A bateira dos pais foi a primeira casa de Vítor Tomás, mestre que, com 83 anos, anseia por passar o saber-fazer de uma embarcação cujas técnicas de construção, aliadas aos usos e costumes, são candidatas a Património Cultural Imaterial.

Em junho, por iniciativa do Instituto Politécnico de Santarém, foi entregue na Direção Geral do Património Cultural (DGPC) uma proposta de candidatura das artes e saberes de construção e uso da bateira avieira na aldeia ribeirinha das Caneiras (junto ao Tejo), no concelho de Santarém, ao inventário nacional do Património Cultural Imaterial.

A candidatura nasceu de um projeto mais ambicioso, para classificar o conjunto da cultura avieira, oriunda das comunidades piscatórias de Vieira de Leiria (concelho de Marinha Grande, distrito de Leiria) que no início do século XX migraram para as margens do Tejo e do Sado.

“Percebemos que se há alguma coisa de particular e paradigmático na cultura avieira é o barco, porque é sobre o barco que assenta toda uma cultura: o barco era a casa, o sítio onde se criavam os filhos” e não um objeto solto, realçou à Lusa Luís Gomes, um dos dois antropólogos que viveram quatro meses na aldeia para fundamentarem a candidatura, no âmbito de um trabalho que envolveu mais dois antropólogos, uma historiadora e um assessor técnico.

Vítor Tomás, o único habitante da aldeia que continua a construir a bateira como aprendeu com o pai, contou à Lusa como a mãe “arrumava” oito dos seus 10 filhos para dormirem na metade da frente da embarcação, como tinham que aguentar os temporais que levantavam o toldo que lhes servia de abrigo ou como improvisavam colheres com pão quando as de lata não davam para todos comerem a sopa da ceia na mesa improvisada com um “paninho” no traste (tábua a meio do barco).

Com a mãe a remar e o pai dedicado às artes da pesca – feita à noite quando a água do Tejo não era suficientemente “barrenta” durante o dia para esconder as redes dos peixes -, os filhos por vezes eram deixados a dormir num mouchão (ilha) em baixo de um toldo de pano cru tingido com casca de salgueiro e pinho.

“O pescador antigamente, como se governava do Tejo, estava sempre perto do rio”, disse Vítor Tomás, contando que o barco deixou de ser a casa de todo o dia quando começaram a ser construídas “umas barraquinhas”, primeiro de palha e depois, para os que conseguiam um pouco mais de dinheiro, em madeira de pinheiro, colocadas por cima de estacas com um solho, dando origem às aldeias palafíticas do Tejo.

Foi com o pai que Vítor aprendeu a construir a tradicional bateira, da mesma forma que o pai aprendera com o seu pai, originário de Vieira de Leiria, de onde veio (para a aldeia da Palhota, no concelho do Cartaxo) numa das migrações à procura do sustento do rio, quando o mar revolto do inverno não permitia a pesca. A viver nas Caneiras desde o casamento com Eulália Pelarigo, gostaria muito de passar esse saber a quem com ele queira aprender.

Conseguir inscrever as artes e os saberes de construção e uso da bateira avieira no inventário do património imaterial é, para Luís Gomes, muito importante para a preservação de um conhecimento que tem no mestre Tomás uma representação viva.

“Não desaparecendo esse conhecimento, o objeto pode continuar a adaptar-se” às alterações do meio ambiente e das vivências de uma comunidade que, apesar das mudanças ocorridas ao longo dos anos (nomeadamente nas habitações), mantém “toda uma relação com o rio”.

Teresa Serrano, vice-presidente do Instituto Politécnico de Santarém, acredita que o registo no inventário poderá dar visibilidade à cultura avieira, fazendo com que as autarquias “se voltem para o rio” e para as suas potencialidades, nomeadamente turísticas, área em, adverte Luís Gomes, as comunidades têm que ser elas próprias protagonistas.

Os inúmeros trabalhos sobre a cultura avieira realizados desde 2009 vão ser disponibilizados brevemente num ‘e-atlas’, uma plataforma digital, em várias línguas, adiantou Teresa Serrano. O resultado do levantamento que deu origem à candidatura pode ser visto na página da Internet da DGPC.

 

Agência Lusa

Agência de Notícias de Portugal

Entre na conversa

1 Comentário

  1. Good Morning,
    We retirees are very interested in the knowledge, construction and use of the boats Avieiro Bataira as they sail on the river Tejo. For more than 20 years we have sailed here in Amsterdam with a traditional boat from Thailand. However, it has become too big for us with too much maintenance. A few years ago we camped near Salvaterra and Escaroupim Marina on the Tejo. We suddenly fell in love with these boats and would like to buy an Avieiro Bataira! Maybe a used or a new one! Is that possible? We would like to travel to Portugal and get in touch with owners or shipyards who may have a boat for sale or can build one? Can you help us further.?

    Os reformados estão muito interessados no conhecimento, construção e utilização dos barcos Avieiro Bataira durante a sua navegação no rio Tejo. Por mais de 20 anos, navegamos aqui em Amsterdã com um barco tradicional da Tailândia. No entanto, tornou-se grande demais para nós com muita manutenção. Há alguns anos acampámos perto de Salvaterra e da Marina de Escaroupim no Tejo. De repente, nos apaixonamos por estes barcos e queríamos comprar um Avieiro Bataira! Pode ser usado ou novo! Isso é possível? Gostaríamos de viajar para Portugal e entrar em contacto com proprietários ou estaleiros que possam ter um barco à venda ou construir um? Você pode nos ajudar mais?
    With kindly regards,

    Paul Hendriks e Ceciel Kappers.
    Prinseneiland 107a ,
    1013LN Amsterdam. Holland
    Telefone 0031 6 29510532
    e-mail: info@pamhendriks.nl

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.