Convidámos os responsáveis pelas bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço todas as segundas-feiras, de forma alternada. “Uma Conspiração de Estúpidos”, do escritor John Kennedy Toole, é o livro sugerido esta semana por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento.

Passe pela biblioteca… e boas leituras!

O título Uma Conspiração de Estúpidos ou, mais à letra, Uma Confederação de Tolos, baseia-se num pensamento de Jonathan Swift:

“Quando um verdadeiro gênio se mostra ao mundo, reconhece-se logo da seguinte maneira: todos os idiotas se juntam e conspiram contra ele.”

Será que era o personagem, o autor, ou ambos que tinham esse sentir?

Foi o título que me levou ao livro, pensando, no fundo, que muito do que acontece neste mundo, poderá não passar numa conspiração de tolos, e era isso que esperava. Não fiquei desiludido.

Uma Conspiração de Estúpidos é um livro de ficção, tragicómico, a que foi atribuído o Prémio Pulitzer de ficção em 1981. O autor, John Kennedy Toole, já havia escrito, com a idade de dezasseis anos, a novela Bíblia de Néon (editado pela Terramar) que, tal com este, The Confederacy of Dunces (título original), nunca veria publicado em vida.

Foi a sua mãe que, em 1980, decidiu recorrer ao escritor Walker Percy, convencendo-o a ler o romance, o que Percy fez relutantemente. Em boa hora aceitou o empreendimento, porque Walker Percy, escritor premiado, chegou ao fim da leitura do manuscrito, certo que tinha uma obra de grande valor entre mãos. O sucesso, para além do prémio, foi o de se tornar uma obra de referência da costa sul americana, este e central, em que um vasto número de culturas se cruzam.

Walker Percy, referiu-se ao personagem principal da obra Ignatius Reilly, com “uma mistura, de um Oliver Hardy louco, com um D. Quixote gordo e um Tomás de Aquino perverso”. Por aqui se pode apreciar a personalidade invulgar e tresloucada de Ignatius Reilly.

Todo o romance é um hino burlesco do desajuste social e comportamental doentio do personagem. Inserida na narração, Toole descreve Nova Orleães com uma fidelidade e respeito linguístico pelos diferentes sotaques das diversas culturas que aí se misturam. o que é uma das grandes referências do seu trabalho. Nova Orleães é o local onde toda a ação de desenvolve, local de onde Ignatius nunca saiu, exceto para uma traumática viagem a Baton Rouge, que ele conta a todos os que se dispõem a ouvi-la.

John Kennedy Toole, jovem de formação superior, começa a escrever este romance enquanto cumpria o serviço militar em Porto Rico, a ensinar inglês aos soldados hispânicos. Amigos, que o viam com regularidade, descreveram que ele se isolou doentiamente para escrever esta obra, na qual se embrenhou de tal forma, até que lhe começaram a ver traços comportamentais similares ao do personagem principal Ignatius Reilly. Aí começaria, um descontrolo psíquico que reunido com a recusa da publicação da obra pelos editores o levaria, presumivelmente, ao suicídio em 1969.

Fala-se de Toole, como um génio de curta vida. A sua escrita eivada de um humor que, frequentemente, nos faz soltar sonoras e inesperadas gargalhadas, devem-se em tudo à magnífica descontextualização social e mental de Ignatius Reilly e às situações mais descabidas em que se envolve.

Ignatius Relley é um jovem que tarda em afirmar-se como escritor, vive a expensas da mãe, alcoólica que, devido a um acidente rodoviário se vê envolvida num problema de indemnização que, para ser liquidado, pode levar à hipoteca da sua casa, onde reside com o filho. Ignatius, o filho, não consegue imaginar-se fora daquela casa, em o seu quarto é o seu bunker anti sociedade, onde se refugia para elaborar os seus escritos anti sociais nos seus blocos “Big Chief” .

Um romance cómico, tragicómico ou até burlesco, vem em contra corrente de grande parte da literatura americana que conhecemos. A história tem muito de rocambolesca, se pensarmos que é impossível na realidade atingir tais píncaros tragicómicos. Os personagens, a começar pelo magnífico Ignatius, de imponente estatura proporcional à falta de desenvoltura, provocada pela sua imponente massa corporal adiposa.

Irene Relley, sua mãe, a pouco e pouco, fruto do convívio com um polícia e uma amiga, consegue livrar-se daquela missão de viver em função de Ignatius, consegue, após longa viuvez, refazer a vida com um comerciante que a amiga lhe apresenta. É, ainda, por influência dessa amiga que vem a internar o filho numa instituição para doentes mentais. É a sua libertação pessoal e o entendimento de que o filho era um perigo para ele mesmo, para ela e para os outros.

Foi tentada a sua adaptação a filme o que, por circunstâncias várias, ainda não aconteceu. John Candy, saudoso autor, foi um dos escolhidos para personagem principal na segunda tentativa, e que bem lhe assentava o personagem, que não chegou a bom porto por falecimento de um ator principal do elenco, o que levou ao fim do projeto. Espero, ainda, ver uma adaptação deste notável romance.

No local da cena inicial do romance, enquanto Ignatius espera pela mãe que fora às compras, existe hoje uma estátua de bronze que o personifica, tendo servido de modelo o autor John “Spud” McConnell, que representou o personagem numa dramatização desta obra em palco.

Bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento

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