O patriarca de Lisboa afirmou, no Santuário de Fátima, que não se pode ignorar a realidade do mundo ferido pela guerra e considerou que “não haverá paz na terra sem paz no coração”. Rui Valério disse ainda que em Fátima “ninguém é estrangeiro” e considerou que a humanidade só vai encontrar paz quando descobrir que é família.
“Não podemos ignorar a realidade. O nosso mundo está ferido, ferido pela guerra, onde irmãos se enfrentam e a vida humana é esmagada, ferido pela violência, que tantas vezes se infiltra nas relações e nas palavras, ferido pela divisão, que fragmenta povos, famílias e comunidades, ferido pela solidão, que atinge tantos, mesmo no meio das multidões, ferido pelo egoísmo, que fecha o homem sobre si mesmo”, disse Rui Valério.
Na homilia, depois da procissão das velas na peregrinação de 12 e 13 de maio, Rui Valério considerou que “é o coração humano que precisa de ser curado, iluminado, renovado”, destacando que “é no coração de cada homem e de cada mulher que começa a verdadeira mudança do mundo”.
Segundo o patriarca, “não haverá paz na terra sem paz no coração, não haverá luz na história sem luz na alma”.
Ao presidir, pela primeira vez, a uma peregrinação internacional ao maior santuário mariano do país, Rui Valério dirigiu-se aos milhares de fiéis presentes – 250 mil de acordo com o santuário -, lembrando que carregam “o peso dos dias e a esperança do coração”.
“Olhamos para esta multidão de velas acesas neste santuário, cada chama é uma história, cada luz é uma alma que decidiu não permanecer nas trevas. Cada vela é um sinal de resistência interior: não queremos viver na escuridão, não aceitamos que o mal tenha a última palavra”, continuou.
Ao referir-se à Virgem de Fátima “como sinal de esperança” que “vem ao encontro de um mundo ferido” e traz uma mensagem de “oração, penitência, conversão, confiança em Deus”, o patriarca de Lisboa adiantou que “não basta acender uma vela, não basta receber luz”, mas é “preciso tornar-se luz”.
“E isto começa nos gestos simples do quotidiano: no perdão oferecido quando seria mais fácil guardar rancor, na reconciliação procurada quando a divisão parece definitiva, na proximidade a quem está só, a escuta paciente de quem sofre, na caridade concreta que toca a vida do outro”, preconizou.
Rui Valério disse ainda que a peregrinação a Fátima “não é apenas uma tradição”, antes “uma imagem viva da Igreja”.
“Somos muitos, caminhamos juntos, mas cada um leva a sua vela”, afirmou, sublinhando que se trata de “unidade na diversidade, um só povo, muitas histórias, uma só fé, muitas vidas”.
Para Rui Valério, “esta procissão é um testemunho para o mundo, a Igreja é um povo em caminho, que não desiste, que não se resigna, que continua a acreditar que a luz vence as trevas”, desafiando os peregrinos a entregarem à Virgem de Fátima “os medos, as dúvidas, os pecados, as feridas escondidas”, e a pedir que faça deles “luz no meio do mundo”.
O patriarca de Lisboa, de 61 anos, é natural de Urqueira, no concelho de Ourém.
Na conferência de imprensa que antecedeu a peregrinação, declarou que Fátima, a “poucos quilómetros” da sua terra natal, é uma “realidade que está intrinsecamente associada e presente” na sua biografia.
“A minha primeira catequese foi Fátima, foi Nossa Senhora, mercê da dádiva de uma avó que foi testemunha do 13 de outubro de 1917 e que, enfaticamente, partilhava a experiência que aqui viveu, ainda jovem, em 1917, quando, como ela dizia, viu bailar o sol”, recordou.
Para Rui Valério, estar em Fátima e, sobretudo, presidir às celebrações, “mais do que um ato de memória, é um reencontro” com as suas fontes.
Patriarca de Lisboa diz que em Fátima ninguém é estrangeiro
O patriarca de Lisboa, Rui Valério, afirmou hoje que em Fátima “ninguém é estrangeiro” e considerou que a humanidade só vai encontrar paz quando descobrir que é família.
