Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as semanas. “A Morte do Palhaço”, do escritor Raul Brandão, é o livro sugerido por Amílcar Correia, bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento.

Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Decorrem as comemorações dos 150 anos do nascimento de Raul Brandão (1867-1930), autor pósromântico, considerado um dos iniciadores da moderna ficção portuguesa. Há, mesmo, quem veja a sua obra Húmus (1917), como a obra em que Fernando Pessoa se terá inspirado para o seu Livro do Desassossego. Raul Brandão fez parte da Geração de 70, tendo sido um dos fundadores da Revista Seara Nova (1921).

Romancista considerado, por muitos críticos, como um dos mais importantes escritores do início do séc. XX e que, por isso, tem várias das suas obras integradas no Plano Nacional de Leitura, nomeadamente: A pedra ainda espera dar flor; A pesca da baleia e outras narrativas; As ilhas desconhecidas; Os pescadores e este, que agora vos proponho. Procurei, mas não encontrei, o Húmus no PNL, considerado a grande referência da sua obra.

Capa do livro
Capa do livro

A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, editado em 1926, é uma reorganização do segundo livro escrito pelo autor, História de um palhaço (A vida e o diário de K. Maurício), editado em 1896.

Tudo começa na casa de hóspedes da D.ª Felicidade, onde se albergam, além do Pita, um doido, um anarquista, o Gregório, chefe de repartição reformado, a velha e o Palhaço. Curiosa amálgama de personagens em fim de vida das quais saliento o Pita, um homem sem estudos, de muitas artimanhas, mas que sabia alinhavar boas dissertações que lhe defendiam as suas convicções. De consistência argumentativa nas opiniões e de conselhos bem alicerçados, que dava, sempre a pedido. Pita é um “filósofo”, licenciado pela vida.

Raul Brandão descreve a realidade, com todas as suas belezas, fealdades e contradições existenciais, o que faz, com uma linguagem paradoxalmente lírica. A vida, a morte e o amor e todas as suas dramaticidades intrínsecas, são os vértices desta obra.

História contada na terceira pessoa, A Morte do Palhaço é seguida de um diário de K. Maurício, o verdadeiro nome do palhaço, contada na primeira pessoa, em que este, abertamente, revela todos os seus pensamentos sobre o seu drama existencial que serve a personagem do palhaço. É uma inovação estrutural que Raul Brandão introduz na construção do romance.

A Morte do Palhaço é a história de um amor trágico, como muitos outros, que deram vida a tantas obras famosas. Mas este, é protagonizado por grotesco e velho palhaço. Mas não tem um palhaço, mesmo feio e hediondo, direito a amar? Como podia ele travar esse seu amor puro pela bela Camélia, trapezista do circo, amor que mantinha secreto, pelo medo de expor-se ao ridículo, à chacota? Morreria de vergonha.

K. Maurício, o palhaço, tem, neste seu amor um rival, Lídio, também trapezista, amante de Camélia. Camélia, que até ao fim da história ignora, por completo, o amor idolátrico que nutre ao pobre palhaço.

Um dia, o palhaço percebe que a mulher que ama, que julgava fazer rir com as suas interpretações profissionais, destinadas a provocar o riso no público, mas, também, para ter a admiração da que era a razão de ser do seu amor, mas, afinal, Camélia, ria das suas lágrimas, dos seus sentimentos, quiçá da sua fealdade. É esta perceção, que o deixa desnorteado e o faz confidenciar este seu amor secreto ao Pita, a quem muitos recorrem para um conselho, pelo bom ombro que este sempre se revela. Pita faz o impensável. Ao concluir que não há a menor hipótese de sucesso para este amor puro de K. Maurício, o Palhaço, e, depois de lhe tentar tirar esse amor da mente com as mais variadas artimanhas filosóficas, resolve, por em toda a sua sapiência não encontrar outra saída e, em desespero de causa, aconselha-o a morrer por esse amor, mas que o declarasse antes de morrer.

Seria uma morte honrosa, por contraposição com a desilusão angustiante que consumia a alma do pobre Palhaço, e lhe corroía a carne e lhe colava a pele aos ossos. Seria um fim digno e épico para o seu amor impossível, como aqueles que costumam acontecer na vida real ou, mesmo, na mais digna ficção. Seria o momento de glória do grotesco palhaço. Pita chega, mesmo, a prometer-lhe um reencontro com a amada na “outra vida”, dimensão em que só os sentimentos e o amor contassem. Aí, teria a possibilidade de “viver” o amor que a sua fealdade física, enquanto ser vivo, lho impedia.

Pita, para o palhaço:

“- Tens então uma única coisa a fazer… Vou-ta dizer sem frases, como se fosse teu amigo desde pequenino… Morre por ela… A vida é lastimosa e estúpida para nós que estamos gastos e nulos. A vida é uma série de desgraças, de maldades e coisas importunas e reles…

… És grotesco, é verdade. Mais um passo e ficas sozinho dentro de um palácio desabitado. Eis aqui que aparece uma bela ocasião para morreres por uma criatura que adoras. Não a deixes fugir.”

O Palhaço segue-lhe o conselho, sabendo nós, pelo autor, que o Pita não digeriu bem este conselho dado em momento de exaltação, num momento de exacerbamento sentimental.

Uma noite, numa atuação de Lídio no trapézio, percebem Camélia e os artistas do palco circense, que a corda do trapézio está cortada e, por fios, prestes ao fatal desenlace, a morte do trapezista, que não tem rede. O horror invade todos os que assistem na arena do circo. O trapezista não ousa fazer qualquer movimento aterrorizado com os fios que o separam de uma queda mortal no solo. Quem terá cortado a corda do trapézio? Quem terá sido? – questionam-se os que têm a noção do que sucede. É, então, que o Palhaço se dirige a Camélia e exclama:

– “Amar ou morrer? Amar ou morrer?”

– “Amar ou morrer? Amar ou morrer?”

Camélia, primeiro sem perceber, e depois de uma fulminante perceção do que, realmente, se passa, a leva a exclamar, sem hesitação e em ansiosa súplica:

– “Amar, amar!”

O Palhaço sobe lesto ao trapézio, ajudando Lídio, e faz do seu corpo de palhaço grotesco, mas ágil, qual ponte para a vida, deixando Lídio para a sua Camélia. Depois.. Deixa-se cair.

“… Viu-se, então, um trapo negro, bordado a cores escarlate, vir lá de cima, lá do alto do circo, e com todo o ruído das bexigas de porco, que prendia na túnica, o Palhaço estoirou na arena, grotesco até na morte…”

Enquanto este drama acontecia, a música tocava triunfante e o público, em êxtase, aplaudia o que julgava ser uma farsa de génio.

Bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal do Entroncamento

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