“Pela sua Saúde” é uma rubrica onde médicos de diferentes especialidades partilham informação com os nossos leitores, visando contribuir para a prevenção de doenças e a promoção da saúde.
O Linfoma é a doença maligna de sangue mais frequente e resulta da proliferação de células de origem linfóide. Em situações normais, estas células – chamadas linfocitos – combatem infeções virais ou bacterianas e multiplicam-se, em especial nos órgãos linfóides – nomeadamente os gânglios linfáticos. Resolvida a infeção, estas células morrem e tudo volta ao normal. No entanto, quando se tornam malignas vão continuar a multiplicar-se, mesmo sem qualquer estímulo exterior. É por isso que os sintomas mais comuns nesta doença são o aumento de volume e inchaço persistente dos gânglios linfáticos, que se notam em especial no pescoço, axilas ou virilhas.
Mas os ganglios envolvidos podem estar no interior do corpo, e nesse caso não se detectam facilmente. O seu crescimento pode originar sintomas de compressão de órgãos ou tecidos adjacentes. Nesse caso levarão a queixas como dispneia (falta de ar), tosse ou cansaço, se a compressão ocorrer no tórax, comprimindo veias ou tecido pulmonar, ou enfartamento, alterações do trânsito intestinal ou edema / inchaço dos membros inferiores quando se localizam dentro do abdómen. O linfoma pode, na realidade, ocorrer em qualquer órgão do corpo humano (por exemplo: amígdalas, estômago, fígado / baço, intestino, pele)
A doença pode evoluir de forma lenta ou, pelo contrário, de modo rápido e acompanhada de sintomas como febre, perda de peso ou suores nocturnos. A comichão ou aparecimento de manchas na pele, persistentes, podem também ocorrer, como dissemos no início, confundindo-se com eczema ou psoríase.
O linfoma pode surgir em qualquer idade mas é mais frequente nos idosos (mais de metade dos doentes têm mais de 65 anos). A sua incidência tem vindo a aumentar devido à maior longevidade do ser humano. Têm-se identificado múltiplas causas para o seu aparecimento, como infeções virais, doenças auto-imunes, exposição a produtos químicos ou radiação e mesmo a obesidade.
Em 1832, Thomas Hodgkin, um médico patologista em Londres, descreveu pela primeira vez este tipo de doença, que veio a tomar o seu nome. No entanto, com o desenvolvimento da análise das células e tecidos, sabemos agora que há uma enorme variedade de tipos de linfoma (mais de 50 sub-tipos). Sabemos que o linfoma de Hodgkin, o primeiro a ser descrito, é na realidade muito menos frequente do que os Linfomas não Hodgkin, que constituem a grande maioria – 85%.
Não há indicação para efectuar testes de rastreio no linfoma, mas é importante estar atento aos sintomas que referimos e consultar o médico em caso de dúvida.
É fundamental para o diagnóstico saber o tipo exacto de célula linfóide envolvida, pois disso depende a escolha do tratamento correcto. este, por sua vez, é muito heterogéneo: há situações em que não se preconiza nenhum tratamento, dado tratar-se de doença muito indolente; outros casos, como nalguns linfomas do estômago, a cura é obtida com antibióticos. Mas também pode ser necessário o tratamento com quimioterapia, radioterapia ou modalidades mais modernas que consistem em várias formas de imunoterapia.
Certo é que nos últimos anos, felizmente, temos observado uma enorme evolução no tratamento do linfoma. Atualmente, enfatizando que existem abordagens particulares em vários subtipos deste cancro, a combinação de quimioterapia, corticóides e anticorpos monoclonais é o tratamento inicial de eleição na maioria dos casos.
No caso do linfoma de Hodgkin , os resultados atuais são particularmente optimistas, obtendo-se cura em cerca de 80% dos casos, e em mais de 90% quando a doença é detectada muito precocemente. O desafio está no tratamento da doença quando esta reaparece ou não responde ao tratamento inicial.
As taxas de cura e os períodos de remissão – aqueles em que a doença não se manifesta –, têm vindo a aumentar. Mas, se a evolução foi gigante nos últimos 50 anos, precisamos ainda de muito desenvolvimento da ciência básica para melhorar os resultados. Mesmo os doentes curados devem ser observados periodicamente pelo médico. O impacto do diagnóstico e receio da recidiva da doença, podem justificar o seguimento psicológico.
Há efeitos secundários tardios da terapêutica que devem ser monitorizados , bem como a possibilidade de segundos tumores, em especial se houve factores de risco associados antes do diagnóstico. A deficiência do sistema imune pode persistir, pelo que se deve estar atento aos planos de vacinação, em especial na era COVID.
É muito importante também manter um estilo de vida saudável, evitando tabaco, álcool e excesso de peso.

