José Manuel Chinarro nas Festas da Cidade de Ponte de Sor, em 2023. Créditos: mediotejo.net

Entre os 65 expositores de artesanato nas Festas da Cidade de Ponte de Sor, que este sábado celebra 38 anos de elevação a cidade, encontrámos José Manuel Chinarro, de Évora, um artesão que aprendeu a técnica de pintura de mobiliário alentejano aos 17 anos com o famoso artista eborense Paulino Ramos. Com início de atividade em 1975, dedicou-se desde então ao fabrico de brinquedos tradicionais em madeira com pintura alentejana e à pintura e restauro de mobílias típicas da região Alentejo.

Hoje tem 70 anos, mas foi aos 12 que descobriu a pintura, através da aguarela, percorrendo as ruas de Évora a pintar tudo o que lhe despertava a atenção.

Relojoeiro de profissão, após a reforma que chegou cedo, aos 40 anos, devido a um problema de saúde, dedicou-se de forma integral ao artesanato. Depois de vários anos de terapias José Manuel trabalha no seu atelier em Évora, composto também por uma pequena oficina, e dedica-se particularmente ao restauro, sendo “um complemento para a minha reforma”, diz ao mediotejo.net.

Foi secretário da Associação de Artesãos do concelho de Évora na década de 1990, e presidente do grupo de Artes Plásticas ‘José Pegado’. Com um enorme historial de pintura (óleo, aguarelas, carvão, da folha de flandres aos vitrais passando pelos azulejos e porcelanas) tem um vasto leque de exposições individuais e coletivas realizadas, nomeadamente, no Palácio do Barrocal, no Museu Regional de Évora, na Galeria D. Duarte e no Palácio D. Manuel.

Enquanto trabalha ao vivo, dá conta de também pintar os típicos pratos alentejanos de Viana do Alentejo para o mestre Feliciano Agostinho. Além disso mostra e vende a sua arte nas feiras. Estará presente em cerca de 12 por ano, passando por Moura, Avis, Crato, Borba, Portel, Évora e Ponte de Sor. “Quando não há feiras “todos os sábados estou no mercado de Estremoz”, indica.

Afirma ser um “eterno apaixonado” pela sua cidade e pelo Alentejo, por isso enquanto a saúde lhe permitir pretende continuar a oferecer-nos reproduções de mobiliário tradicional alentejano, brinquedos que o próprio fabrica, como o popular cavalo de pau, e até reproduções de locais típicos de Évora. Para já fica-se por Ponte de Sor.

José Manuel Chinarro nas Festas da Cidade de Ponte de Sor, em 2023. Créditos: mediotejo.net

Encontramos igualmente Nelson Escada e Dília Silva, de Coruche, promotores, criadores e detentores da marca Juncus, registada desde 2017, de produção, em junco, de cestas, malas e acessórios tradicionais e contemporâneos, inteiramente feitos à mão.

A visão destes artesãos passa por “aliar a tradição à moda preservando as técnicas originais. Tradições locais, apresentando peças modernas e 100% portuguesas”.

É portanto, esta, uma história de mãos que colhem o junco nos campos de Coruche, no Ribatejo vizinho de Ponte de Sor, mãos que o tratam e trabalham num conceito tradicional mas inovador na produção de peças exclusivas que combinam a tradição com a moda. Até porque, se quiser ser inconfundível a Juncus executa o design proposto.

Nelson Escada e Dília Silva criaram a marca Juncus, vieram de Coruche e estão por estes dias na feira de artesanato de Ponte de Sor. Créditos: mediotejo.net

Nelson pertence já à quinta geração de artesãos na sua família. Portanto, aprendeu as técnicas que aplica na sua arte com os pais e avós que toda a vida trabalharam o junco, numa passagem de sabedoria de geração em geração.

As cores tradicionais das cestas de junco – que Nelson trabalha num tear – são o verde, o vermelho, o amarelo e o lilás, mas a inovação no design é também um distintivo da marca que oferece ao público produtos diferenciados, designadamente capas para agendas, individuais de refeições ou bolsas a tiracolo. Nas cores a Juncos acrescentou por exemplo o azul e o preto.

“Uma peça pode demorar de 8 a 16 horas a ser realizada. Dezasseis horas se contarmos desde a apanha do junco até ao produto final”, explica Nelson ao nosso jornal, dizendo que a matéria prima é apanhada durante os meses de junho, julho e agosto.

