Ao contrário do que em geral se pensa, na nossa tradição milenar a principal festa do ano não é o Natal mas a Páscoa. Porque, para os cristãos que celebram uma e outra, mais importante do que o nascimento, que se evoca pelo Natal, é o que a Páscoa consagra que verdadeiramente importa – a ressurreição, a chegada à vida eterna.
Festa central do ano cristão, e já antes do judaico, a Páscoa, que se celebra sempre no início da primavera, é também um tempo de passagem, de mudança de ciclo, de renovação, de um eterno ressurgir.
Da Páscoa à Ascensão… quarenta dias vão – diz o povo e assim é. A Páscoa cristã, sucedânea da Páscoa judaica, é, efetivamente, a festa central do calendário litúrgico, cuja data determina as de todas as outras festas móveis, como o Carnaval e a Ascensão, por exemplo.
O costume de dar maior importância ao Natal do que à Páscoa tem pouco sentido e é muito recente: ainda há menos de um século era hábito dar as boas-festas pela Páscoa e os jornais dessa época estão cheios de cartões com esses votos que pelo Natal normalmente não se apresentavam. Aliás, ainda hoje, em certas aldeias do interior do país, se continua a fazer a visita pascal, em que o compasso, constituído pelo pároco, pelo sacristão e pelo mordomo e ajudantes ou membros de confrarias, entra em todas as casas que tenham a porta aberta para esse efeito, dando a cruz a beijar e dizendo Boas Festas, Aleluia! E, mesmo na rua, as pessoas, cumprimentando-se, desejam boas-festas umas às outras – o que provoca estranheza ao citadino que chega sem estar familiarizado com os hábitos (milenares) da aldeia.
Para o cristianismo, mais importante do que o nascimento de Cristo, celebrado pelo Natal, é a sua ressurreição que corresponde à vitória da vida sobre a morte e à salvação da humanidade e se festeja pela Páscoa.
A Páscoa cristã radica na Páscoa judaica. O povo de Israel esteve muito tempo exilado no Egito, onde era oprimido. Deus, tendo em consideração o seu sofrimento, dispôs-se a libertá-lo e, para obrigar o faraó a deixá-lo sair, lançou sobre os egípcios uma série de pragas. A última dessas pragas, e decisiva, foi a matança dos primogénitos: mandou Deus um anjo passar pelas casas do Egito, matando todos os primogénitos, desde o do faraó até aos dos escravos e aos dos animais. Foram poupados os de Israel que, previamente avisados, tinham morto um cordeiro e, com o sangue dele, haviam assinalado as portas das suas habitações para que o anjo não entrasse nelas. Atemorizado, o faraó deixou sair o povo que, guiado por Moisés, passou o Mar Vermelho, celebrou uma aliança com Deus no Monte Sinai e, através do deserto, se dirigiu à Terra Prometida.
Todos os anos, de 14 a 20 de Nissan, o primeiro mês do calendário hebraico que começa no equinócio da primavera, os judeus celebram a Páscoa (em hebraico pessach que significa passagem), assinalando assim a saída do Egito. O dia 14 de Nissan é mais propriamente o dia de Páscoa, visto que nele se comemora a passagem do anjo que executou os primogénitos, abrindo caminho à libertação do povo.
O cristianismo transformou a Páscoa judaica, dando-lhe um novo significado: Cristo passou a ser o cordeiro de Deus, cujo sangue veio tirar o pecado do mundo e libertar a humanidade, e a Páscoa passou a corresponder à sua ressurreição, à vitória da vida sobre a morte.
Não é por acaso que as Páscoas, quer a judaica quer a cristã, se celebram no início da primavera: é porque ambas, cada uma com o seu significado, assentam nessa outra mais antiga tradição agrária, tão antiga provavelmente quanto o tempo que os homens têm de agricultores, que festeja cada ano a chegada da primavera e o renascer da natureza.
A data para a celebração da Páscoa cristã, depois de um período inicial de alguma confusão, foi fixada definitivamente pelo concílio de Niceia, no século IV. Estabeleceu-se então, e ainda hoje se cumpre, que a Páscoa é no domingo que se segue à primeira lua cheia depois do equinócio da primavera. Significa isto que a Páscoa pode calhar entre 22 de março e 25 de abril. Este ano, para dar um exemplo, o equinócio da primavera ocorreu em 20 de março, mas a primeira lua cheia depois disso só será em 11 de abril, uma terça-feira. A páscoa, seguindo a velha regra, é no domingo seguinte, ou seja, dia 16. Na Páscoa, olhando o céu e estando ele limpo, temos sempre a lua que foi cheia há pouco tempo.
Considerando a data da Páscoa, é fácil determinar todas as outras festas móveis do calendário litúrgico do cristianismo: assim, por exemplo, quarenta dias para trás é o Entrudo (a entrada na Quaresma) e quarenta dias para diante é a Ascensão (a subida de Jesus ao Céu depois de ressuscitar).

Sendo um tempo de passagem, de renovação associada ao próprio ressurgir da natureza que a primavera traz consigo, a Páscoa é, também por isso, um tempo de mudança que marca o fim de um ciclo e o início de um novo. É por isso que determinadas festividades cíclicas da nossa tradição popular se lhe associam no calendário.
A Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Constância, celebrada no encontro do Zêzere com o Tejo há mais de duzentos anos, é disso um exemplo paradigmático: no dia seguinte à Páscoa, quando a vila era um dos principais portos fluviais do médio Tejo, os marítimos faziam uma grande festa à Senhora, agradecendo-lhe as graças recebidas durante um ano que ali terminava e renovando-lhe o pedido de proteção para as suas viagens, Tejo abaixo, Tejo arriba, para o ano que iria até à Páscoa seguinte. É esse ritual, embora com motivações diferentes, porque diferentes são os tempos e os protagonistas, que cada ano se cumpre ainda agora naquele lugar, com a procissão e a Bênção dos Barcos e das Viaturas e muita gente que vem de perto e de longe. Na Páscoa, sempre.
