Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “O Diário Secreto de Hendrik Groen aos 83 Anos e ¼”, de Hendrik Groen, é a sugestão apresentada esta semana por Dulce Figueiredo, da Biblioteca Municipal de Sardoal.

Passe pela biblioteca… e boas leituras!

As sociedades ditas modernas tendem a hipervalorizar conceitos como a beleza, a juventude, a boa forma e o sucesso, seja profissional ou pessoal. O livro que propomos coloca no centro das atenções algo oposto. A velhice. Ou melhor, aqueles que, segundo os ditames da moda, já não são tão bonitos, enfrentam os problemas e as contingências da longevidade e para quem a saúde e a boa forma física e até mental podem ser apenas miragens.

Talvez por isso se diga que essas sociedades têm vindo a perder valores fundamentais, nomeadamente o reconhecimento da importância da memória e do saber dos mais velhos e o respeito que eles merecem, afinal foram eles que nos trouxeram até aqui, eles são parte do percurso existencial das sociedades.

“O Diário Secreto de Hendrik Groen aos 83 Anos e ¼”, escrito por um Hendrik Groen, real ou ficcional, pouco importa, traz para a primeira linha a vida de um conjunto de companheiros de lar, dando voz aos seniores, às suas angústias, dúvidas, perdas, teimosias e maleitas, mas também às suas conquitas, análises, provocações, travessuras e resiliência.

Uma narrativa em forma de diário que, tal como a vida, tem dias bons e maus, momentos de melancolia, frustração, saudade e perdas, mas também de invenção, superação, humor e esperança. Com as dificuldades inerentes à idade, ao envelhecimento e à privação de uma autonomia que permita a independência, a vida é para viver até ao último fôlego, e prova disso é o espírito e a perseverança dos fundadores do clube “Velho mas não morto”!

Ficção ou realidade, está por descobrir, mas um relato comovente, arguto, sensível, irónico e realista que vale a pena ler.

“Fui para o piso inferior e comi sopa de ervilhas. Achei-a deliciosa, mas veio logo uma dezena de histórias, que ninguém pediu, de mães e avós que outrora faziam sopas de ervilhas muito mais deliciosas. Outrora, sempre outrora. Vivam um bocadinho o presente, múmias!”

“Numa breve carta da administração comunica-se aos residentes que se decidiu oficialmente que em setembro terá início uma profunda renovação deste edifício. Nem uma palavra sobre a prometida auscultação aos residentes. Também não dizia a carta o que iria concretamente ser feito. Não é possível pôr as pessoas mais nervosas.
«Espero já estar morta a essa altura», disse a senhora Vergeer e sentia o que dizia.

«As plantas velhas já não têm de ser transplantadas», disse o senhor Apotheker umas boas cinco vezes. O que este homem reclama e rezinga. Se alguém o transplantar, que o enterre de cabeça!”

Arquivista e Bibliotecária na Câmara Municipal de Sardoal

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