Foto: DR

“Cruzei-me” pela primeira vez com o Miguel Esteves Cardoso numa fase ainda precoce da minha vida. Apesar disso, apreciei desde logo o seu estilo, a sua ironia e a capacidade que ele tinha de conseguir explicar o complexo de forma simples.

Convém recordar que nestes tempos ainda não havia internet e o acesso à informação lida, estava praticamente circunscrito aos livros e aos jornais.

Mais tarde, tive oportunidade de o ver noutro registo quando integrou o painel de comentadores do programa da SIC, “A noite da má-língua” e tenho que confessar que, apesar de lhe continuar a achar piada, a minha preferência ia para o Rui Zink.

Entretanto, com o passar dos anos e com a ajuda da internet, tenho tido a oportunidade de continuar a acompanhar a sua escrita e, apesar de não concordar com tudo o que escreve, continuo a reconhecer-lhe o mérito de provocar reações, olhando para lá do óbvio e permitindo aumentar a perspetiva sobre determinadas realidades.

Na semana passada, a “altas horas” de uma das madrugadas, aproveitando um dos raros momentos em que o comando de televisão foi meu e enquanto aproveitava para fazer “zapping”, voltei a cruzar-me com o MEC. Fiquei então a saber que a RTP2 estava a repetir o programa “Fugiram de casa de seus pais”, que junta o Miguel, o Bruno Nogueira e por vezes algum convidado, em conversas aparentemente leves, com um permanente toque de humor mas que abordam temas com maior profundidade do que aquilo que aparentam à primeira vista.

Em determinada altura da conversa, que naquele programa era apenas entre o Miguel e o Bruno, o Miguel partilhou um episódio que se tinha passado com ele pouco tempo depois de ele ter chegado a Inglaterra. Disse ele que era normal juntarem-se em grupo numa pequena sala para debaterem vários assuntos e, como era hábito, alguém lançou um tema para reflexão.

Apercebendo-se que ficaram todos calados e sentindo-se incomodado com o silêncio que se instalou naquela sala, aventurou-se a dar a sua opinião, convicto que ia marcar pontos perante os seus pares.

Qual não foi a sua admiração quando percebeu que a sua resposta tinha provocado reações negativas.

Como veio a perceber mais tarde, as reações negativas não eram direcionadas à sua resposta mas ao “ruído” provocado pela sua resposta, porque os seus colegas que tinham ficado em silêncio, estavam a aproveitar esse silêncio para pensar em abordagens novas ou originais sobre o tema que tinha sido lançado para reflexão. Essas respostas só seriam partilhadas se realmente concluíssem que seriam novidade e que iriam contribuir para um maior conhecimento sobre o tema.

Talvez seja isto que culturalmente nos diferencia de grande parte dos países da Europa e do mundo. Fazemos mas não planeamos porque perdemos ou nunca tivemos o hábito de pensar e é precisamente por causa disso que somos um povo que tem mais opiniões que respostas.

Talvez seja por usar este “método” que Miguel Esteves escreva para lá óbvio. Percebo agora que ele investe tempo a pensar nas coisas. E é por isso que ele não se importa de mudar de opinião porque o conhecimento é algo em permanente evolução. E quem tem o privilégio de se cruzar com ele, percebe que isso é viciante. E ao contrário do que se possa “pensar”, talvez porque nunca se tenha perdido tempo realmente a pensar, há vícios que fazem muito bem.

É gestor e trabalhar com pessoas, contribuir para o seu crescimento e levá-las a ultrapassar os limites que pensavam que tinham é a sua maior satisfação profissional. Gosta do equilíbrio entre a família como porto de abrigo e das “tempestades” saudáveis provocadas pelos convívios entre amigos. Adora o mar, principalmente no Inverno, que utiliza, sempre que possível, como profilaxia natural. Nos tempos livres gosta de “viajar” à boleia de um bom livro ou de um bom filme. Em síntese, adora desfrutar dos pequenos prazeres da vida.

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