Palestina. Foto: DR

Este é um texto que me custa a escrever. Já não restam muitas palavras para descrever a situação na Palestina, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Há 334 dias que os ataques de Israel se sucedem, tudo é destruído naquela terra, escolas, hospitais, campos de refugiados, habitações, equipamentos públicos, tudo… e o povo, com os poucos haveres que ainda tem foge de um lado para o outro. O que ouvimos nas reportagens televisivas é terrível – “não há lugares seguros, não temos para onde ir”.

Esta guerra já ultrapassou tudo, todo o benefício da dúvida que alguns ainda deram a Israel está a desaparecer. Nada justifica o genocídio de um povo. A palavra é essa. Dura, acusadora, mas é essa a palavra – GENOCÍDIO.

Está muita coisa em causa naquele ponto do globo. Ameaça de alargamento do conflito a outros países, utilização de armas nucleares, mas também está em causa o Direito Internacional, o respeito pela ONU, os valores civilizacionais de que não podemos nem queremos abdicar. Claro que em primeiro lugar está em causa a sobrevivência do povo palestiniano e o seu inegável direito a viver na sua terra e em paz, mas se o cessar-fogo não acontecer rapidamente é o fracasso de todos os que não conseguiram fazer valer os Direitos Humanos. E é a vitória da hipocrisia. Hipocrisia dos países que dizem que a solução passa por dois Estados, mas só reconhecem um. Envergonho-me por o meu país alinhar nesta hipocrisia.

Estive por duas vezes na Palestina, a primeira na Faixa de Gaza em Dezembro de 2012 integrada numa delegação de parlamentares europeus. Pude testemunhar com os meus próprios olhos as consequências de um bombardeamento israelita que tinha acontecido uns dias antes. A segunda na Cisjordânia em Julho de 2015 integrada numa delegação da Assembleia da República composta por representantes de todos os partidos com assento parlamentar na época. Testemunhei os “check-points”, os colonatos, o muro…

Hoje mesmo li uma frase da escritora indiana Arundhati Roy que perante certa passividade face à situação da Palestina que ainda se observa dizia “aparentemente, a única coisa moral que resta aos palestinianos é morrer. E a única coisa legal que nos resta é vê-los morrer. E em silêncio.” Sim, quando ignoramos ou fingimos ignorar, quando não queremos tomar posição, estamos a vê-los morrer, uns atrás dos outros, umas atrás das outras.

Recuso-me a pensar que nada se pode fazer, temos de vencer a angústia de nos sentirmos completamente impotentes. No mínimo devemos juntar a nossa voz a António Guterres e Jorge Moreira da Silva e a todos os responsáveis da ONU que denunciam, apelam ao apoio ao povo palestiniano e não se cansam de exigir o cessar-fogo. E temos de exigir ao Governo português que reconheça o Estado da Palestina e tenha uma posição assertiva em todas as instâncias internacionais para que sejam aplicadas sanções a Israel. E não nos calarmos enquanto a bandeira portuguesa não for retirada do navio que transporta explosivos para Israel, proibido de entrar nos portos da Namíbia.

Há tímidos sinais positivos como os que chegam de Inglaterra onde o Governo suspendeu parte das exportações de armas para Israel, há sinais positivos da população de Israel e das famílias dos reféns que já perceberam que não é o seu resgate que motiva Benjamin Netanyahu. Há países a reconhecerem o Estado da Palestina, há ação do Tribunal Penal Internacional e há milhares e milhares solidários com o povo palestiniano em todos os cantos do Mundo.

Comemora-se os 25 anos do Referendo em Timor-Leste que decidiu a independência do país. Não se acreditava que tal fosse possível. Como país e como povo nós não desistimos e levámos Timor para todo o lado. Nós que acreditámos que a independência de Timor-Leste era possível sabemos que a Palestina será livre. Resta saber quantas mortes acontecerão até esse dia.

Helena Pinto vive na Meia Via, no concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Feministas em Movimento. Escreve quinzenalmente no mediotejo.net

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2 Comments

  1. Waw! sinceramente, gostei. Lagrimas escorreram no meu rosto enquanto consumia o teu pensamento. O reconhecimento da Palestina enquanto Estado deve ser o primeiro passo de Portugal e vozes como a tua, em Portugal, devem fazer-se ecoar o mais alto possível para juntar às vozes do mundo inteiro que repudia este GENOCIDIO. “É URGENTE O AMOR, É URGENTE UM BARCO NO NO MAR… É URGENTE O FIM DA GUERRA E O GENOCIDIO NA PALESTINA”.
    Abraços da Guiné-Bissau.

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