Com crianças pequenas, numa casa com poucas condições de conforto, Marco António de Sá inventou mil formas de ir contornando a falta de eletricidade. Mas depois de três semanas sem luz, entrou em desespero e fez um apelo nas redes sociais. Foto: mediotejo.net

O clique foi discreto, quase impercetível, mas suficiente para mudar o ambiente (e o ânimo) da casa. Ao início da tarde de ontem, na localidade de Pederneira, freguesia de Urqueira (concelho de Ourém), as equipas procediam à reposição da eletricidade numa habitação que estava sem luz desde o dia 28 de janeiro, consequência dos impactos provocados pela tempestade Kristin. Quando a energia regressou, o suspiro foi coletivo.

Na casa vivem Marco António de Sá, a esposa e as duas filhas menores do casal, uma com dois anos e meio e outra prestes a completar dois meses. Foi com duas crianças pequenas que a família atravessou mais de três semanas sem eletricidade, num dos concelhos mais afetados pela tempestade que deixou milhares de pessoas sem fornecimento elétrico durante vários dias e, em alguns casos, semanas.

O presidente da câmara Municipal de Ourém, Luís Miguel Albuquerque, confirmou ontem ao mediotejo.net que cerca de 700 pessoas permanecem sem eletricidade, o que corresponde a 2% dos consumidores do concelho. “De redes fixas e móveis, estimamos que muito em breve possamos atingir cerca de 95% de cobertura, conforme nos foi indicado pelas operadoras. Quanto à energia, a E-Redes informou que, durante a próxima semana, se não chegarmos a 100%, ficaremos muito perto disso”, explicou.

O impacto não foi apenas logístico. Foi emocional. “Hoje sinto-me bem mais feliz e o facto de saber que para a semana posso deixar aqui as minhas filhas e a minha esposa descansado, porque já tenho eletricidade.” A frase é dita já com a luz restabelecida, mas carrega o peso dos dias anteriores.

No interior da habitação, os sinais das últimas semanas permanecem visíveis. O cilindro elétrico deixou de ser opção e foi substituído por um esquentador a gás, solução encontrada para garantir água quente. Num canto da sala, permanece o candeeiro improvisado, uma bateria automóvel ligada a uma tira LED, que assegurou iluminação nas primeiras noites, quando a escuridão se impôs de forma total.

Sobre a mesa da sala está um rádio a pilhas. Foi, durante semanas, o que os ligou ao exterior. Através dele, a família acompanhou notícias, comunicados e previsões. Ao lado, dois walkie-talkies serviram de alternativa quando a rede móvel se tornava instável ou inexistente.

A ausência prolongada de eletricidade agravou outro problema: a humidade no interior da habitação. Sem equipamentos elétricos para ajudar a secar o ambiente e com o inverno a fazer-se sentir, as paredes começaram a acumular condensação. O ar tornava-se pesado, sobretudo ao final do dia, quando a temperatura descia e a casa permanecia mergulhada na escuridão.

A lareira passou, então, a assumir um papel central. A lenha ajudava a aquecer as divisões e a atenuar a humidade, mas exigia abastecimento constante e vigilância permanente.

Foto: mediotejo.net

Nos dias mais frios e húmidos, manter o lume aceso era essencial para tornar o ambiente minimamente suportável para as crianças. Ainda assim, a lareira não conseguia compensar totalmente o frio que se infiltrava nem resolver o excesso de humidade acumulado ao longo das semanas. A casa, marcada pela tempestade no exterior, passou também a refletir no interior os efeitos do inverno, vivido sem eletricidade.

Na rua, Marco António de Sá aponta para o telhado. Algumas chapas e telhas continuam desalinhadas – marcas visíveis da força do vento que arrasou a região.

A adaptação foi constante, mas o desgaste acumulou-se. “Se para mim, com a idade que eu tenho, é desesperante, para as pessoas de mais idade não há-de ter sido nada fácil.”

Com duas crianças pequenas em casa, a ausência prolongada de eletricidade complicou tarefas básicas do quotidiano. A organização familiar passou a depender da luz natural, da gestão da pouca energia disponível e de soluções improvisadas. Garantir conforto às filhas exigiu criatividade e resistência e a incerteza quanto ao regresso da energia foi uma constante.

Sem eletricidade em casa, a rotina familiar passou a depender do apoio da mãe de Marco António de Sá, residente em Sabacheira, no concelho de Tomar. Foi para essa localidade que a família começou a deslocar-se com frequência, numa tentativa de garantir condições básicas às crianças.

A solução encontrada para a roupa, passou por levar a máquina de lavar para casa da mãe. A partir daí, as lavagens passaram a ser feitas em Sabacheira, implicando transporte constante de roupa entre os dois concelhos. A gestão fazia-se conforme as possibilidades, conciliando trabalho, escola e as deslocações necessárias.

Também os banhos passaram a ser assegurados em Tomar. As idas e vindas tornaram-se parte integrante dos dias, numa logística exigente que se prolongou por mais de três semanas.

Foto: mediotejo.net

Entretanto, amigos e conhecidos emprestaram geradores, que permitiram mitigar pontualmente a ausência de energia. Esses equipamentos ajudaram a assegurar iluminação e a carregar alguns dispositivos essenciais, mas funcionavam como solução limitada e temporária, dependente de combustível e de uma gestão cuidadosa do consumo. Não substituíam o fornecimento regular nem permitiam retomar plenamente o funcionamento da habitação.

