Pétalas ao Nabão é tradição em Tomar, no Dia de Santa Iria. Foto arquivo: CMT

Tomar encontra-se a acolher, durante dez dias, a tradicional Feira de Santa Iria que regressou após dois anos de interrupção, por força da pandemia, num modelo reinventado e que incentiva ao desenvolvimento económico. Tive o privilégio de visitar a Feira no dia da sua inauguração e de regressar mais tarde também a este lugar de memórias, constatando que a mesma é uma montra para muitos dos nossos produtores de vinho e de produtos regionais, com destaque para os frutos secos, sempre apetecíveis nesta altura do ano. O artesanato, os enchidos, os queijos e as artes tradicionais são importantes componentes deste evento que, marcadamente, representa um momento importante para o desenvolvimento económico.

O certame apresenta-se agora com uma nova disposição de espaços, e continua firme a pulsar no coração da cidade, sendo indiscutível que registou melhorias a vários níveis. Por exemplo, a praça da requalificada Várzea Grande, onde foi montado o palco principal dos concertos, revelou ser uma boa aposta para uma sala de espetáculos de excelência, permitindo que se assistam aos mesmos com qualidade. O passadiço junto às margens do Rio Nabão acolheu os artesãos e permitiu uma vista única e colorida para os divertimentos que estão instalados nas imediações do mercado municipal, onde também funcionam as tasquinhas que servem o melhor da gastronomia portuguesa, promovendo o convívio de grupos que se juntam ao redor de uma mesa para bons momentos.

A tradição da Feira de Santa Iria diz muito ao coração dos tomarenses. Sendo eu natural de Tomar, também muito me diz ao coração, recordando que cresci a ver a minha avó Nazaré e o avô Júlio a vender na Feira das Passas e Frutos Secos. Muitas memórias guardo também do menino que gostava de andar nos carrosséis e de, sempre no último domingo da feira, ir com os meus pais almoçar nas barraquinhas das associações. Era também nesta Feira, quase sempre com um ou outro dia de chuva, que as pessoas, historicamente, compravam os agasalhos para o inverno que se aproximava.

A realização desta feira remonta ao século XVII, tendo no dia 20 de outubro, data dedicada à Padroeira, o seu momento mais emocionante. É tradição, neste dia, a imagem de Santa Iria ser levada em procissão, acompanhada por crianças das escolas do concelho, até à ponte velha, junto à Capela de Santa Iria, local de onde são lançadas pétalas ao rio, evocando o seu martírio.

E, para quem não conhece a lenda de Santa Iria, partilho a sua história pois quem a ouve (ou lê) fica sempre encantado: “Iria era uma jovem cujas virtudes, beleza e sabedoria encantavam os moradores daquela que é hoje a cidade de Tomar. Nascida de uma das famílias mais poderosas da terra, recebeu esmerada educação, tendo entrado num convento beneditino, governado pelo seu tio, o Abade Célio. Apesar disso, não passava despercebida aos olhos dos rapazes. Um deles, Britaldo, filho do governador da cidade, apaixonou-se por ela com determinação tal que adoeceu por não ver a sua paixão correspondida. Iria, ao sabê-lo, visitou-o reafirmando a sua total dedicação a Deus e que só a Ele e a nenhum homem se entregaria.

Porém, um frade que era responsável pela sua educação, Remígio, também não conseguiu ficar indiferente à sua formosura e, massacrado pelos ciúmes, deu-lhe a beber uma poção que lhe fez inchar a barriga, como se estivesse grávida.

Expulsa do convento, ao julgarem ter quebrado os votos de castidade, também Britaldo foi enganado pelo feitiço e, julgando que a jovem tinha sido infiel às suas palavras, mandou a um seu criado que a matasse, quando orava junto da margem do rio Nabão.

O corpo foi atirado ao rio, no local onde depois foi construído o Convento com o seu nome, mas o rasto de sangue que deixou ao longo de todo o seu percurso permitiu que, seguindo-o ao longo do Nabão, do Zêzere e do Tejo, o encontrassem, incorrupto, frente a Santarém.

É por isso que ainda hoje, a cada 20 de outubro, dia da Padroeira de Tomar, as pétalas lançadas ao rio continuam a evocar o seu martírio.

Hugo Costa, 42 anos. Economista, deputado e presidente da distrital de Santarém do PS.

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1 Comment

  1. Tenho paixão pela minha terra -Tomar . Aos 11 anos fui com meus pais para África, mas o meu ❤ esteve sempre saudoso das boas recordações da infância e hoje recordo com muita saudável o dia k fui nesta procissão , vestida de anjinho e lancei ao Rio Nabao as flores para Santa Iria. Foi um momento muito marcante que ainda hoje me comove falar disto, e tenho 77 Anos. Nasci numa casa linda em frente ao mouchao e Jardim que ainda existe embora mt degradada. Encontra-se à venda…saudades que o tempo não apaga. 💔

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