Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. Margarida Teodora Trindade, da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, de Torres Novas, sugere “O Silêncio”, de Don DeLillo. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

ÁUDIO | SUGESTÃO DE LEITURA DE MARGARIDA TEODORA TRINDADE
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Ao ler as primeiras páginas ocorreu-me que se tratava de uma reflexão sobre o tempo. Sobre o tempo morto ou de como lidar com o tédio mesmo que ele surja numa viagem de avião no regresso de um período de férias no estrangeiro, quando as circunstâncias não nos permitem mais do que estar sentados à espera de que se vença a distância. Ou de como diz uma das personagens «matar o tempo, apanhar secas, viver a vida.»

Comecei logo aqui a lidar com um dos vários paradoxos que nos vão surgindo à medida que a ação se desenrola: tempo lento vs velocidade rápida, ultrarrápida, no caso. Como é que nos pode parecer que estamos parados ou que o tempo não passa quando estamos a ser transportados a mais de 740km/hora?  E pensamos de imediato em Einstein ou Stephen Hawking.

Mas não é por mero acaso que na epígrafe, Don DeLillo (Nova Iorque, 1936) cita, precisamente, Einstein: «Não sei com que armas se irá travar a Terceira Guerra Mundial, mas sei que a Quarta Guerra Mundial se irá travar com paus e pedras.»

Dito isto, não conte o leitor com um romance assaz complexo. Neste «O Silêncio» de Don DeLillo (Relógio D’ Água, 2020, tradução de Paulo Faria) ninguém se perde ao conhecer o enredo e as personagens. A complexidade reside, precisamente, porque não estamos perante um romance simplista. Pelo contrário, e como só um grande autor consegue fazê-lo, demonstra um respeito enorme pelo leitor, e por isso é exigente. Há um exercício de densidade e de pensamento que subjaz aqui em toda a linha.

Para além disso, é uma obra sobre intimidade, memória e futuro que joga, sobretudo, com a perceção do leitor.

Aqui, o tempo é, afinal, medido por aquilo que corre nas nossas cabeças, paradoxalmente lento ou rápido consoante as nossas perceções.

Preditivo, quase profético e introspetivo, este romance coloca-nos diante da perplexidade sobre aquilo que somos enquanto indivíduos, o modo de vida em que nos sustentamos e a sociedade em que vivemos.

Citando o autor «Quanto mais sofisticados, mais vulneráveis» (p. 49).

Don DeLillo nasceu em Nova Iorque, em 1936. É autor de cinco peças de teatro, dezoito romances e um livro de contos.

Recebeu o National Book Award, o Jerusalem Prize, o Irish Times International Fiction Prize e o PEN/ Faulkner Award para Ficção. 

Passe pela Biblioteca e conheça este e outros livros deste notável escritor.

Diretora da Biblioteca Municipal de Torres Novas

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