António Neves e o pai, Luís Neves

António Neves, jovem de 13 anos que competiu recentemente na Rússia num campeonato europeu de Badminton, enfrenta hoje a luta que cada desportista trava em tão tenra idade: conciliar a atividade de alta competição com o percurso escolar. Para o pai, Luís Neves, Portugal tem muito que trabalhar ao nível do seu sistema educativo, que deveria dar mais espaço e alternativas a quem deseja enveredar pela carreira desportiva. A crítica passa pelos conteúdos lecionados nos currículos escolares, pelas perspetivas de carreira (ou falta dela) e pelo cortar de asas a quem tem outro tipo de objetivos que não os estabelecidos pelo sistema. A equipa António Neves quer chegar ao topo! Mas falta-lhe tempo para se dedicar em pleno a tão ambicioso objetivo.

No 8º ano, António Neves não intervém muito durante a entrevista. Comenta que a viagem à Rússia “foi boa” e vai retificando alguns dos dados sobre jogadores e competições de Badminton que surgem durante a conversa com o pai. É Luís Neves quem fala, defendendo a perspetiva que há tempos vem travando com a escola do filho e com os colegas de competição. “Ele precisa de tempo para treinar” e a estrutura escolar, tal como está organizada, não permite esse foco quase exclusivo ao desporto. “A nossa escola é uma escola estúpida”, afirma.

Apesar de comentar que “o apoio que temos da escola é muito rudimentar” para que o António consiga obter resultados, as críticas de Luís Neves não se dirigem à instituição em particular, mas a todo o sistema educativo. Na sequência da viagem à Rússia, o jovem acabaria por perder um teste de Matemática. O problema é recorrente e prevê-se que se agrave com a necessidade de realizar estágios e competições, quase sempre em alturas de aulas. “O António é o líder do projeto, mas estamos a chegar a uma fase de opção”, afirma por diversas vezes Luís Neves, salientando que a partir de determinado escalão se for para apostar tudo no Badminton, António terá que sair da escola.

Alguns destes problemas são contornados pelo Estatuto de Alta Competição que, uma vez adquirido, possibilita algumas regalias a nível escolar, com fazer exames numa época especial ou ter um horário específico que permita ao atleta treinar. Apesar de ter ido a um campeonato europeu e de já poder concorrer a este Estatuto, António não o possui.

Questionado a este respeito, Luís Neves explica que para adquirir o Estatuto de Alta Competição é necessário preencher certos critérios a nível de resultados que o Badminton, dada a representatividade desportiva que tem em Portugal, não havia permitido até ao momento atingir. Mas mesmo agora, após a Rússia, António não deverá procurar este Estatuto, uma vez que traz implicações. “O atleta fica escravo da Federação”, salienta Luís Neves, “se não estiver disponível, perde o Estatuto”. “É mais um faz de conta!”.

“Acredito num ensino verdadeiramente articulado” é a filosofia de Luís Neves, que comenta também alguma falta de “sensibilidade” da estrutura escolar para com o seu caso. Pois mesmo “apesar de todo o apoio da escola, nem sempre os pais, professores e colegas entendem”.

O “Tempo” é o conceito fundamental. “Como podem querer resultados se não criam condições?” é a interrogação constante de Luís Neves. A viagem à Rússia foi paga do próprio bolso e o mesmo acontecerá noutras viagens, como em breve à Dinamarca. “O Desporto hoje é uma coisa muito cara, muito profissional e que não se compadece com escolas”, constata.

António Neves pertence à União Desportiva de Ourém. foto João Boto
António Neves pertence à União Desportiva de Ourém. foto João Boto

A paixão pelo Badminton começou com Luís, que o tem incutido aos filhos, tendo o mais velho também chegado a jogar. “É a adrenalina da competição e se temos um atleta que nos dá resultados competitivos…”, tenta explicar.

Para já tem um pequeno ginásio e respetivo campo montado em casa e é aí que António treina todos os dias. Luís tem feito contatos por todo o mundo, procurando abrir caminho nesta área desportiva para o filho. Sabe que com a idade este enfrentará desafios cada vez maiores e que é necessário nunca perder de vista os objetivos. “Temos que treinar e jogar com os melhores”, é o seu princípio.

Sem Estatuto de Alta Competição não existem alternativas

O mediotejo.net contatou o agrupamento de escolas de Ourém, ao qual António pertence, por forma a obter uma declaração a respeito do jovem e dos problemas de conjugação da sua atividade desportiva com a escolar. Da entidade escolar foi esclarecido de que “ao longo dos anos, o Agrupamento de Escolas de Ourém tem tido alunos abrangidos pelo regime escolar de Atletas de Alto Rendimento, consagrado pelo Decreto-lei 272/2009 de 1 de outubro. A estes alunos a escola tem aplicado os benefícios legalmente contemplados”.

Mas uma vez que António não possui o Estatuto de Alta Competição, o agrupamento não pode aplicar as medidas que este prevê e que o libertariam de várias responsabilidades escolares. “Compreendendo alguns constrangimentos que se colocam na posição escolar do aluno, a escola tem colaborado na marcação de testes e na justificação das faltas mas, no entanto, está impedida de aplicar o disposto no normativo legal, em virtude de este não se encontrar abrangido pelo mesmo”, termina.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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