XXVIII Pomonas Camonianas, em Constância. Créditos: mediotejo.net

Em junho, Camões é vivido em Constância ainda com mais intensidade. As Pomonas Camonianas envolvem uma parceria entre a Câmara Municipal, a Casa-Memória de Camões e o Agrupamento de Escolas de Constância, sendo este o rosto mais visível do evento uma vez que são alunos e professores quem dinamiza a maioria das atividades que levaram Camões a percorrer o centro histórico da vila poema durante cinco dias, coincidindo com o Dia de Portugal, de Camões, e das Comunidades Portuguesas.

As Pomonas Camonianas são uma das grandiosas manifestações culturais do concelho de Constância, este ano com a novidade das coletividades se associarem à temática camoniana e integrarem a programação com atividades, indo além da presença no Mercado Quinhentista.

Um repto lançado pelo Município em 2024 “e que foi atendido”, agradeceu o presidente da Câmara Municipal de Constância, no discurso de encerramento, no dia 10 de junho. “Num concelho como o nosso, só este trabalho em conjunto, em articulação, é que nos permite afirmar interna e externamente”.

XXVIII Pomonas Camonianas, em Constância. Créditos: mediotejo.net

Mas as palavras de Sérgio Oliveira centraram-se particularmente na necessidade de “dotar a Casa-Memória de Camões de conteúdos e recursos humanos e financeiros”. Lembrou que em 2019 o Ministério da Cultura reconheceu a Casa-Memória de Camões como um equipamento de interesse cultural, tal como o fizera nesse mesmo ano a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, ao reconhecer “por unanimidade” como bem patrimonial, cultural e turístico da região.

“Temos consciência que um projeto cultural que envolva Camões está sempre em construção, é dinâmico, basta verificar que passados estes anos todos ainda se descobrem coisas novas sobre o poeta, afirmando os académicos que o investigam que ainda há muito caminho a trilhar”, referiu o edil enfatizando serem necessárias “decisões concretas e objetivas que permitam virar uma nova página” no projeto cultural de Constância, no que diz respeito ao poeta maior.

Sérgio Oliveira referia-se a apoio governamental no sentido de abrir Casa “digna da Memória de Camões”. Apoios que possam permitir “ter este equipamento em pleno funcionamento e ao serviço da comunidade. Não estamos a pedir um milagre. Estamos a pedir algo para o qual basta existir vontade política da administração central para o resolver”.

O presidente da Câmara aproveitou o momento para lembrar que tal pedido surge “numa altura em que tanto se fala em criar valor nos territórios de baixa densidade, em inverter a concentração das populações no litoral do nosso País, em que todos os dias ouvimos falar em coesão territorial, aqui está um projeto com investimento baixo que modificaria o nosso concelho, a nossa região e o nosso País”.

O autarca não encerrou o discurso sem deixar para reflexão temas nacionais “que podem ter implicações na nossa vida local”.

Manifestando-se otimista, Sérgio Oliveira, escolheu a “reforma do Estado”, dizendo ser “preciso repensar Portugal”, defendendo como “fundamental” avançar para a referida reforma mantendo “esperança” no novo Ministério criado pelo governo da AD, embora sejam múltiplas as tentativas até hoje de reformar o Estado.

Só neste século, recordamos o SIADAP em 2004; o PRACE e o SIMPLEX em 2006; o PREMAC em 2011; a centralização dos contractos e das compras públicas, e a gestão partilhada de recursos pela ESPAP desde 2012; o SIMPLEX+ em 2016; a descentralização de competência para as autarquias em 2019; e a criação do PlanAPP em 2021.

Ainda assim, “não escondemos, nós autarcas, a esperança que temos no novo Ministério para a Reforma do Estado pois são os nossos territórios os mais sacrificados pela excessiva burocracia/capelinhas existente na administração pública. Confesso que existem alturas que é desesperante”, afirmou, dando como exemplo os dois anos de tentativa de desafetação de um terreno da Igreja Matriz de Constância para ampliação do cemitério local e arranjo do largo exterior.

“É preciso agarrar de frente este conjunto de problemas e resolvê-los de forma estruturada e concertada. É fundamental fazer um conjunto de reformas na administração pública”, defendeu Sérgio Oliveira.

ÁUDIO | PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE CONSTÂNCIA, SÉRGIO OLIVEIRA

A cerimónia do 10 de junho decorreu junto ao Monumento a Camões, onde foram depositadas flores, ao lado do Mercado Quinhentista, num programa que contou com declamações durante a tarde no Anfiteatro dos Rios e com “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, espetáculo de encerramento das XXVIII Pomonas Camonianas, uma homenagem aos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões pelo Coral Phydellius.

Constância tem com Camões uma muito antiga e forte relação de afeto fundada na tradição que o épico terá vivido na vila durante algum tempo, tendo ali escrito parte da sua produção poética. Por isso, todos os anos, a 10 de Junho, Constância celebra a sua relação com o poeta realizando as Pomonas Camonianas.

Como referido, as Pomonas Camonianas tem na sua génese a realização do Mercado Quinhentista, uma exposição venda das flores e dos frutos pelo épico na sua obra, evocando os tempos em que Camões por ali terá vivido. Um evento que é acompanhado por um diversificado programa de animação de época.

Já para Olga Antunes, diretora do Agrupamento de Escolas de Constância, “falar de da Escola, falar do Agrupamento, dos nossos alunos, da nossa cultura e da nossa tradição, não pode ser feito sem falar nas Pomonas Camonianas […] falar de Camões numa terra que tem uma Escola Luís de Camões e a única Casa-Memória de Camões do País, é sem dúvida diferente”.

