Os responsáveis das bibliotecas do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, é a sugestão hoje apresentada por Ana Sofia Marçal, da Biblioteca Municipal Padre Manuel Antunes, da Sertã. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!
“Só num mundo de cegos as coisas serão como verdadeiramente o são.”

Uma obra incrível de José Saramago, um cenário apocalíptico, talvez nunca tão pertinente como hoje, tendo em conta a situação pandémica que se vive. A angústia e a incerteza que têm marcado os meus dias, transformaram a leitura de Ensaio sobre a cegueira num tormento prazeroso e voraz que nunca me lembro de ter vivido com outra obra literária.
Inexplicavelmente, parado num semáforo, um homem fica cego. Uma cegueira branca que alastra sem controlo a toda a população. Homens e mulheres de todas as idades e classes sociais, sempre sem nome, vêm-se confinados a uma vida nova, impotente, descontrolada e desumana. Apenas a mulher do médico, sem se saber porquê, se vê livre da epidemia. Discreta da sua graça, sem medo de cegar, cega de bondade, revela-se salvadora para o marido e para o pequeno grupo com quem contactou de perto desde o início, quando os primeiros cegos se viram confinados à enfermaria do hospício abandonado onde ficaram presos numa luta pela sobrevivência.
Ensaio sobre a cegueira, um ensaio brilhante, é uma crítica aos valores sociais que nos leva a refletir sobre o preconceito, a moral, a ética e os costumes.
