Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, de Mia Couto, é a sugestão apresentada por Nuno Ferreira, da Biblioteca Municipal Alexandre O’Neill, em Constância. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

A nossa sugestão para os leitores do Médio Tejo é o romance de Mia Couto, publicado em 2008, intitulado “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”. O autor, de seu nome completo António Emílio Leite Couto, nasceu na cidade da Beira (Moçambique) a 5 de julho de 1953, é um dos maiores escritores de língua portuguesa vivos, tendo desde cedo começado a ter interesse pelas palavras e pela escrita, foi ao longo da sua carreira literária galardoado com inúmeros prémios literários, sendo os mais sonantes o Prémio Camões (2013) e o Prémio Neustadt (o equivalente ao Nobel do Continente Africano, em 2014).

Mia Couto teve um percurso peculiar, após os estudos iniciais na sua terra natal, desloca-se para a capital, a então Lourenço Marques em 1971 para estudar Medicina. Virá a abandoná-la no terceiro ano para se tornar jornalista, que trocará em 1985 para se dedicar aos estudos universitários, na área da biologia. É biólogo e professor de Ecologia na Universidade Eduardo Mondlane.

A sua forma de escrever e de contar histórias e contos é muito peculiar porque tenta recriar a língua portuguesa com influência da cultura moçambicana, recorrendo ao léxico das várias regiões do seu país.

A sua obra inclui poesia, os contos, o romance e crónicas, estando as suas obras traduzidas em mais de 22 países e em várias línguas. À semelhança de outros autores africanos e latino-americanos a sua obra incorpora o realismo mágico/animista, o próprio reconhece muita influência da obra do grande escritor brasileiro Jorge Amado (1912-2001).

A obra que vimos sugerir bebe do seu imaginário africano e desse realismo mágico, a história relata-nos a odisseia do jovem médico português Sidónio Rosa, que se apaixona por Deolinda, uma mulata moçambicana que conheceu num congresso médico em Lisboa. Abandonando tudo, Sidónio desloca-se como cooperante para Vila Cacimba, a terra natal da sua amada. Quando chega a casa dos pais de Deolinda depara-se com a sua ausência, porque supostamente se encontra a realizar um estágio, e enquanto aguarda a sua chegada, surge entre a névoa de Vila Cacimba, uma estranha epidemia que o obriga a tratar dos seus habitantes e que os transforma em “tresandarilhos” segundo o narrador, enquanto decorre a espera, vai comunicando com Deolinda por cartas que lhe chegam às mãos por intermédio de Munda (mãe de Deolinda).

O romance é marcado por temas que sempre interessaram a Mia Couto, a multietnicidade dos personagens, a sua complexidade e a construção de uma identidade, que se confunde com a construção da entidade moçambicana.

Um romance sempre pejado de referências ao imaginário mágico e fantástico e à tradição africana. Boa leitura!

Nuno Ferreira

Responsável pela Biblioteca Municipal Alexandre O'Neill em Constância

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