Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço todas as segundas-feiras, de forma alternada. As Cruzadas vistas pelos árabes, do escritor Amin Maalouf, é o livro sugerido esta semana por Margarida Teodora Trindade, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas.
Passe pela biblioteca… e boas leituras!
Não é um clássico, nem é uma novidade este livro de Amin Maalouf. A primeira edição é dos anos oitenta do século XX. A editora Difel tem uma tradução da obra para português que data dos anos noventa. Já em 2013, é dada à estampa esta edição das Edições 70. Refiro-me ao livro As Cruzadas vistas pelos árabes.
Não sendo um romance, o autor utiliza ao longo da narrativa uma linguagem bastante acessível relatando os acontecimentos a partir do ponto de vista contrário ao ocidental, as incursões dos cruzados no médio oriente até à tomada e à perda de Jerusalém, desde o século XI até ao século XIII.
Com recurso a fontes coevas e árabes, Amin Maalouf transporta o leitor para o outro lado da perspetiva e da versão de guerra santa. Trazendo ao de cima essa visão relativista, onde cada povo vai construindo a sua versão da História a partir do seu ponto de vista, o autor descreve a receção dos infiéis cruzados em terras árabes, ou de como estava constituída a organização do território, quer sob o ponto de vista social e administrativo, quer sob o ponto de vista religioso e sobretudo militar.
Nesta obra, Amin Maalouf orienta geograficamente o leitor ao mesmo tempo que relata os avanços e os recuos das incursões dos exércitos de cruzados, o papel da defesa árabe e os principais atores e protagonistas; as vitórias e as derrotas de ambos os lados; os porquês e a relevância de se avançar por um lado ou por outro, ou seja fornece ao leitor parte da História dessa estratégia de guerra e as teias das relações diplomáticas de então.
Importante é a caracterização de uma época e de um território que para os ocidentais ainda permanece muito sob o domínio da obscuridade. Como eram aqueles povos nessa idade média? Como viviam e onde? O que os caracterizava? O que é que os movia na defesa das suas terras? Que importância tinha a religião e em que aspectos radicam alguns dos problemas que até hoje subsistem?
Perceber como se organizava, ao tempo, politicamente aquele território, que nos dias de hoje está em extrema convulsão, é quase e ainda, para nós, ocidentais, incompreensível.
É essa marca civilizacional — que domina as relações do mundo árabe com o mundo ocidental, a espaços, tão pouco tranquilas, prevalecendo o medo e o desconhecido, mas com traços de heranças que perduraram até aos dias de hoje — que nos traz a leitura deste livro.
Antes de mais, esta abordagem é um ponto de partida ao alcance de quem queira aproximar-se de uma compreensão possível, aceitando a narrativa e a visão da História a partir do ponto de vista do outro, aquele que não nos é ensinado na escola.
E que o conhecimento e o esclarecimento permitam sempre o alcance das boas resoluções e da paz entre os povos.
É isso que desejamos no novo ano com esta proposta de leitura, um ano que nos ofereça paz.
