Não que tenha caído em qualquer armadilha ou tenha sido engolido por um anzol, o que é certo, é que o tema por mim abordado neste mesmo espaço no início do mês passado, intitulado “match fixing”, nunca foi tão a propósito, como dias depois se veio a confirmar, com a detenção de vários jogadores e outros agentes relacionados com o fenómeno futebolístico.
E não se tratou de qualquer premonição, pois a posição por mim então assumida, a qual assentava na inexistência no nosso país de qualquer caso com tais contornos ou mesmo a possibilidade remota de haver indícios de jogos combinados, estavam completamente afastados.
Contudo, os factos vieram a confirmar, ou talvez não (a presunção da inocência é um direito constitucional em que todos os arguidos se presumem inocentes até ao trânsito em julgado da sentença de condenação, epílogo que ainda está longe), que não há fumo sem fogo.
Numa acção da Polícia Judiciária, foi levada a cabo a operação “Jogo Duplo” que culminou na última jornada do segundo escalão dos campeonatos profissionais (Ledman Liga Pro) com a prisão preventiva de vários jogadores do Oriental e Oliveirense, para além de dirigentes do Leixões e outros indivíduos com ligações ao mundo das apostas desportivas.
Em causa está precisamente o motivo que eu entendia estar muito longe de ser realidade no futebol português, ou seja, a possibilidade de existirem factos susceptíveis de configurarem crimes de corrupção activa e passiva na actividade desportiva, ou seja, o adulterar da verdade desportiva através da manipulação de resultados de jogos de futebol, neste caso da Liga Ledman Pro, com o recurso e influência directa de jogadores neles participantes.
Entre diferentes medidas de coação que foram adoptadas, como a prisão preventiva, proibição de contactos entre os arguidos, termo de identidade e residência ou tão só a suspensão de exercer funções directivas, que afectam cada um dos envolvidos, uma das muitas dúvidas e interrogações que se levantam dizem respeito às consequências que deste processo poderão decorrer quanto à composição dos quadros competitivos do futebol profissional, em função da penalização, traduzida numa possível despromoção de uma ou mais equipas, que poderá verificar-se, tendo em conta a instauração de eventuais processos disciplinares.
Em consciência, espero mais uma vez não estar a seguir pelo caminho errado, não acredito que essa possibilidade possa vir a ter repercussões no imediato, ou seja, com efeitos no campeonato da próxima época, 2016/2017. Apesar de ainda estarmos dentro do período de 30 dias correspondente ao prazo para homologação dos resultados e respectivas classificações e o próprio regulamento de competições prever a suspensão da dita homologação caso existam denúncias de corrupção, não é crível que qualquer investigação esteja concluída antes do início dos campeonatos no próximo mês de Agosto.
E se atendermos à celeridade que a justiça tem revelado, seja ela de que âmbito for, mais fundamentada está esta minha conclusão.
Qual ‘dejá vu’, estamos perante mais um verão quente no futebol português e como se não bastasse, temos ainda a recente decisão do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa, a qual decretou a integração do Gil Vicente no principal escalão do futebol português na sequência do célebre “Caso Mateus”.
A coisa promete. Pelo meio, valha-nos o Campeonato da Europa em França, na expectativa de uma prestação que mantenha o futebol luso nos patamares que nos últimos tempos nos tem habituado.