O artesão inicia a colheita de madrugada nos açudes, nos antigos arrozais ou em zonas alagadas. Depois trabalha no processo da secagem e do tingimento, técnicas e segredos que as várias gerações de artesão da sua família foram desenvolvendo.

Apesar de conviver com ela desde o berço, nem sempre Nelson abraçou esta profissão. Hoje tem 49 anos e dedica-se totalmente ao artesanato e a tempo inteiro à marca que criou, contudo “durante alguns anos trabalhei como consultor de telecomunicações”, confessa. Atualmente possui um atelier numa antiga escola primária em Fajarda.

A equipa de artesãos, composta por quatro pessoas, trabalha essencialmente por encomenda e primordialmente com o referido material, aplicando também nas peças cortiça, pele e tecido. Nelson destaca as peças que faz com tecido das jaquetas dos forcados de Coruche. Refere que em todo o país serão um dezena os artesãos a trabalhar com junco.

Nelson garante que trabalha por paixão. “Se compensa monetariamente? Para compensar teria outro tipo de negócio”, assegura.

Na feira de artesanato de Ponte de Sor a peça mais cara que expõe custa 147 euros, uma mala com aplicações de pele que faz lembrar um rádio antigo, um design criado por Nelson. A mais barata ronda os 24 euros.

De Portugal, a marca Juncus chegou, entretanto, aos Estados Unidos, França e Espanha. Vende online e em Portugal de norte a sul, não só em lojas onde tem representação mas nas feiras como esta de Ponte de Sor.

Presença habitual nas feira de artesanato das Festas de Ponte de Sor é Manuel Martins. Moldou a sua primeira cesta em verga de salgueiro aos sete anos. Queria mostrar ao pai que era capaz de ganhar dinheiro num Alentejo onde a miséria era uma constante. O diploma da quarta-classe só o conseguiu na tropa, numa vida que Manuel Martins descreve como difícil, em constante sobressalto e trabalho duro.

Cedo aprendeu a arte da cestaria e desde que se reformou dedica-se ao artesanato mantendo a tradição da família viva. Hoje tem 82 anos e continua a empalhar bancos ou a fazer cestas a quem lhe pede. À noite, se o sono tarda em chegar, ainda compõe poemas.

Nasceu em Ponte de Sor, casou cedo com Luísa de Jesus, ela com 15 e ele com 17 anos. Mulher que o acompanha até hoje, tem Manuel Martins 83, partilhando desde a juventude a mesma árdua caminhada, num Alentejo então oprimido pela ditadura, unindo vontades para ultrapassar a miséria e alcançar um futuro melhor. Quatro filhos entretanto chegaram e só depois deles a democracia.

Manuel Martins nas Festas de Ponte de Sor quando a cidade celebrou 37 anos. Créditos: mediotejo.net

Muito antes da liberdade, Manuel iniciou a trabalhar no campo, aos 10 anos, de sol a sol, no que havia; fez searas de feijão, de milho, de tomate ou de abóboras, fez cestas em vime e verga de salgueiro, ceifou cereais, descansou no restolho de corpo atravessado no “mar de trigo” para que a dores nas costas o impedissem de dormir além da madrugada. Chegou a caminhar uma dezena de quilómetros para ganhar o sustento.

Quando o ganha-pão implicava caminho mais longo, dormia por lá a semana inteira, chegando a casa ao sábado à noite, isto se a ‘gavela’ não lhe roubasse a manhã de domingo, que o patrão podia querer que trabalhasse do nascer do sol até às 10h00. Matava caça, no outono apanhava cogumelos. Quando não havia emprego não havia sequer pão. Os sofrimentos que passou Manuel “não deseja a ninguém”. Hoje o corpo reclama em dores o trabalho penoso de uma vida inteira, mas não desiste de entrelaçar o vime.

O artesão Manuel Martins. Créditos: mediotejo.net

Mas foi aos sete anos que descobriu nele a vocação para trabalhar com vime. “O meu pai era cesteiro, os meus avós maternos e paternos eram cesteiros. Logo de pequenino apanhava as pontinhas que sobravam e começava a querer enrolar”, conta ao nosso jornal. Vivia então nas Barreiras, na casa do avô paterno, Diogo Martins, quem o criou até à idade de 17 anos – momento em que ficou órfão de pai -, enquanto os pais moravam em Foros de Arrão com os restantes seis irmãos (cinco rapazes e uma rapariga).

