Em 21 de dezembro de 1823 inicia-se a construção de uma ponte de pedra sobre a ribeira de Tancos que ligou esta vila ao território de Paio de Pele, atual Praia do Ribatejo, onde se situa o denominado Polígono militar de Tancos. A obra findou em 5 de fevereiro de 1825, há 200 anos!
A ponte rodoviária foi executada na então estrada real e ligou Tancos a Paio Pele, seguindo a estrada até à margem esquerda do Zêzere, local onde se apanhava a barca para atravessar o rio até Punhete, depois Constância.
Esta ponte em Tancos foi então feita porque no inverno muitas vezes ficava o trânsito interrompido, em consequência das inundações recorrentes do rio Tejo, que se estende em grande distância e em altura, aumentando consideravelmente a ribeira de Tancos, “ … o que embaraçava inteiramente as comunicações terrestes, porque sendo o local montanhoso e escarpado no vale da ribeira de Tancos e do Tejo, não oferecia passagem segura em parte alguma; o que causava grave prejuízo ao público, incómodo ao Exército, e aos Correios, por ser aquela a estrada real de Lisboa para Abrantes.” 1
A estrada real não passava onde agora passa a atual estrada nacional n.º 3 (EN3), mas mais a sul, junto ao moinho de vento, conforme planta de 1866.
Em 1862 é construída a linha do Leste, uma ponte ao lado da ponte rodoviária de Tancos de 1825, e a então novel ponte ferroviária da Praia do Ribatejo, uma obra de arte da casa Eiffel. Será a primeira construída sobre o rio Tejo em Portugal e estaria concluída em novembro de 1862. Com um comprimento de 494 metros era, naquele tempo, uma obra colossal, uma das maiores e melhores em linhas de caminho de ferro de toda a Europa.
Com base na Portaria de 3 de agosto de 1866, é construído o campo de manobras do Polígono de Tancos, a mando de Fontes Pereira de Melo. Foi este inaugurado em 14 de outubro de 1866 por El Rei D. Luiz I. Importou à data o valor de “Quatorze contos – uma miséria! – custou ao Estado todo este extenso pinhal meio derrubado … foi quando pediram por ele as suas antigas proprietárias, boas velhotas que, involuntariamente talvez, facilitaram ao paiz um óptimo e económico negócio”.2
Logo ali decorreram exercícios que juntaram cerca de 10.100 militares.
Por Portaria de 28 de junho, em 28 de junho de 1880, o campo militar é aumentado sendo implementada a Escola Regimental Prática de Engenharia (EPE).
Perante a grande movimentação de pessoas e animais, em 1892 é construída a ponte metálica rodoviário entre Paio de Pele e Constância que passou a ficar aberta ao trânsito de pessoas e animais.
Quatro anos depois, em 1896, é melhorada, a então estrada distrital 129, ainda em macadame, mais tarde EN3.
Com a intervenção estradal de 1896, a via contornou levemente a ribeira de Tancos e seguiu quase em linha reta até à Praia do Ribatejo. Com esta obra o Polígono militar ficou dividido ao meio. De um lado a EPE (atual RE1) / e o atual Regimento de Paraquedistas e do outro lado a ex-BA3, atual BRR. A configuração atual da estrada é bem visível no mapa de 1896 “posição de Tancos margem direita do Tejo, escala 1/20:000.”
Sabemos que as primeiras instalações da EPE foram as do antigo Campo de Instrução e Manobras de Tancos, utilizadas por simples aproveitamento das que, naquele tempo, em tal unidade existiam, sendo adaptadas conforme as necessidades do Exército.

