Escola de aviação L3, no aeródromo de Ponte de Sor. Créditos: DR

A escola de aviação Aerocondor L3 European Airline Academy, localizada no Aeródromo Municipal de Ponte de Sor, no distrito de Portalegre, decidiu rescindir contratos com cerca de 120 alunos dos atuais 260. Estes alunos ficam assim sem concluir a formação de piloto, num curso que ronda os 80 mil euros por pessoa. A informação enviada ao jornal mediotejo.net refere que decorreu uma “ruptura de contrato de forma brutal, injustificada e inesperada” e que pode “pôr em causa a reputação da L3Harris, a cidade de Ponte Sor e a atratividade do Aeródromo”.

De acordo com uma informação enviada à redação do jornal mediotejo.net “no dia 07 de maio, cerca de 120 alunos, contratualmente ligados à escola de aviação Aerocondor L3 European Airline Academy para treino de ‘ATPL Integrado’, receberam um e-mail da escola dizendo que os seus contratos seriam terminados, alegando a covid-19 como forma de justificação de mudança no rumo do seu negócio”.

Refere a informação que, apesar dos alunos procurarem “respostas concretas e claras” não têm tido sucesso encontrando-se o diretor da escola, Mário Spínola, “incontactável, desaparecido e mudo, não oferecendo qualquer tipo de justificação detalhada e plausível além do seu email enviado no dia 07 de maio. Até a administração da mesma escola em Tires, localizada a 200 quilómetros, assim como a sede social da escola L3 em Inglaterra, não tem nenhuma informação sobre esta decisão, não tendo noção do que está a acontecer”.

Entretanto, a L3Harris assegurou ao jornal mediotejo.net que a Academia “instalou um call center” direcionado aos cadetes para que possam colocar questões e discutir com maior profundidade o assunto sendo que “os detalhes da decisão foram comunicados diretamente” aos alunos.

Acrescenta também o comunicado que desde janeiro de 2019, a Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) “proibiu a escola de inscrever novos alunos para o curso ATPL enquanto todos os inscritos não terminassem o curso. Esta decisão da ANAC prende-se com o facto de a escola estar com imensos atrasos na formação dos alunos, por este número ser muito superior à real capacidade formativa da escola. Curso que em condições normais se completa em 14 meses chega a demorar 36 meses devido a todos os atrasos”.

Acusa a mesma comunicação ser todo o processo “uma estratégia comercial, servindo a covid-19 como a desculpa perfeita, dado que novos alunos da base L3 em Inglaterra irão entrar já em setembro para a base de Ponte Sor, para completarem o seu curso de treino ATPL. A estratégia comercial prende-se com o facto de haver uma diferença de mais de 40 mil euros entre os contratos portugueses e ingleses, daí o desejo de terminar os contratos de valor inferior para adquirir novos de valor superior e mais lucrativos”.

Explica que “os contratos portugueses beneficiaram de um valor reduzido que o grupo L3 não apoiou. Ao terminarem os contractos unilateralmente a Aerocondor L3 European Airline Academy está a propor valores de reembolso completamente desajustados, sobrevalorizando o treino já efetuado, não dando qualquer tipo de compensação por todo o transtorno causado. A título de exemplo, estão a cobrar 20 mil euros pela componente teórica quando têm publicado no site oficial da L3 que esta componente é valorizada em £7.050 (aproximadamente 7.874 euros).

Na mesma nota considera-se a situação “inaceitável” referindo estar em jogo “contratos de mais de 80 mil euros, assim como numerosas famílias”.

Empresa L3 no Aeródromo Municipal de Ponte de Sor, no distrito de Portalegre. Créditos: mediotejo.net

No sentido de apurar a veracidade dos factos, o jornal mediotejo.net questionou a escola de aviação Aerocondor L3 European Airline Academy da Ponte de Sor, designadamente interrogando se a escola pretende encerrar as suas instalações naquela cidade do Alto Alentejo.

Em resposta a L3Harris, empresa detentora da escola de pilotos, explica que “devido ao impacto da pandemia de covid-19 no setor da aviação e nas nossas academias, tomámos medidas na nossa academia de Portugal e em outras unidades de negócio da L3Harris” recusando comentar “publicamente detalhes sobre os nossos alunos”.

Do lado do Município de Ponte de Sor, o presidente Hugo Hilário assegurou ao mediotejo.net que a escola “não vai fechar. Está garantido o plano de negócio em Ponte de Sor”, disse, acrescentando que a Câmara Municipal está acompanhar a situação da L3Harris rescindir contrato com 120 alunos.

Cabe à Câmara Municipal “avaliar” se a decisão da escola coloca em causa a “atividade do aeródromo ou a dinâmica económica do concelho”, tendo o autarca considerado não existir “impacto negativo” nem no aeródromo nem em Ponte de Sor.

Hugo Hilário lembrou que uma outra escola de aviação já opera em Ponte de Sor e  “provavelmente teremos mais escolas a operar no nosso Aeródromo e em breve”, acrescentou.

No entanto, o presidente deu conta de a Câmara ter manifestado de forma oficial, junto da empresa, “o repudio pela forma abrupta” como decorreu o processo de reformulação do modelo de negócio da academia em Ponte de Sor.

Disse ainda que a Câmara tem respondido a todos os alunos que enviaram queixas ao Município na procura de soluções para que os pilotos possam terminar os seus cursos noutras escolas.

Na informação que chegou ao jornal mediotejo.net é dito que os alunos temem “mudar de país, gastando ainda mais, para poder concluir o curso” sendo “vistos apenas como contas bancárias e não como seres humanos”.

