Francisco Pinto, pescador profissional de Ortiga. Foto arquivo: Rui Oliveira

“Este ano só apanhei duas e comi-as em casa mas há aí pescadores que ainda não apanharam nenhuma e andam aí quase todas as noites”, disse à Lusa Rui Ferreira, pescador em Tancos, Vila Nova da Barquinha que não escondeu o desalento por mais um ano de escassez de lampreia e por não poder satisfazer os pedidos dos restaurantes seus clientes.

Com 60 anos de vida e 40 de pescador, Rui Ferreira diz que nunca se viu nada assim no Tejo, numa situação “100 vezes pior” que a do ano passado e cujas causas atribui às “redes que apanham tudo”, metidas a montante do rio para a apanha do meixão (enguia bebé), uma prática ilegal, e aos siluros e outras espécies invasoras, que “comem tudo”.

Apesar da época alta para a desova, e com o “rio limpo e com bom caudal”, a lampreia “não aparece e não justifica andar aqui desde janeiro a gastar combustível todas as noites para não apanhar nenhuma”, indicou-nos ao telefone, em plena faina.

Rui Ferreira, pescador em Tancos, diz que já desistiu este ano da lampreia. Foto arquivo: mediotejo.net

“Estou a sair do Tejo mas fui às fataças, nem fui à pesca da lampreia. Os restaurantes, neste momento… não há para meter. Eu este ano não meti lampreias em lado nenhum”, reitera, sem esperanças de apanhar lampreia este ano.

Rui Ferreira, pescador de Tancos

O Almourol, em Tancos, um dos restaurantes especializado em peixe do rio e muito procurado por ocasião da época da lampreia, é um dos espaços que se ressente com a escassez do ciclóstomo onde “a procura é muita e a oferta é pouca”, contou à Lusa o seu proprietário, também cliente do pescador Rui Ferreira.

“Até agora, em pleno mês de março, só consegui comprar quatro lampreias do Tejo e a 140 euros cada uma”, indicou José Ferreira, com “clientes de todo o país em lista de espera” por uma oportunidade de saborear a lampreia.

Segundo o empresário, “cada lampreia pode dar para três a quatro pessoas, com os preços a variarem entre os 60 e os 65 euros” a dose, sendo a mesma servida em oito postas, de cabidela, salteada com azeite e alho, ou no forno, com batatas e legumes.

O empresário José Ferreira em frente ao restaurante Almourol. Foto arquivo: mediotejo.net

“Tenho clientes e grupos em espera de todo o pais, mas só servimos lampreia por reserva e só nos comprometemos com o serviço na véspera ou antevéspera”, indicou.

No concelho ribeirinho de Vila Nova da Barquinha, a 30ª edição do peixe do rio está a decorrer até domingo, mas só dedicada ao sável, com o festival gastronómico de Tomar a servir lampreia mediante a disponibilidade e sob reserva prévia, e com o município de Mação a abdicar mesmo de realizar o evento.

Mais a montante, na freguesia do Pego (Abrantes), o restaurante Túlipa debate-se com o mesmo problema da escassez de oferta para atender ao volume de procura, tendo o proprietário afirmado à Lusa que, “até agora”, conseguiu comprar um total de nove lampreias, mas nenhuma do Tejo.

“Está muito escasso e está caríssima, consegui comprar apenas nove lampreias até agora, a 85 euros o quilo, o que dá uma média de 120 a 130 euros cada lampreia, e só consigo aceder a alguns pedidos, muito poucos, mediante reserva”, disse António Larguinho.

Lampreia de cabidela é um dos pratos mais procurados pelos apreciadores do ciclóstomo. Foto arquivo:: DR

O “elevado preço da compra reflete-se na venda”, embora a margem de lucro seja “diminuta”, indicou.

“Não dá muita margem de lucro, estou a vender a dose a 50 euros, com quatro postas grossinhas, seja à bordalesa, de cabidela, ou com arroz branco em separado, mas há muita procura e não temos capacidade de resposta”, afirmou.

Mais a montante do rio, em Ortiga (Mação), Francisco Pinto, pescador profissional há 35 anos e com restaurante próprio junto à barragem, diz que este ano só apanhou duas lampreias e que foi abaixo do açude de Abrantes.

“Aqui à Ortiga não chega nada. Onde tenho pescado é para baixo do Açude de Abrantes e mesmo aí não há nada. A malta aí de baixo não tem apanhado nada. Apanha-se uma ou outra, uma coisa residual. Já fui uma dúzia de vezes, apanhei duas lampreias esta época toda, foi a minha pescaria. O ano passado também apanhei só meia dúzia delas, foi miserável”, contou Francisco, que sempre viveu da pesca e abastecia de lampreia clientes e o próprio restaurante.

Francisco Pinto, pescador de Ortiga

Hoje, quando tem para vender, cada dose no restaurante ‘A Lena’ custa cerca de 60 euros, com a refeição toda incluída.

A lampreia escasseia no rio Tejo e atinge máximos históricos. Foto: DR

“Se calhar outros sítios levam um bocadinho menos, 50 euros ou 40, mas também se calhar também não metem tanta como a que nós metemos. Não sei como é que os outros estão a trabalhar, mas está difícil para todos, está”, indicou, dando conta de muita procura mas não ter lampreias para fornecer.

“Tenho o telefone sempre a tocar, as pessoas a perguntar, e já não faço reservas nem nada. Isto está muito difícil. Está muito difícil de sobreviver da pesca como fazíamos antes. Está muito complicado.

Arroz de lampreia na Lena da Barragem, em Ortiga/Mação. Foto: mediotejo.net

Com a época da desova a decorrer, Francisco ainda mantém a esperança em dias melhores e de regressar do rio com lampreia nas redes.

“Ao preço que elas estão, se conseguir apanhar uma lampreia ou duas é muito dinheiro. Elas estão caríssimas, está assim a dos 100 euros cada uma, cerca dos 120, 130 euros cada lampreia”, contou.

“É a minha vida, tenho de ir. Tenho de ir lá experimentar. Vamos lá a ver, pode ser que melhore alguma coisa, mas as perspetivas não são nada boas”.

c/LUSA

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Agência de Notícias de Portugal

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