Desde logo “se Camões esteve em Constância não importa. Nós acreditamos que esteve. Continuamos a homenageá-lo. E a homenagear aqueles que durante ao ano, ano após ano, dia após dia, trabalham para que os nossos alunos cresçam com a capacidade, as competências, enquanto cidadãos ativos, interventivos e que criem memórias num mundo cada vez mais exigente”, disse a professora salientando “este espírito de trabalho na comunidade, para a comunidade e de solidariedade, num mundo cada vez mais individualista”.

Olga Antunes, diretora do Agrupamento de Escolas de Constância, nas XXVIII Pomonas Camonianas, em Constância. Créditos: mediotejo.net

A diretora do Agrupamento sublinhou a importância de “dar aos alunos” o conhecimento, a aprendizagem e as experiências que “estão fora dos manuais”. Ou seja, os professores tentam enriquecer os jovens não só com os conteúdos programáticos dentro da sala de aula mas também fora dela, oferecendo as Pomonas Camonianas também essa mais-valia.

ÁUDIO | DIRETORA DO AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE CONSTÂNCIA, OLGA ANTUNES

Também o presidente da direção da Associação Casa-Memória de Camões levou para o seu discurso do 10 de junho “algumas preocupações”, nomeadamente a reflexão “que cada um pode fazer para contribuir para um mundo mais justo e mais solidário”, lembrando que uma das citações de Camões foi: “uma mão nos livros outra no ferro e no aço”, que segundo Máximo Ferreira “podemos adaptar aos nossos tempos e às nossas reflexões atuais”.

Falou de um “esforço coletivo e individual” dos cidadãos em geral “para que acumulem conhecimentos que lhes permitam avaliar o que cada um pode fazer, o que fazem os que estão à nossa volta e em particular aqueles que decidem as regras que regem as sociedades”.

Casa-Memória de Camões, em Constância. Foto: Lília Reis

De acordo com Máximo Ferreira, a Casa-Memória de Camões “tem plena consciência de que faz muito pouco face àquilo que é preciso fazer. Tem noção também das suas parcas possibilidades, quer de recursos humanos quer de financiamento. Como se costuma dizer; faz-se o que se pode”, nomeadamente no Jardim-Horto adaptar os programas das visitas aos níveis etários e escolares.

“Relacionámos essas medidas com os recursos humanos do Turismo que muito têm ajudado para que num ano tivéssemos duplicado o número de visitas. E multiplicou muito mais que por dois o número de avaliações altamente positivas que aparecem nas redes sociais e noutros meios”, deu conta o responsável.

Máximo Ferreira, presidente da Casa-Memória de Camões, nas XXVIII Pomonas Camonianas, em Constância. Créditos: mediotejo.net

Máximo Ferreira adiantou que a associação está a preparar uma exposição temporária sobre a época em que provavelmente Camões esteve em Constância e que recentemente foram colocadas em funcionamento três cadeiras elevatórias destinadas a pessoas com dificuldades motoras, permitindo que possam transitar entre os três pisos estabelecidos.

“Naturalmente que achamos que é muito pouco comparado com o que é preciso fazer. Temos deste lado os livros e no outro o ferro e o aço, não a espada de ferro que mate mas aquilo que consideramos ser indispensável para conseguirmos algo mais: o ‘combate’ permanente, o trabalho intenso e a vigilância permanente para que olhem para nós, para que Constância e Camões sejam respeitados no País, especialmente Camões porque somos bairristas mas não ao ponto de acharmos que somos tão importantes quanto ele”, declarou.

O presidente da direção manifestou ainda vontade de “a breve trecho” existir na Casa-Memória oficinas pedagógicas e salas de leitura, ou melhor, momentos em que no espaço se faz leitura. Iniciativas importantes para aquilo que julgam ser a causa de “muitos dos males” do mundo: “a falta de literacia, a falta de cultura literária. O que torna frágeis as pessoas e as torna sensíveis a qualquer manipulação, venha de onde venha, porque lhes falta o espírito crítico”.

Finalizou referindo a casa em ruínas anexa ao edifício da Casa-Memória de Camões. “Nós, com ferro e aço, não desistiremos que seja recuperada, não só porque precisamos de salas – precisamos de uma sala ampla onde colocar uma exposição privada – e é certo também que existe um projeto elaborado e aprovado pela Câmara para a recuperação. Todos temos vontade que se faça, mas é preciso fazer! O que podemos fazer? Bater às portas insistentemente. O nome da nossa terra é sugestivo: Constância, que é como quem diz, insistência”.

ÁUDIO | PRESIDENTE DA DIREÇÃO DA ASSOCIAÇÃO CASA-MEMÓRIA DE CAMÕES, MÁXIMO FERREIRA

Sobre as ruínas que o povo aponta como tendo sido as da casa que o acolheu, foi erguida há 20 anos a Casa-Memória de Camões para perpetuar a memória do poeta à vila ribatejana.

Em Constância, existem ainda o Monumento a Camões do mestre Lagoa Henriques e o Jardim-Horto Camoniano, desenhado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles, que apresenta a maior parte das plantas referidas por Camões na sua obra e é considerado um dos mais vivos e singulares monumentos erguidos no mundo a um poeta.

Na terça-feira, dia 10 de junho, a Praça Alexandre Herculano e a Avenida das Forças Armadas, em Constância, receberam a tradicional Feira de Antiguidades e Velharias.

Contando com a participação de dezenas de expositores oriundos de todo o país, a mostra reúne todos os anos objetos, peças e artefactos de valor artístico ou utilitário, numa grande montra que é o centro histórico de Constância.

Feira de Antiguidades e Velharias/Fotos: Ricardo Escada

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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