Atualmente ainda trabalha como cesteiro para avolumar a pequena reforma que tem de comerciante. Manuel molda o vime em cestas de piquenique – o trabalho que leva mais tempo, cerca de quatro horas -, cestas tipo marmita para levar os almoços, papeleiras, ceirões para as motorizadas, cestos para lenha que no passado “serviam para as mulheres irem às mercearias aviar-se, que antigamente o pessoal do campo aviava-se para uma semana completa, ia a mulher com um cesto e o homem com um talego. Ao cesto chamava-se uma giga”, indica.

Outro tipo de cesta redonda, açafate, serve para roupa mas “noutros tempos teve a função de acartar hortaliça das hortas que as mulheres carregavam à cabeça”, e ainda outra concebida para costura, em tempos que as noivas costuravam o seu próprio enxoval. Atualmente é comprado para servir de fruteira. O seu trabalho pode ser apreciado ao vivo, por estes dias, na feira de artesanato.

Delfina Nunes tem 77 anos é artesã e também presença habitual na feira de artesanato de Ponte de Sor. Dedica-se há 27, depois de duas décadas a trabalhar na Metalúrgica Duarte Ferreira, em Tramagal, ao restauro de móveis antigos, de baús de pele e móveis com palhinha. Uma profissão que abraçou já nos 40 e nunca mais largou. Trabalha com dedicação e gosto. Aprecia a liberdade do trabalho por conta própria e manifesta disponibilidade para ensinar as técnicas a quem queira aprender, mas faltam os aprendizes, diz ao nosso jornal.

A história de Delfina Nunes começa, geograficamente, mais a Norte. Numa migração, há cerca de um século, para o Tejo. Naquele tempo, sem episódios de poluição e a abarrotar de peixe, o rio servia como modo de vida, na pesca, às populações ribeirinhas.

A artesã Delfina Nunes, de Tramagal. Fotografia: mediotejo.net

A viagem teve lugar depois de um episódio trágico no mar. A avó de Delfina deixou, tal como outros avieiros, a agreste e perigosa vida marítima, entre a praia de Pedrogão e a praia de Vieira de Leiria, para se instalar na margem direita do Tejo, perto de Abrantes, junto à Barca do Tejo.

No rio “que era, agora é uma ribeira”, comenta, a faina continuou e ali a mãe, viúva devido a um ciclone e com quatro filhos, conheceu o pai de Delfina, pescador de Constância, que acabou por se instalar em Tramagal, onde a filha e outros dois irmãos nasceram. Vive na única vila do concelho de Abrantes até hoje.

Cabelo preso, algo arruivado, olhos azuis, trabalha curvada sobre a peça, nos seus 77 anos. É artesã. Restaura móveis antigos, baús em pele – de vaca ou de cavalo – e palhinhas. Enquanto conversamos trata de uma cadeira.

O material, ou seja, a palha, “são lianas de uma árvores chamada cipó. São muito compridas e resistentes”, afirma Delfina, enquanto retira a palha de um saco para nos mostrar. Diz que em Portugal existe um único importador, com quem trabalha há 27 anos, e refere que prefere cera a verniz para finalizar os seus trabalhos.

Na bancada três ferramentas para as manualidades: tesoura, furador e uma calha “para ajudar” a passar os fios e construir o arrendado nos tampos das cadeiras e dos bancos. “Assemelha-se a uma sovela de sapateiro mas não é”, assegura, explicando que ela própria fabrica a ferramenta, utilizando varetas de guarda-chuvas antigos.

A palha repousa na água para amansar e facilitar o trabalho, caso contrário, devido à sua rigidez, parte-se. Além disso, a água fá-la esticar e permite ser aplicada a direito, “senão fica ondulada”, nota a artesã.

Num sequencial entrelaçar de fios, em bailado de baixo para cima, “há muita maneira de fazer a palhinha; de quatro palhas, de cinco e de seis. Eu gosto mais de trabalhar com seis que é o mais complicado. Gosto de trabalhar com coisas complicadas, as coisas simples não me dizem nada. Sempre fui assim… nas rendas, nos bordados”, assegura.

Clientes para o restauro não faltam. Delfina conta que tem sempre empalhamentos para fazer, “muito trabalho”, garante. A sua oficina em Tramagal abarrota de móveis à espera de tempo e trato para ganharem novas vidas.

Já percorreu o País em feiras de artesanato, atualmente fica-se pelas feiras mais próximas de casa, como Gavião ou Ponte de Sor, onde o nosso jornal a encontrou a trabalhar ao vivo num dos expositores de artesanato.

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A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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