Tendo em conta a situação desesperada da família, Marco fez um apelo através das redes sociais. A decisão de expor publicamente a situação não foi tomada de ânimo leve, mas sentiu que não tinha alternativa. A partir daí, começaram os contactos e os gestos concretos de ajuda. “Um colega ligou-me ontem, disse que tinha montes de fraldas para as miúdas, para ir buscar.”

No meio das limitações e da gestão diária sem eletricidade, organizou-se como pôde. “Eu hoje não fui trabalhar para ir com a menina ao médico. Quando fui levar a mais velha passei lá e trouxe as fraldas.”

A recolha não ficou por aí. Uma associação de uma aldeia próxima também se mobilizou. “Ontem já me tinha ligado uma senhora de uma aldeia aqui próxima, que tem uma associação… eu fui lá e fiquei parvo, têm lá um espaço cheio de comida, roupas… que eles andam a distribuir. Encheu-me o carro. Trago roupas, comida, roupas de cama…”

Foto: mediotejo.net

Parte do apoio chegou através de contactos pessoais e de iniciativas solidárias fora da freguesia. Nos últimos dias, Marco António de Sá deslocou-se a vários locais para recolher bens doados por particulares sensibilizados com a situação da família.

O regresso dessas deslocações foi emocionalmente intenso. “Ainda agora vinha de Leiria e vinha-me a dar vontade de chorar… porque agora eu tenho o carro ali cheio, nem sabia onde havia de meter tanta coisa.”

A frase revela um misto de gratidão e frustração. Gratidão pela solidariedade recebida. Frustração pelo sentimento de abandono. “Tudo aquilo que na freguesia não tenho visto ser feito, ou então, se tem sido feito, não tem chegado a toda a gente… Eu fui esquecido e acredito que haja mais alguém que tenha sido esquecido.”

As críticas dirigem-se à atuação da Junta de Freguesia, que considera insuficiente e reativa à exposição pública. Segundo explicou, situações relacionadas com o estado da estrada, por exemplo, só foram resolvidas após publicações nas redes sociais.

Foto: mediotejo.net

Chegar à localidade de Pederneira, na freguesia de Urqueira, exigiu cuidado e paciência. A estrada de terra batida, ainda marcada por buracos e sulcos provocados pelas últimas chuvas, tornava os acessos complicados, sobretudo para carros ligeiros. Nas bermas permanecem os troncos de árvores caídas, recentemente cortadas, lembrando a força da tempestade e o trabalho ainda por concluir para devolver normalidade ao local.

A situação vivida nas últimas semanas trouxe-lhe à memória uma realidade que julgava definitivamente ultrapassada. Marco António de Sá recorda que cresceu sem eletricidade em casa e que só teve luz “aos 18 anos”. Durante a conversa, estabelece de forma espontânea essa ponte entre o passado e o presente. Voltar a viver dias consecutivos às escuras, agora enquanto pai, teve um impacto diferente.

“Eu sei o que é viver assim”, diz, referindo-se à infância e adolescência sem fornecimento elétrico. Na altura, era a normalidade possível. Hoje, sente o peso da repetição: a experiência é difícil para qualquer adulto, mais ainda quando há crianças envolvidas. A diferença, sublinha, está precisamente aí. Em jovem, lidava apenas com as próprias limitações. Agora, a preocupação centra-se nas filhas.

O regresso a condições do passado foi vivido como um retrocesso pesado, quase como se a tempestade tivesse aberto uma porta para memórias que acreditava enterradas. E, mais uma vez, resume o sentimento numa palavra que repete ao longo da conversa: “É desesperante.”

Apesar da reposição da eletricidade, nem todos os problemas estão resolvidos. As comunicações móveis continuam frágeis na zona. “Agora só faltava a bendita Vodafone, que também se esqueceu da população, mas não se esqueceu das faturas. Assim que apanhei rede, chegou a mensagem para pagar a fatura. Aqui há rede de telemóvel, mas pouca.”

Foto: mediotejo.net

Em Pederneira, a eletricidade regressou ao fim de mais de três semanas. Para esta família, um casal e duas crianças pequenas, o restabelecimento representa o retomar de uma normalidade básica: luz, água quente e segurança para que Marco possa regressar ao trabalho e deixar a mulher e as filhas em casa com tranquilidade.

Mas as marcas do período vivido não desaparecem com o simples acender de um interruptor. Ficam as lembranças no candeeiro improvisado, no rádio a pilhas que substituiu a televisão, nos walkie-talkies que garantiram comunicação quando a rede falhava e no telhado que ainda recorda a força do vento. E ficam, sobretudo, na memória de Marco António de Sá: “Foi desesperante. Sentimo-nos abandonados”.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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8 Comments

  1. Obrigado Jessica por se ter interessado por esta situação fico muito agradecido e espero que também sirva para que outras pessoas em situação idêntica venha a ver a sua resulucao o mais rápido possível

    1. Sou amiga da família e chorei ao ler o relato porque passei por algo semelhante. Não sabia como estavam depois da tempestade. Felizmente alguém se interessa por mostrar a realidade, obrigada! Maioria vive nas aparências. O texto está muito bem.
      Graciete- Caxarias

  2. É intolerável que situações destas aconteçam. Todas, todas as localidades, todos os lugares deveriam ter sido visitados pelos representantes autárquicos. É também para isso que são eleitos.
    Um sentido bem-haja às pessoas de bem e à sua solidariedade.

  3. É vergonhoso, a solidariedade das pessoas foi excepcional. Tudo o resto falhou! O apoio incondicional dos meios não chegaram ás pessoas. E as que não utilizam net, com idades avançadas, sózinhas!!!! Ainda haverá muitos mais casos. O pais não evoluiu com quem desvaloriza os conterraneos.

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