Pedro Chagas Freitas esteve esta quinta-feira, dia 25 de junho, em Abrantes. Foto: CMA

O escritor Pedro Chagas Freitas esteve na quinta-feira em Abrantes, onde protagonizou uma sessão integrada no I Fórum do Conhecimento, perante um auditório lotado na Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Fernandes. Ao longo de uma intervenção marcada pelo testemunho pessoal, refletiu sobre a doença, a parentalidade, a empatia e o modo como as pessoas enfrentam o sofrimento, defendendo que a alegria pode ser uma das mais importantes ferramentas para enfrentar o medo.

Após um momento musical, protagonizado por alunos do Agrupamento de Escolas Nº2 de Abrantes, a sessão foi aberta pela vereadora da Câmara Municipal de Abrantes, Raquel Olhicas, que sublinhou a importância de continuar a colocar “as pessoas, as relações humanas e a construção de uma comunidade cada vez mais coesa, mais solidária e mais humana” no centro das políticas públicas.

A responsável destacou que, apesar da crescente atenção dada à inovação e à tecnologia, “há uma dimensão que continua a ser essencial: a dimensão humana”, defendendo que o investimento na educação deve traduzir-se, antes de tudo, num investimento nas pessoas.

Raquel Olhicas, vereadora na CMA. Foto: mediotejo.net

Antes de iniciar a conferência, Pedro Chagas Freitas apresentou o livro O Rei Tigão, cuja receita reverte integralmente para a Unidade de Hepatologia e Transplantação Hepática Pediátrica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, onde o filho, Benjamim, permaneceu internado durante vários meses.

O autor explicou que os direitos de autor da obra já permitiram adquirir equipamento destinado a melhorar as condições de permanência dos pais das crianças internadas, incluindo eletrodomésticos, camas desdobráveis, poltronas e outros equipamentos que, embora não façam parte dos cuidados clínicos, contribuem para conferir maior conforto e dignidade a quem permanece longos períodos no hospital.

Revelou ainda que os fundos atualmente angariados terão como destino apoiar financeiramente as famílias que, vindas de diferentes pontos do país, se veem obrigadas a procurar alojamento em Coimbra durante os internamentos prolongados.

Foto: mediotejo.net

A experiência da doença do filho, conjugada com a morte do pai, constituiu o ponto de partida para uma reflexão que, segundo o escritor, não pretende ensinar nem indicar caminhos, mas apenas partilhar aquilo que viveu.

“Eu não sou guru de nada”, afirmou, explicando que procura apenas transmitir a perspetiva de quem esteve “do lado de cá” enquanto familiar de uma criança internada, na expectativa de que essa experiência possa ser útil a profissionais de saúde, cuidadores e famílias.

Uma das ideias centrais da intervenção incidiu sobre o papel da alegria em contexto de doença. Pedro Chagas Freitas descreveu o ambiente vivido na ala pediátrica como um espaço onde médicos, enfermeiros, assistentes operacionais e famílias procuram transformar momentos inevitavelmente difíceis em experiências menos traumáticas para as crianças.

Recordou episódios em que corredores se convertiam em pistas para corridas improvisadas ou em que quem entrava no quarto era desafiado a cantar e a dançar antes de prestar cuidados. Não porque isso alterasse a realidade clínica, explicou, mas porque modificava a forma como essa realidade era vivida. “A piada não muda nada, mas muda uma coisa fundamental: a perceção”, afirmou.

Ao recordar os meses passados no hospital, reservou palavras de particular reconhecimento para os pais das crianças internadas, que classificou como “os maiores heróis” que conheceu. Referiu ter testemunhado situações em que mães e pais, conscientes da gravidade da condição dos filhos, continuavam a encontrar forças para lhes proporcionar momentos de alegria até ao fim, considerando esse um dos maiores exemplos de coragem que presenciou.

Outro dos eixos da conferência incidiu sobre o conceito de empatia. O escritor criticou a utilização de expressões frequentemente dirigidas a pessoas em situação de doença ou de luto, como “vai correr tudo bem”, “podia ser pior” ou “Deus dá as grandes guerras aos grandes guerreiros”, defendendo que, apesar de serem proferidas com boas intenções, podem aumentar o sofrimento de quem as recebe.

Foto: mediotejo.net

Na sua perspetiva, a verdadeira empatia não consiste em oferecer respostas ou soluções imediatas, mas em saber escutar, respeitar o silêncio e acompanhar quem sofre sem impor interpretações ou expectativas.

Entre as várias histórias partilhadas, destacou a pergunta que o filho lhe fez após um longo dia de exames: “Será que amanhã posso ter um dia cheio de nada?”. A expressão acabou por se transformar numa metáfora para a forma como passou a encarar a vida. Enquanto fora do hospital se valoriza um quotidiano preenchido por compromissos e objetivos, explicou, durante o internamento compreendeu que um bom dia podia ser simplesmente aquele em que nada de extraordinário acontecia.

Foi essa inversão de perspetiva que procurou transmitir ao público de Abrantes, defendendo a valorização das pequenas rotinas, das relações humanas e da capacidade de encontrar espaço para a alegria, mesmo em circunstâncias particularmente adversas.

Foto: mediotejo.net

A conferência integrou a primeira edição do Fórum do Conhecimento, iniciativa promovida pelo município de Abrantes dedicada à reflexão sobre temas ligados à educação, ao desenvolvimento pessoal e ao bem-estar.

O programa arrancou durante a tarde, na Escola Dr. Solano de Abreu, sob o título “Sinto, logo existo”, sessão conduzida pela psicóloga clínica Maria Miguel Barbosa. A iniciativa dirigiu-se sobretudo aos alunos do ensino profissional, mas aberta à participação de toda a comunidade.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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