Foto: mediotejo.net

Junto ao altar da Igreja Matriz de Fátima, em Fátima “velha” –  como a população intitula o bairro hoje integrado na cidade de Fátima – a imagem de Nossa Senhora dos Prazeres é o testemunho da já longa história desta paróquia. Para todos os efeitos, ainda que a Igreja sede tenha adotado o nome de Igreja Paroquial de Fátima e dos Pastorinhos, é ela a padroeira por excelência deste templo, onde os agora santos Jacinta e Francisco Marto foram batizados, e da paróquia/freguesia. Este fim-de-semana, 6 e 7 de agosto, celebram-se as “Festas Grandes” do lugar, em honra do Sagrado Coração de Jesus e Santíssimo Sacramento. Onde está Nossa Senhora do Rosário de Fátima?, questionamos. Um pouco por todo o lado.

Em termos práticos, Nossa Senhora é sempre a mesma, Maria, a mãe de Jesus, esposa de José, a jovem a quem lhe apareceu o anjo Gabriel anunciando a gravidez, segundo a tradição cristã. O que muda é a devoção e a forma como é retratada a nível artístico, com diferentes símbolos e narrativas miraculosas associadas. Antes de em 1917 ter surgido o culto na Cova da Iria (zona então de azinheiras e mato a poucos quilómetros de Fátima) a Nossa Senhora do Rosário de Fátima, já a paróquia existia desde o século XVI. Foi nesse tempo, quando Portugal perdia a soberania e morria de peste negra, que se expandiu o culto a Nossa Senhora dos Prazeres (ou das Sete Alegrias).

Imagem de Nossa Senhora dos Prazeres do século XVI, padroeira de Fátima. Emparedada aquando as invasões francesas, só foi descoberta em 1919. Foto: mediotejo.net

A história de Nossa Senhora dos Prazeres é de origem portuguesa e possui diversos episódios, sendo possível encontrá-los de forma dispersa online. Resumindo diversas páginas que dissertam sobre a narrativa, o título “dos Prazeres” ou “das Sete Alegrias” terá nascido no século XIV, por meio dos franciscanos, que celebravam os prazeres ou as alegrias da Virgem Maria: a anunciação do anjo, a saudação de Santa Isabel, a contemplação do recém-nascido, a visita dos reis magos, o encontro com Jesus no templo, a primeira aparição de Jesus após a ressurreição e a subida de Nossa Senhora aos céus em corpo e alma.

Assim, no século XVI, o culto já existia, mas ganhou dimensão com o surgimento de uma imagem de Nossa Senhora numa fonte, em Alcântara (Lisboa), na Quinta dos Condes da Ilha, por alturas da celebração de Nossa Senhora dos Prazeres. A imagem da Virgem ter-se-á manifestado a uma menina, pedindo-lhe que ali fosse construída uma capela sobre essa devoção. Lisboa também viveu por esta época um surto de peste negra, contando-se que os enfermos encontravam cura nas águas da fonte.

A ordem cronológica dos acontecimentos nem sempre é narrada da mesma forma e há pormenores que são retirados ou acrescentados, mas a imagem na fonte, a aparição à criança e as curas milagrosas da água no contexto da peste são episódios que se repetem e interligam. Em termos históricos mais factuais, a grande peste de Lisboa data de 1569.

Ora a freguesia da Serra, que se encontrava situada no lugar de Fátima (terra que ficara com esse nome dos tempos da ocupação muçulmana), foi desmembrada da Colegiada de Ourém em 1568, sendo padroeira da sua ermida, que se tornaria sede de paróquia, Nossa Senhora dos Prazeres. O padroeiro (orago ou patrono) é um santo ou anjo a quem é dedicada uma localidade (de recordar que as freguesias civis nasceram das paróquias católicas), uma associação (São Francisco de Sales é o padroeiro dos jornalistas, São Jorge dos soldados, etc) ou um templo.

A paróquia/freguesia celebra assim em 2018 os seus 450 anos. A Igreja Matriz de Fátima sofreu várias obras ao longo dos séculos, com uma grande intervenção entre 1915 e 1925, sendo a última remodelação do ano 2000. Nossa Senhora dos Prazeres permaneceu sempre como padroeira, tendo como co-padroeiro Santo António e várias outras imagens dispostas ao culto. Uma delas é uma imagem do século XVI de uma Nossa Senhora do Rosário que, não sendo igual à disposta na Capelinha das Aparições na Cova da Iria, fez parte da narrativa da Irmã Lúcia (última pastorinha a falecer, em 2005).

A Nossa Senhora do Rosário de Fátima original, uma imagem do século XVI que a Irmã Lúcia contemplou. Foto: mediotejo.net

Há também uma imagem da atual Nossa Senhora do Rosário de Fátima, São Silvestre, São Sebastião, o sacrário e a fonte batismal (os mesmos do tempo dos pastorinhos), Coração Imaculado de Maria, Sagrado Coração de Jesus, Santa Teresa de Ávila, São José, Nossa Senhora das Dores, São Miguel, Nossa Senhora do Carmo, Jesus Ressuscitado, Jesus crucificado e o Menino Jesus de Praga.

