Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “O Mistério do Caso de Campolide”, de Francisco Moita Flores, é a sugestão apresentada esta semana por Nuno Ferreira, da Biblioteca Municipal Alexandre O’Neill, em Constância.

Passe pela biblioteca… e boas leituras!

A obra sugerida é “O Mistério do Caso de Campolide”, de Francisco Moita Flores, romance lançado em outubro de 2018. O autor é muito conhecido pela sua visibilidade pública, é ainda uma presença assídua em programas de televisão portuguesa, especialmente como analista em criminalidade violenta.

No entanto, possui outras facetas muito importantes, uma delas, ser um escritor com uma obra literária extensa e interessante, do romance ao conto, da novela à dramaturgia. Este último estilo traduziu-se em argumentos para cinema, televisão e teatro de inegável qualidade em língua portuguesa.

O seu último romance marca um novo género literário na sua obra, o romance policial, em que o autor consegue construir um enredo deveras interessante e na boa tradição do policial. A ação desenrola-se no ano de 1937, no auge do Estado Novo de Salazar e no inicio da vitória dos nacionalistas na Guerra Civil de Espanha.

Narra-nos uma história do homicídio de um industrial de reconhecido mérito público, que tinha acabado de ser convidado para ser candidato a deputado à Assembleia Nacional pelo partido único que então dominava as lides políticas de então, a “União Nacional”, para as eleições que iriam decorrer em 1938. A sua morte vai ocorrer durante um jantar de comemoração com amigos influentes do Regime, no seu palacete em Campolide.

É chamada a resolver este mistério a PIC, acrónimo de Polícia de Investigação Criminal, que é a mãe da atual Polícia Judiciária e que foi criada ainda no tempo da velha República em 1918, pelo presidente Sidónio Pais.

Os detetives à semelhança de Conan Doyle, são dois, o jovem Simão Rosmaninho, cerebral e adepto da investigação baseada em fatos e provas, e Arengas, um agente à moda antiga, um emocional que investiga de forma tradicional e à base da ação direta. À perna terão a PVDE, acrónimo Policia de Vigilância e Defesa de Estado, policia política do regime, que em 1937 era já um estado dentro do estado.

O romance escrito de uma forma muito interessante e que prende o leitor do principio ao fim, introduz as técnicas do romance policial, aliado a uma rigorosa reconstituição histórica de uma época pouco estudada da História de Portugal, que revela uma sociedade por um lado descansada da confusão da República de 1910, por outro a ser sufocada por um regime, que tudo controla, tudo domina, em que os seus tentáculos se encontram em toda a vida do país.

Nuno Ferreira

Responsável pela Biblioteca Municipal Alexandre O'Neill em Constância

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