Desde tempos imemoriais que o Homem, ao observar as aves, sonhou poder um dia contrariar a gravidade terrestre e elevar-se nos céus. Diz a lenda que Ícaro, ao usar umas asas de penas coladas com cera, se terá despenhado quando o calor do sol derreteu a cera.
Esse mesmo calor serviu para o português, nascido no Brasil, Bartolomeu de Gusmão elevar a sua “Passarola” perante a corte de D. João V, em 8 de agosto de 1709. Estava a aberta a era dos aerostatos, cuja paternidade foi reclamada pelos irmãos Montgolfier.

Se no “mais leve que o ar” a questão não foi pacífica o mesmo sucedeu no advento do “mais pesado que o ar”… Ainda hoje se discute se o privilégio de tripular um “avião” terá pertencido aos irmãos Wright ou ao brasileiro Santos Dumont.

Com a invenção do motor de reação, ou a jacto, os aviões tornaram-se mais rápidos, quebraram mesmo a barreira do som e abriram as portas para voos mais longínquos. Com o final da II Grande Guerra e o princípio da Guerra Fria a grande disputa das superpotências passou a ser a corrida espacial.
Se a União Soviética se adiantou ao colocar o primeiro satélite em órbitra, o Sputnik I, o primeiro ser vivo no espaço, a cadela Laica e o primeiro homem, Iuri Gagarin em 12 de abril de 1961, os Estados Unidos tiveram a primazia de colocar em órbita o primeiro primata, de ter o primeiro homem em órbita lunar e o primeiro a pisar a Lua, Neil A. Armstrong em vinte de julho de 1969.
Ficaria célebre a frase por si proferida na altura: “Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade”.

Ficaram famosos os lançadores russos e americanos, os Proton e os Saturno. Entretanto a China, a Agencia Espacial Europeia, com o excelente lançador Ariane, e o Japão, além de alguns privados, entraram na corrida ao espaço.
Portugal não quis ficar de fora e criou recentemente a Agência Espacial Portuguesa – Portugal Space, que teve a sua primeira aparição associada à Câmara Municipal de Ponte de Sor, ao promover em Portugal o EuRoc – European Rocketry Challenge, a primeira competição universitária europeia de lançamento de rockets, que procura estimular estudantes e investigadores de engenharia na conceção, construção e lançamento dos próprios veículos.

O presidente da Portugal Space, Ricardo Conde, diria a propósito do evento: “Queremos motivar e encorajar crianças e jovens a prosseguir carreiras científicas e tecnológicas, porque este será um passo no sentido de reforçar as competências nacionais na área do Espaço. E haverá coisa mais motivadora que ver um rocket a ser lançado?”

O EuRoc – European Rocketry Challenge decorreu durante todo o dia de sábado, 24 de outubro, e contou com os rockets da Space Team Aachen (Alemanha), Project Euler (Suíça), DanStar (Dinamarca), Air Esiea (França), The Hound e STR-10 (Áustria).
Nesta primeira edição do EuRoC, três equipas nacionais, ainda fora de concurso, apresentaram os projetos que têm sido desenvolvidos no Instituto Superior Técnico, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e na Universidade da Beira Interior.

O local de lançamento escolhido foram os terrenos perto do aeródromo de Ponte de Sor, onde foi instalada a rampa de lançamento (launch rail) trazida pela equipa dinamarquesa, e que foi partilhada por quase todos os estudantes das várias Universidades a concurso.
Depois dos lançamentos bem sucedidos dos rockets das equipas Air Esiea (França) e dos austríacos The Hound, surgiu o primeiro contratempo – e logo para os estreantes DanStar, cujo rocket sofreu uma falha de ignição e, após a produção de algum fumo branco, quedou-se imóvel na sua rampa.

Em segundos caía por terra um projeto de dois anos e meio de pesquisa e alguns membros da equipa não conseguiram disfarçar as lágrimas e o desalento.
Pela direção do evento foi-lhe concedida uma segunda oportunidade, que correu com tal sucesso que, após voar até perto dos 30.000 pés (10km) de altitude, o local de aterragem, travada por paraquedas, ocorreu junto à rampa de lançamento. Difícil de igualar…

Seguiram-se os alemães Space Team Aachen, que conseguiram um lançamento perfeito num rocket que consumia um combustível que deixava um rasto, permitindo o seguimento a olho nu até onde as nuvens cada vez mais negras consentiam visibilidade.

A grande frustração do dia estava guardada para os suíços do Project Euler com o seu Aris a não poder ser sequer colocado no local de lançamento por atraso na montagem e o tempo a esgotar-se, já que o espaço aéreo estava fechado à navegação e reservado para os rockets até às 18H30.
Os favoritos a um lugar no pódio, depois de terem ficado na segunda posição durante a edição de 2019 da Spaceport America Cup, a competição que inspirou o EuRoC, desta vez ficaram em terra…

Uma organização a roçar a perfeição, respeitando todas as regras de segurança, já que se tratam de materiais explosivos e altamente combustíveis, além das medidas da Direção Geral da Saúde no combate à covid-19.
Com um espaço de convívio onde era possível tomar refeições ou uma bebida, com carreiras regulares para o espaço da Direção de Lançamento, o organização tornou a vida muito fácil para as equipas, staff e jornalistas.
Ponte de Sor continua na rota da Aviação e Aeronáutica Espacial e este evento só veio acrescentar valor.

“O cluster aeronáutico tem Ponte de Sor como ponto de referência nacional e internacional e, até num contexto de incerteza, o aeródromo abre novos cursos técnicos de apoio à indústria aeronáutica. Uma visão que tem permitido dinamizar economicamente e ao nível do emprego a cidade de Ponte de Sor. Numa fase tão inesperada e exigente como a que passamos é necessário apostar na economia e analisar soluções para que possamos superar os desafios e dinamizar a economia”, destacou Hugo Pereira Hilário, Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor.
FOTOGALERIA

