundo, sim”, afirma o presidente. “Na Áustria também têm harmónicas, mas têm acordeão e mais um ou outro instrumento”, esclarece.

Além disso, a Orquestra atua sem cobrar cachet pela atuação. “Não cobramos nada. Quando vamos a algum lado pedimos transporte e alimentação. E temos muitos espetáculos”, assegura António. Este ano já somam alguns. O grupo é presença garantida nas Festas da Cidade de Ponte de Sor (este ano o espetáculo é dia 8 às 21h00) e atuou no FestFado. “É só dizer e a gente vai!”.

Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

A Orquestra integrou ainda dois espetáculos de teatro: ‘Diosnedes’ e ‘Cal’, este último baseado no romance de José Luís Peixoto, projeto no qual participou também Janita Salomé e a atriz Maria João Luís. O grupo já editou 1 single, um LP, duas cassetes e 1 CD. Recebeu a medalha de ouro da cidade de Ponte de Sor a 8 de julho de 2013. “Se calhar temos algum valor”, observa o presidente.

Como maestro conta com João Varela. Conta também com equipamento de amplificação, algo que ao inicio não acontecia, mas a harmónica é um instrumento que necessita ser amplificado para se ouvir com qualidade, embora existam diferenças nos instrumentos, ou seja, harmónica cromática e diatónica. “Alguns instrumentos podem ser tocados com a boca cheia [de ar] e outros não. Uma é afinada num tom e só toca músicas naquele tom. E noutra o músico vai buscar os vários tons”, tenta explicar.

Tratam-se de instrumentos “muito caros”, alguns atingem os 300 euros, uns mais leves e outros mais pesados. A harmonia, por exemplo, pesa dois quilos e meio. “Cada buraco destes”, diz António mostrando uma harmónica, “tem quatro notas”.

Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Na sede, ao lado do Teatro-Cinema de Ponte de Sor, guardam todas as ofertas que receberam ao longo dos anos, bem como recortes de jornais onde saíram publicações sobre a Orquestra. Incluindo uma vitrine com antigas quotas de sócios, uma forma de conseguir angariar algum dinheiro no inicio do grupo.

Entre o espólio encontra-se uma mala de 1942, de madeira da boa, muito pesada e muito bem elaborada, que servia para transportar todas as harmónicas da Orquestra. Atualmente guarda instrumentos daquela época, muitos enferrujados, propositadamente sem tratamento, em nome da memória.

A maioria das harmónicas guardadas na mala são diatónicas, apenas com um som. “Antigamente era tudo assim. Punha-se no bolso, devido à portabilidade do instrumento, mas é limitado. Assim como o harmónio, depois a concertina, só tem um som. Estas têm meio tom, são cromáticas, têm 16 buracos mas têm 64 notas”, nota.

António Lopes, presidente da Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Cada músico via escrito o seu nome na mala. “Havia sempre um que ficava prejudicado porque tinha de carregar a mala. É uma relíquia do passado”, refere.

O aniversário da Orquestra, celebram a 30 de novembro. Os elementos comemoram com um jantar e nas zero horas do dia 1 de dezembro saem à rua em celebração, a tocar o hino da Restauração pelas ruas da cidade.

“Está muito frio naquela altura, mas algumas casas estão abertas. Mesmo com as camadas de geada as pessoas recebem-nos, abrem-nos as portas para beber uma bebida espirituosa, para aquecer a alma”, relembra.

Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Na missão de dar continuidade à utilização deste instrumento, a associação cultural, constituída por escritura pública em 1992, conta com apoios de entidades como a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia de Ponte de Sor, o Inatel ou a Leadersor.

VIDEO:

A Orquestra de Harmónicas de Ponte de Sor atuou uma vez mais nas Festas da Cidade, na sexta-feira.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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