Rui Ramos Foto: Santuário de Fátima

Entre 10 e 12 de julho decorre no Centro Pastoral Paulo VI a terceira edição do Curso de Verão do Santuário de Fátima, este ano dedicado a uma “síntese das leituras de um acontecimento centenário”. No primeiro dia de trabalhos, terça-feira, 10 de julho, o historiador Rui Ramos defendeu que o fenómeno Fátima tem sido “simplificado” ante as dicotomias da sua época.

Rui Ramos, também doutorado em Ciência Política, analisou o contexto de “Portugal e do mundo ao tempo das Aparições”, recuperando as duas tradicionais referências da época: a Primeira República e a Primeira Guerra Mundial. Defendeu assim a importância de “uma visão mais segura e crítica do contexto” das aparições para que sejam alcançadas “novas leituras” do acontecimento, refere a nota de imprensa do Santuário de Fátima.

Para o investigador, Fátima delimitou a “charneira entre duas épocas: o século XIX, liberal e burguês, e o século XX, marcado pelas duas Guerras Mundiais, a Guerra Fria, o progresso e a grande transformação estrutural”. Ao apresentar uma contextualização do fenómeno de Fátima, o investigador alertou para a “simplificação” recorrente que se faz da análise de Fátima nas dicotomias: Campo/Fatima ou Tradição/Progresso, e Igreja/República ou Catolicismo/Laicismo.

“Fátima está num contexto de mudança onde um mundo acaba e começa um outro. Quem estuda Fátima simplifica este contexto a partir destas dicotomias. Não sendo totalmente despropositadas, não são, no entanto, a melhor maneira de compreender o que se passou em 1917, em Portugal, a partir da Cova da Iria”, defendeu, avança a mesma informação.

A simplificação da época serviu tanto os apologistas, como os críticos de Fátima. Para Rui Ramos, porém, a sociedade de 1917 era “muito mais complexa do que aquela que tendencialmente se faz transmitir”.

“Fátima é uma sociedade muito diferente e complexa da estrutura rígida que imaginamos. A simplificação tornou as coisas mais difíceis de compreender. Neste sentido, a nossa análise deve também ser mais complexa e olhar, com mais atenção, para a forma como as pessoas se relacionavam umas com as outras”, disse, ao defender que “Fátima é, desde o início, um acontecimento nacional”.

Na revisão da dicotomia Igreja/República ou Catolicismo/Laicismo, Rui Ramos apresentou Fátima como “lugar de encontro entre um novo catolicismo e um novo republicanismo”.

“Fátima corresponde a um novo catolicismo, em rutura com a ‘Igreja de Estado do século XIX’, mais individual, ligado à fé e aos fiéis, e mais ligado à mobilidade das peregrinações e não centrado na tradição eclesiástica e dogmática. Do lado da República, com o derrube de Afonso Costa por Sidónio Pais, também assistimos a uma tendência de maior proximidade com a religiosidade popular. A partir de 1917/18, Fátima congrega novos católicos, apologistas de Fátima, e aqueles que querem uma nova República e procuram referências de consenso para sanar divisões”, argumentou.

Na conclusão, e a partir desta ideia, o investigador apresentou Fátima como acontecimento integrante do progresso do início do século. “Mesmo sem o Estado Novo, Fátima teria sido um grande acontecimento, porque foi o local de encontro entre um novo catolicismo e um novo republicanismo. Fátima faz parte do próprio progresso, porque foi e é uma maneira das pessoas viverem o novo século XX.”

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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