Em 31 de outubro de 1884, Fontes Pereira de Melo criou o primeiro Regimento de Engenharia, que incluía uma Companhia de Caminhos-de-Ferro, com o objetivo de operar meios ferroviários para fins militares e civis, onde e quando as circunstâncias o exigissem. Em consequência deste objetivo a EPE construiu entre o apeadeiro de Almourol e a unidade militar, uma linha férrea de bitola estreita, criada no final da última década do séc. XIX e cujos resquícios ainda são percetíveis em alguns pontos do Polígono. Esta passou a ligar o apeadeiro da Linha do Leste à EPE. A primeira locomotiva ali em andamento foi uma Decauville, batizada com o nome de Almourol fabricada pela empresa francesa Decauville, entregue aos engenheiros militares portugueses, em Lisboa, no ano 1882. Posteriormente, foi entregue a locomotiva Tancos, no ano de 1890, recentemente recuperada. Estas locomotivas foram usadas para formação de militares. A via estreita do Polígono tinha uma extensão de cerca de 3Km indo desde o apeadeiro de Almourol até ao atual parque oficinal, passando junto à zona do Casal do Pote, Bairro de sargentos, enfermaria, atravessava a atual EN3, e terminava num troço reto no parque oficinal, conforme figura acima. Embora a formação fosse ministrada adotando o modelo de via estreita, ou reduzida, a preparação dos quadros militares do Batalhão de Caminhos e Ferro, tinha por objetivo a adaptação ao modelo de via larga, sistema existente, e em expansão, no território nacional e ultramarino. 3
As primeiras tropas de Caminho de Ferro Portuguesas, criadas em 1884, em Cascais, deram origem ao Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro, unidade que, em 1917, constituía o Corpo Expedicionário Português (CEP), e que foi mobilizada para França no contexto da Primeira Guerra Mundial. Ali permaneceu durante cerca de dois anos. Este batalhão teve um desempenho de extrema relevância a todos os títulos, tendo por isso, em 9 de março de 1922, recebido a Comenda da Ordem de Torre e Espada, Valor, Lealdade e Mérito, pelos atos de heroísmo praticados naquele grande conflito militar. Finda a 1.ª Guerra Mundial, o batalhão regressou a Portugal, num período politicamente conturbado e de greves em várias áreas de atividade, nomeadamente nos transportes ferroviários, tendo garantido a continuidade de funcionamento dos mesmos.
Em 1888 iniciam-se em Tancos os primeiros ensaios com aeróstatos, depois balões e mais tarde, dirigíveis e aeroplanos.
O sonho dos portugueses da conquista do ar já vinha do tempo da passarola, uma experiência aerostática, de Bartolomeu de Gusmão, no ano de 1709.
Todavia tal sonho só se materializou em território nacional na primeira década do Séc. XX. “Em Portugal a primeira demonstração de voo com um aeroplano teve lugar no antigo ‘Hipódromo de Belém’, a 27 de outubro de 1909, pelo piloto francês Armand Zipfel, que pilotou um aeroplano Voisin Antoinette, de 40 C. A experiência não foi das mais felizes devido ao vento e o piloto quase perdeu a vida quando o aparelho acabou em cima de uma casa. Entre 14 e 22 de novembro de 1909, em Linda-a-Pastora, nos arredores de Lisboa tiveram lugar os primeiros voos sem motor com portugueses aos comandos. Artur de Morais, Raúl Marques Caldeira, Alberto Cortez e Cisneiros de Faria – alunos do Instituto Industrial, – e Ezequiel Garcia – jornalista – utilizaram dois planadores tipo Charute para realizar 25 experiências de voo. No mesmo ano Abeillard Gomes da Silva, construiu em Paris um avião designado «Gomes da Silva I», com o qual fez várias tentativas de levantar voos no aeródromo de Issy les Moulineaus, sem obter êxito. Em 1909 surge o Aeroclube de Portugal e a 11 de dezembro tira brevet o primeiro piloto português civil: Óscar Blank.”4
O piloto Abeillard Gomes da Silva obteve o necessário apoio do Governo para a construção do seu «Gomes da Silva II” nas oficinas da EPE. Assim, em 14 de março de 1910, têm lugar as primeiras experiências de voo na nossa região. O voo de aeroplano aconteceu junto da carreira de tiro da unidade em Tancos. O avião denominado Gomes da Silva II, de 6,75 metros de envergadura, com um peso de 185 quilos e equipado com um motor Anzani de 28 CV, montado nas oficinas da EPE, deslocando-se para sul, no local aproximado à atual pista do aeródromo de Tancos, fez várias tentativas falhadas devido às más condições da pista. O avião rolou umas dezenas de metros e veio a acidentar-se num talude ao lado da carreira de tiro e, em consequência, foi abandonado o projeto. Davam-se os primeiros passos na aviação em Portugal.
“Embora não conseguisse o seu intento, Gomes da Silva, revelou-se em potência, um inventor de avião, e pode considerar-se como o primeiro construtor português a apresentar-se ao público no nosso Pais”.5

Vista do Castelo de Almourol de balão cativo do lado nascente
Dentro da EPE, em 1907, a Escola de Aerostação Militar fez varias ascensões cativas que chegaram a atingir 300 metros de altura. 6
Durante o período das manobras torna-se a charneca um lugar interessante e concorridíssimo de curiosos para virem visitar o campo e as suas manobras.
Em 1913 foi constituída a Comissão Aeronáutica Militar encarregada de estudar as bases para a criação de uma Escola de aviação e para a escolha de balões, dirigíveis e aeroplanos.

A Escola de Aeronáutica Militar seria criada em 1914, em Vila Nova da Rainha, só iniciando as operações em outubro de 1916.
Em 1917 dois aviões Maurice Farman MF11 saíram da Escola de Vila Nova da Rainha para aterrarem em Tancos.5
Em 15 de fevereiro de 1919 criou-se “o Grupo de Esquadrilhas de Aviação da República”, através do Decreto-Lei n.º 5141, na Amadora.