“Esta é uma das maiores profecias de Fátima para o nosso tempo: a humanidade só encontrará paz quando descobrir, novamente, que é família. Aqui ninguém é estrangeiro, aqui ninguém está sozinho”, disse Rui Valério, na missa de encerramento da peregrinação ao Santuário de Fátima de 12 e 13 de maio.
Aos milhares de fiéis, Rui Valério começou por dizer que Fátima “não é um ponto de chegada”, mas um “ponto de partida, um ponto de envio”.
“Viemos como peregrinos, partimos como discípulos missionários. Tudo aquilo que aqui vivemos – os passos sofridos, a oração, o silêncio, a conversão, a reconciliação, a comunhão – não pode permanecer encerrado e terminado nesta Cova da Iria. Tem de descer à vida, tem de entrar nas nossas casas, nas nossas famílias, nas nossas cidades e aldeias, no nosso trabalho, nas nossas escolas e universidades, nas nossas relações, nas feridas e alegrias, nas lágrimas e nos sorrisos do quotidiano”, prosseguiu.
O patriarca disse que “a Mensagem de Fátima só é verdadeiramente acolhida quando se transforma em missão” e salientou que a verdadeira experiência cristã começa “quando o homem deixa de olhar apenas para si mesmo”.
“O cristão não leva ao mundo apenas palavras, leva uma luz recebida, leva um coração transformado, leva uma paz nascida da contemplação. Por isso, Fátima não é apenas um lugar de devoção”, é “uma escola de transformação interior”, notou.
Segundo Rui Valério, em Fátima aprende-se que “a humanidade só reencontra o caminho quando voltar a levantar os olhos para Deus”, para realçar que “em Maria gera-se a nova humanidade”, de corações reconciliados, em que “o outro deixa de ser uma ameaça” e passa a ser um irmão.
À “multidão imensa reunida em oração”, 180 mil peregrinos de acordo com o santuário, “vindos de tantos lugares, falando tantas línguas, trazendo histórias tão diferentes”, lembrou que estão unidos pela mesma luz.
Na primeira grande peregrinação do ano ao maior templo mariano do país, 109 anos depois dos acontecimentos na Cova da Iria, o patriarca de Lisboa lembrou ainda aos fiéis que “não basta admirar Fátima” e gostar de lá ir, “é preciso viver Fátima”: “Não basta acender a vela, é preciso tornar-se luz”.
“Não basta passar por este lugar, é preciso deixar que este lugar passe pela nossa vida toda”, insistiu, desafiando os peregrinos a “levar esperança aos desanimados, aos doentes, aos excluídos”, “levar reconciliação onde há divisão” e “paz onde há violência”.
Hoje passam 45 anos sobre o atentado ao Papa João Paulo II (1920-2005), na Praça de São Pedro, em Roma, cuja bala está na coroa na Imagem de Nossa Senhora.
Na missa está a ser usado um cálice que o Papa polaco ofereceu ao santuário numa das três visitas que fez a Fátima.
Na terça-feira, na conferência de imprensa que antecedeu a peregrinação internacional de 12 e 13 de maio, o reitor do santuário, padre Carlos Cabecinhas, recordou a data.
“Há 45 anos, percebemos de forma mais clara que, como lembra a Mensagem de Fátima, o poder da oração é mais forte que o poder das balas”, afirmou Carlos Cabecinhas, referindo que “olhar para aquela bala é olhar para os dramas da história da humanidade, a que não pode ser alheia a Igreja, desde logo a partir da figura dos papas, como também Leão XIV tem demonstrado neste primeiro ano de pontificado”.
No ano seguinte, em 1982, João Paulo II faria a primeira peregrinação a Fátima, para agradecer à Virgem de Fátima por tê-lo salvado do atentado.
Na noite de 12 de maio, ao subir a escadaria do santuário, foi alvo de uma tentativa de assassinato pelo padre espanhol Juan Fernández Krohn.
Lusa