Entretanto, o caso já passou para o outro lado da fronteira com o jornal espanhol “Leonoticias” a dar conta do sucedido representar uma oportunidade de negócio para a escola de pilotos Flybychool, com “o encerramento da escola portuguesa”, lendo-se na notícia: “La escuela de pilotos Flybychool se encuentra una oportunidad más que interesante no sólo de ampliar su negocio, sino también de poder hacerlo en León. El cierre de una escuela de pilotos en Portugal ha dejado sin formación a cerca de 120 alumnos, que buscan en la actualidad donde proseguir sus estudios”.

Igualmente o jornal “Diario de León” dá conta da possibilidade de serem acolhidos estudantes portugueses em terras espanholas, embora em menor número, escrevendo: “La escuela de pilotos comerciales Flybyschool apremia al Aeropuerto de León a poner sobre la mesa el contrato para poder trasladarse cuanto antes a las instalaciones de La Virgen ya que les ha «surgido una oportunidad que no podemos dejar pasar», como indica el gerente de la escuela, Álex Álvarez, en relación a la posibilidad de acoger hasta a 40 alumnos portugueses tras el cierre de uno de los mayores centros de formación lusos”.

A European Airline Academy é uma escola de voo da L3Harris que abrange todas as áreas da formação em aviação, publicitada no site como “uma das maiores e a melhor equipada da Europa”.

No seu site lê-se ainda que “as instalações de tecnologia de ponta” estão localizadas “numa área de 260 mil m² que incluem uma pista de 1800 metros e um ILS dedicado”.

(artigo publicado a 2 de junho de 2020 e atualizado a 4 de junho de 2020)

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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2 Comentários

  1. Mas alguém faz o trabalho de casa, ou se preocupa com o que investe?
    “Hugo Hilário lembrou que uma outra escola de aviação já opera em Ponte de Sor e “provavelmente teremos mais escolas a operar no nosso Aeródromo e em breve”, acrescentou.”
    Ponte de Sor foi feito com dinheiro dos contribuintes. É nosso!
    Qual será a relação da L3, a quem comprou e a nova escola a operar?
    Quem vendeu o “porco gordo” à L3, com tamanha banha, impossível de recuperar?
    Que jornalismo é este que não exploram as questões a fundo, quando podiam ajudar os lesados a trazer a lume… muitas verdades?
    Os HQ no Reino Unido não sabem de nada?! Os meus filhos aos 6 anos já não acreditavam… no Pai Natal…
    Enconstem-nos às redes e acertem-lhes no nervo. A L3 tem como clientes as companhias aéreas e precisa de manter o bom nome e credibilidade do seu core business, construído ao longo dos anos: simuldores de voo (Full Flight Simulators). Um escândalo destes não augura bons ventos…
    A união faz a força, cada um por si… não tenho dúvidas de que não chegarão a bom porto…

  2. Que saudades a Gestair, a companhia espanhola que comprou a Aerocondor aos antigos proprietários.
    Essa companhia efectuou investimentos na base de Cascais e adquiriu aeronaves de ultima geração remodelou as instalações e adquiriu um novo simulador de voo direccionado para voo por instrumentos. Era realmente uma escola de aviação de nível Europeu.
    A administração estava sempre ao dispor de quem a abordava para colocar questões. Mas algo aconteceu e a escola foi novamente vendida e, é a partir daí que devido ao boom de candidatos as coisas começaram a correr menos bem.
    A primeira luz de que nada seria como dantes, acendeu-se quando uma forte vontade de alguns de acabar com a base de Cascais e transferir tudo para Ponte de Sor, levou à retirada da maior parte das aeronaves daquela base, deixando as instalações manifestamente desaproveitadas.
    A partir daí foi sempre a caír até ao ultimo ato que se deu com o fecho compulsivo da base de Cascais há poucas semanas atrás, supõe o signatário que a empresa gestora do agora Aeroporto de Cascais não tenha visto com bons olhos a reduzida operação que tomou o seu nível mais baixo com a actual proprietária da escola com apenas uma aeronave nas instalações e um numero reduzido de alunos todos com enormes atrasos nos prazos da sua formação.
    Foi um presente dado de mão beijada às escolas que lá operam, que, agora ficam com mais espaço para as suas operações e certamente um fluxo de entrada de alunos acrescido, pois o aeroporto de Cascais está a vinte minutos de Lisboa por autoestrada e dentro de um espaço aéreo controlado que, não é menor valia para a instrução dos futuros pilotos de linha aérea.
    O que realmente se passou está no segredo dos deuses e o destino das pessoas que lá trabalhavam também é uma incógnita, já que, com as suas vidas em Lisboa dificilmente se disporão a trasladar-se para Ponte de Sor.
    É o fecho de um ciclo. A actual escola terá um longo caminho para percorrer até voltar ( se é que alguma vez vai voltar) a ter o prestigio da antiga Aerocondor, até porque se avizinha a entrada em funcionamento de uma nova escola de pilotos na base de Ponte de Sor e os seus responsáveis não irão certamente repetir os erros do passado, o que poderá a médio prazo ofuscar por completo a sua vizinha do lado. Têm condições e experiência para tal, já que alguns transitaram da antiga G air que era a anterior proprietária da Aerocondor.
    Para concluir: Admira a ANAC não ter tomado uma posição forte e inequívoca quanto à quebra contratual com os 120 alunos que estavam a frequentar o curso de pilotos. Mas já vimos noutras ocasiões que, em Portugal se pode fazer tudo e mais um par de botas.

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