Em 1920 a Escola de Aeronáutica Militar é extinta e deslocaliza para a Granja do Marquês, atual Base Aérea n.º 1, em Sintra.
Nos anos seguintes aconteceriam travessias aéreas à ilha da Madeira, em 1921, e a 1.ª travessia do Atlântico Sul, em 1922, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, grandes feitos e acontecimentos nacionais.
Ainda nesse ano de 1921 nascia no Polígono militar de Tancos uma unidade aérea: a Esquadrilha Mista de Depósito, depois Grupo Independente de Aviação de Proteção de Combate, seguidamente a Base aérea de Tancos e, por último, Base Aérea n. 3.
Em 27 de outubro de 1921 aterram 2 aviões Caudron e são aumentados à unidade os aviões Nieuport Ni83A2 e Martinsyde F-4 Buzzard 4
Na sequência da extinção das unidades da Amadora e Alverca vieram para a Tancos os aviões Vickeres, Potez, Hawker Hind.
No ano seguinte, em 1922, chegaram os Gladiator à data excelentes aviões de caça e de acrobacia.
Em 9 de setembro de 1923 é inaugurado, solenemente, o aeródromo de Tancos, com festival aéreo e bênção de aeronaves, conforme relato da Ilustração Portuguesa, Nº. 917, de setembro de 1923, figura acima.
No dia 1 de janeiro de 1926 foi adotado o galgo como símbolo da Esquadrilha.
Em 28 de Outubro de 1927 a unidade passou a designar-se Grupo Independente de Aviação de Proteção de Combate, sendo mais conhecido então por Grupo de Caça, uma unidade equipada com modernos monoplanos de asa alta Morane Saulnier 3/MS 133, considerados ao tempo, os melhores aviões de caça existentes.
No dia 1 de dezembro de 1937 recebeu a unidade o seu primeiro Estandarte. Era comandante em Tancos o então Major Piloto Aviador Craveiro Lopes, mais tarde presidente da República e 1.º marechal da Força Aérea.
Até ao dia 31 de dezembro de 1938 a unidade manteve a designação de Grupo de Caça. Entre 1 de Janeiro e 29 de outubro de 1939, passa a designar-se por Base Aérea de Tancos, mas no dia 30 de dezembro desse mesmo ano, a Unidade adotou, oficialmente, a designação de Base Aérea N°. 3, que foi usada, com todo orgulho, até à data em que foi encerrada, em 1 de janeiro de 1994, por força do Decreto-Lei n.º Decreto-lei 128/94, de 19 de maio.
Muitas outras aeronaves foram presentes na unidade de Tancos, como os célebres helicópteros Alouettes III, e com elas o pessoal qualificado para a sua operação manutenção e apoio logístico.
Foi durante muitos anos uma unidade fora do perímetro da capital. Ainda hoje há a tendência de concentrar todas as infraestruturas relevantes bem perto do “Terreiro do Paço” com prejuízo para as regiões periféricas e para a tão falada coesão territorial.

Teve como divisa a máxima latina “RES NON VERBA”, “obras/atos e não palavras”, que foi mantendo até ver consumada a sua extinção.
Memoro que até 1 de julho de 1952 quem detinha o poder aéreo era o Exército e a Marinha. Só no ano longínquo de 1952 a Força Aérea Portuguesa surge como 3.º ramo das Forças Armadas.
Atualmente, só ocasionalmente, vemos meios aéreos em Tancos, aquando de exercícios internacionais ou para o treino de saltos em paraquedas, uma vez que a unidade das Tropas Paraquedistas, a sua “casa mãe”, está presente no Polígono militar de Tancos desde 1956.
Recentemente, o General Chefe do Estado Maior do Exército, general Eduardo Ferrão, anunciou a vinda de helicópteros para a unidade de Tancos, procurando restabelecer de forma perene a história desta unidade com a presença de meios aéreos no nosso território. Que assim seja!
Bibliografia:
1 Gazeta de Lisboa, n.º 78, de 04/04/1825
2 MENDES, Adelino e CESAR, Oldemiro – O Milagre de Tancos, Empresa Lusitana Editora. Lisboa. 1923
3 História da Escola Prática de Engenharia. Ed. do Regimento de Engenharia n. º 1, 2015. [et al.].
4 A Escola de Aviação de Vila Nova da Rainha. Programa da autoria de Graça Andrade Ramos. Produção: RTP. 2016
5 CARDOSO, Edgar Pereira da Costa, História da Força Aérea Portuguesa, 1.º Volume, 1984
6 MARQUES, Aires. Base Aérea de Tancos 1921-1994. Ed. Fronteira do Caos. 2017