Mas porque não se tornou Nossa Senhora do Rosário de Fátima, ao longo do último século de culto e grande crescimento do seu santuário, padroeira desta paróquia com quase meio milénio? No fim-de-semana das “Festas Grandes” de Fátima, uma das mais antigas tradições da localidade e onde se juntam os emigrantes, questionámos o pároco, Rui Marto, se em ano de centenário, ou antes, a ideia nunca foi equacionada.

“Nunca pensámos”, comentou o padre Rui Marto. “Fátima tem um conteúdo histórico muito mais vasto que as aparições”, constatou ao mediotejo.net, frisando que em 2018 se celebram os 450 anos da paróquia/freguesia e a padroeira sempre foi a Senhora dos Prazeres. Retirar este pedaço da sua história a Fátima seria “afetar a memória dos nossos antepassados”, salientou.

A imagem que se encontra no interior da Igreja, junto ao altar, de Nossa Senhora dos Prazeres tem aliás uma existência muito singular, explicou. Exuberante, é uma peça de estatuário do século XVI, de autor desconhecido, com traços estéticos das oficinas do renascimento coimbrão. Aquando as invasões francesas, explicou o sacerdote, a imagem desapareceu. Foi descoberta apenas em 1919, emparedada na Igreja, onde fora colocada para não ser roubada. “Emparedaram-na e lá ficou por mais de um século. Tem toda uma simbologia”, constatou o sacerdote.

Igreja Matriz de Fátima, onde os três pastorinhos foram batizados, desperta o interesse de quem visita a cidade. Foto: mediotejo.net

No entanto, apesar do seu peso histórico, a Igreja Paroquial de Fátima e dos Pastorinhos é hoje uma “devota” dos acontecimentos de 1917. As imagens dos irmãos santos estão dispostas logo no adro do templo, acompanhados ao centro por uma estátua de Nossa Senhora, sem qualquer atribuição definida mas com os traços estéticos similares à Senhora das Graças. Para todos os efeitos, Fátima tem como padroeira Maria, mãe do Céu, e, como lembra a música do “Adeus”, “de Portugal Rainha” (D. João IV coroou a imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha de Portugal nas cortes de 1646).

No interior da Igreja, com uma pequena loja de artigos religiosos e de Fátima junto à sacristia, dois quadros (o mais recente no altar, de largas dimensões, apresentado este ano a 25 de maio) lembram a aparição de Nossa Senhora a Jacinta Marto naquele mesmo espaço, poucos dias depois do 13 de maio, na quinta-feira da ascensão de 1917. A paróquia está a projetar ter no próximo ano duas imagens dos novos santos Jacinta e Francisco Marto para culto, mas o padre Rui Marto salienta que ainda não foi nada decidido. A imagem de Nossa Senhora do Rosário do século XVI também é muito adorada, salienta, tendo referido Lúcia nas suas memórias que lhe sorriu, em dada ocasião.

Por isso, não correspondendo o orago aos tempos modernos, tem a Igreja matriz uma ligação e simbologia aos acontecimentos da Cova da Iria que completam a sua história. O pároco de 1917, aliás, foi o primeiro a interrogar os pastorinhos e dele há vários registos da sua interação com as crianças.

Neste centenário, o templo vive um pico de afluência como nunca conheceu. “Temos tido muitos grupos. Não tem comparação com anos anteriores”, constatou o sacerdote, referindo que surgem visitantes até quando a Igreja já se encontra fechada. “A paróquia está a ter uma grande dimensão exterior”, frisou, de tal forma que não se consegue ter um cálculo do número de visitantes. “Ainda ontem tivemos aqui 300 jovens de Toledo”, destacou.

Não obstante o orago, são os acontecimentos de 1917 que se celebram nesta paróquia e igreja matriz, com as imagens dos novos santos no adro. Foto: mediotejo.net

Nas “Festas Grandes” do fim-de-semana juntam-se os emigrantes. A missa é às 11 horas de domingo, dia 6, com uma consagração aos zeladores do Coração de Jesus, seguindo-se a procissão. Na segunda-feira, dia 7, a celebração decorre às 18 horas, rezando-se pela memória dos nascidos há 40 anos que já faleceram e uma romagem ao cemitério (a organização das festas é da responsabilidade dos que completam 40 anos nesse ano). Em ambos os dias há o tradicional serviço de restaurante e música.

A paróquia de Fátima contempla os lugares e respetivas igrejas/capelas de Maxieira, Boleiros, Giesteira, Ortiga (também possui um santuário), Montelo, Moita Redonda, Lombo d’Égua e Cova da Iria (missa nas Irmãs Reparadoras).

 

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *