Antiga Casa do Povo de Ponte de Sor vai dar lugar a jardim. Foto: CMPS

Na sequência do início da empreitada para a reformulação do quarteirão da Casa do Povo de Ponte de Sor, no âmbito da qual está prevista a demolição da antiga Casa do Povo para dar lugar a um espaço ajardinado, os eleitos da Coligação Democrática Unitária (CDU) manifestaram-se contra a demolição integral do edifício, na última Assembleia Municipal de Ponte de Sor, a 23 de fevereiro. Em causa o facto do edifício se encontrar “identificado na lista nacional de património arquitetónico“, e ser da autoria do arquiteto Frederico George, também pintor, um dos mestres do modernismo em Portugal.

Num documento com três páginas espelharam aquilo que consideram ser “destruição do património” e manifestaram-se insatisfeitos com a possibilidade da “presença do edifício demolido seja traduzida num painel de design apelativo, com fotografias simbólicas e a legenda: aqui jaz uma peça de arquitetura modernista, cujo autor, o mestre Frederico George, em vida, teve laços com Ponte de Sor”.

Também em comunicado enviado às redações, a CDU considera esta solução “uma opção lamentável” e refere que “a par da Casa do Povo de Montargil, da demolição da Cerca de D. Duarte, para fazer o
que lá está agora, do arrasamento da necrópole da Praça da República, da ordem de demolição
do Posto da Brigada de Trânsito, nas Ónias, da permissividade da CM do PS para a demolição de
edifícios emblemáticos como a antiga farmácia Cruz Bucho e outros na Avenida da Liberdade, a
par das intervenções urbanas que, sem olhar a meios e alimentadas de bons orçamentos
financiados pela UE, transformam largos e praças públicas de estadia e vida social em parques
de estacionamento automóvel e em vazios urbanos inanimados – o Largo 25 de Abril é hoje um
parque de estacionamento; a Praça da República é hoje um parque de estacionamento, com
uma rua intransitável, apesar de imprescindível na organização urbana da cidade e da sua
ligação a Tramaga; o Largo da Igreja expulsou os seus utentes; o Largo do Bairro da Frialva é um
espaço sem vida, entre outros”.

Alerta que “com desaparecimento destes edifícios e lugares, desaparece também a identidade e a história da cidade, cada vez mais descaracterizada e desprovida de memórias” e acusa a Câmara Municipal, de maioria do Partido Socialista, de “demolir mais um edifício emblemático para a cidade”.

A CDU recorda no mesmo documento que “o edifício da Casa do Povo de Ponte de Sor é um projeto do arquiteto Frederico George, representativo do movimento modernista na arquitetura que, mesmo sob uma tutela autoritária e sectária da ditadura do Estado Novo, acompanhou os movimentos modernistas na Europa, descendentes da Bauhaus, do Construtivismo Russo e da emancipação da arte que aí surge, como intervenção na sociedade e da técnica, que o recurso ao betão armado e as suas potencialidades plásticas veio introduzir”.

Acrescenta que “as várias frentes do cubo desconstruído, encimado por uma cobertura em estrela
octogonal, como uma flor em origami, em cujos desencontros com o plano dos telhados se permite a iluminação do seu salão central, vão desaparecer. O átrio e o biombo, assim como a funcionalidade compartimentada do seu interior, que deveriam ser igualmente motivos de respeito, vão desaparecer. Não se trata de uma simples construção, trata-se de um monumento, um exemplar único que faz parte da história da cidade”, defendem os eleitos.

No entanto, concordam com “a devolução à via pública e a desejável salubridade do espaço envolvente do edifício, garantindo a manutenção da harmonia e da presença daquele quarteirão no Plano de Urbanização dos anos 50, do Arq.º Carlos Ramos, para as Avenidas Novas de Ponte de Sor”.

O arquiteto Frederico Henrique George (1915/1994), formado em arquitetura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, em 1950, e onde também foi professor, partilhou com os melhores da sua geração a arte de transformar o território.

Em Ponte de Sor foi autor do edifício da antiga Casa do Povo e do prédio do antigo Banco Nacional Ultramarino, na esquina da Avenida da Liberdade com a Rua Damião de Góis. Partilhou estirador com Nuno Teotónio Pereira e com Conceição Silva, este último com presença construída também em Ponte de Sor, como autor do projeto dos antigos celeiros da EPAC, junto à Estação da CP. Foi casado com Maria Margarida, viúva de Fernando de Mascarenhas, Marquês de Fronteira.

Entre os seus projetos de arquitetura destaque para a decoração do Cinema Império, Lisboa; o Pavilhão de Portugal na Exposição Comemorativa do IV Centenário da Cidade de São Paulo (1953-1954); foi autor dos projetos do Museu da Marinha e do Planetário Calouste Gulbenkian (1962) e projetou, com Daciano Costa, o Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Osaka (1970);o edifício do Hotel Penta, Lisboa; e o plano de remodelação do espaço fronteiro à Igreja dos Jerónimos e extensão novecentista, para o Comissariado da XVII Exposição de Arte, Ciência e Cultura do Conselho da Europa.

As obras do novo espaço arrancaram no início de fevereiro e vão estender-se por um período de 150 dias, segundo informou o Município de Ponte de Sor.

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A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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