Ao fundo do cabeço do Castelo de Ourém, o lugar de Santo Amaro recebe a 15 de janeiro uma pequena feira que ganhou tradição dos pinhões e das promessas Foto: mediotejo.net

A 15 de janeiro celebra-se o Santo Amaro, monge beneditino cuja tradição de invocação está associada a várias doenças, como a gripe ou as enxaquecas. Ao fundo do cabeço onde se situa a vila medieval de Ourém, num lugar chamado Santo Amaro e onde se ergueu uma capela da mesma devoção, celebra-se todos os anos por esta data uma feira de características tradicionais, onde o pinhão – fruto seco da época, vendido avulso ou em colares – é o produto por excelência. A feira faz-se à beira da estrada; a missa ouve-se da rua, dada a exiguidade da capela. No altar acumulam-se os bonecos de cera, de todas as formas do corpo e animais, materialização das promessas dos fiéis. Uma tradição que tem resistido ao tempo, mas onde se vão vendo poucos rostos jovens.

“Isto é tão caro!”, comenta quem passa, tira sem pejo alguns pinhões da cesta e questiona a qualidade do produto. Os pinhões aqui ainda se vendem por medidas – pequena, média e grande – e ninguém parece conseguir fazer a conversão das pequenas caixas quadrangulares para gramas ou quilos. Os preços são os mesmos dos últimos anos: 5/6, 10/12 e 20 euros, consoante a medida. O tempo seco, a falta de água e – há quem afirme – os fogos, fizeram diminuir substancialmente a quantidade de pinhão para venda. Mas as pessoas ainda compram e não parecem ter problemas em gastar 20 euros.

Maria de Jesus vende pinhões no Santo Amaro há 65 anos Foto: mediotejo.net

“Muito obrigada e nosso senhor o ajude”. Maria de Jesus Sousa, 87 anos, vende pinhões no Santo Amaro há perto de 65 anos. Nesta época percorre todas as festividades da zona: Santo Amaro, Vale Travesso, Seiça e Sabacheira (Tomar). Acarinhada por quem a visita, não demorou muito tempo a ficar sem produto na feira desta segunda-feira.

Os seus pinhões não são de compra. É a família quem percorre a vizinhança a pedir pinhas e depois recolhe e tosta os pinhões para venda nas feiras. Produto mais caseiro que este será difícil de encontrar…

Mas “há uma quebra muito grande” no pinhão, explica a filha, Elisabete Vieira. “Se não chove, não há pinha” e mesmo o pinhão tende a ficar podre. Mesmo assim o produto vendeu-se. “Não há segredo”, comenta. É trabalhar noite dentro, tostar o pinhão no forno a lenha e manter esta tradição de venda que já está no sangue da família. Elisabete é operária fabril, vendendo apenas o pinhão nas feiras desta época. “Não dá para viver só disto”, comenta.

Feira faz-se à borda da estrada, junto à capela. Missa ouve-se na rua Foto: mediotejo.net

O mesmo não sucede com Ana Lopes, 53 anos, natural de Casal da Pena, Torres Novas, que faz da venda nos mercados o seu ofício. A sua banca, por tal, não se fica apenas nos pinhões, vendendo figos, nozes, entre outra variedade de produtos que também chamam a atenção de quem passa.

“Vêm sobretudo as pessoas de mais idade, os mais jovens também estão a trabalhar”, comenta, recordando-se o facto que este 15 de janeiro calhou a uma segunda-feira. Pinhões já não se vendem tanto como antigamente, constata. A vida está mais cara e a vendedora ainda se admira como alguns clientes levam tanto. “Vamo-nos conformando”, termina.

Santo Amaro das promessas

Para além da compra de pinhões, a feira de Santo Amaro é também conhecida pela romaria feita à capela e a realização de promessas ao Santo com o mesmo nome. Junto ao altar vão-se acumulando as figuras de cera: cabeças, pés, crianças, animais e muitas velas. A loja de cera da capela só abre efetivamente neste dia (o resto do ano carece de autorização prévia). Cabe à comissão fabriqueira da Igreja Paroquial de Nossa Senhora das Misericórdias organizar a venda e zelar pelo espaço, que em dia de Santo Amaro não tem mãos a medir.

Na capela, a loja de cera abre apenas dia 15 de janeiro. Velas e figuras de pernas, cabeças e crianças são os produtos mais vendidos Foto: mediotejo.net

“Vendem-se velas e todo o tipo de bonecos” de cera, adianta António Pereira, membro da comissão que este ano se ocupou da loja. “Não sei a intenção”, admite, “mas penso que seja para cumprir promessas”. Em tempos vendiam-se muitas figuras de animais – e ovelhas, porcos, cavalos, cães e gatos continuam a fazer parte do espólio – mas hoje quem compra parece estar mais voltado para a saúde que para a agricultura. “O que sai mais são as velas. Depois noto que saem muitas pernas, cabeças e figuras de meninos e meninas”, adianta.

Figuras de cela acumulam-se junto ao altar. O Santo Amaro também é conhecido pela romaria Foto: mediotejo.net

Quem compra segue para a exígua capela e deposita a sua figura junto ao altar. As velas são acesas no imediato num pequeno tocheiro à saída. No altar, Santo Amaro tem já a pele escura, a denunciar a idade, uma imagem do século XV que se preservou com a tradição. Não há bancos em paralelo, apenas encostados às paredes e o espaço central vazio. Pequenos folhetos explicam a história de Santo Amaro, com uma breve oração:

“Senhor, que em Santo Amaro, Abade, nos deixastes um modelo de perfeição evangélica, concedei-nos, por sua intercessão, que no meio das vicissitudes temporais abracemos de todo o coração as realidades eternas”

À medida que a tarde avança, o movimento dispersa. Vendem-se filhoses, bolos e farturas; os homens juntam-se numa mini taberna montada para a data. Há alguns “forasteiros” menos tradicionais, vendendo utilidades do quotidiano. Mas quem chega quer pinhões, um copo de vinho, uns figos e, quem sabe, um doce.

Um empreendedor de Alvaiázere traz um pião de cinco quilos que ousa lançar à estrada, com mestria de arremesso e curiosidade eufórica geral. Ao cimo, observando a cena, está o quase milenar Castelo de Ourém.

São as réstias das tradições populares, dos arraiais e das feiras, das procissões e devoções, que ainda resistem em marcar a identidade das terras de Ourém.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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