Ora bem… parece que a greve dos professores deverá afetar 27 mil alunos.

Como assim?

Então, se leres notícias percebes rapidamente de onde é que vem esse número. É que estão inscritos 27 mil alunos no exame agendado para o dia da greve. Mas isso não quer dizer que devam ser todos afetados.

Ah! Então é o 1+1 que nem sempre é 2!

Exatamente. O facto de haver 27 mil alunos inscritos no exame não quer dizer que a greve deva afetar todos. Pode afetar, que é uma coisa diferente. Mas também pode não afetar. Porque há professores que não fazem greve, porque pode haver serviços mínimos e porque o ministério da Educação ainda pode, no limite, mudar o dia do exame.

Mas nós sabemos que os professores estão mesmo muito descontentes. Portanto, esse título até não é assim muito disparatado…

É sempre uma possibilidade. Até pode ser que 27 mil alunos sejam afetados, mas enquanto ainda estão em cima da mesa muitas condicionantes, talvez não seja o melhor título.

Está bem, já vi títulos bem piores. Esse procura dar a dimensão máxima que a greve pode atingir. Será o facto no seu limite, se é que isto, dito assim, faz algum sentido.

Comecei por falar nesse título, mas até acharia mais interessante estarmos aqui a falar nos efeitos de uma greve.

Os efeitos são óbvios: parar serviços como forma de pressão para se atingir um objetivo, afetando quem nesse dia precisar desses serviços, criando nessas pessoas um sentimento de revolta que depois segue em direção a quem faz greve ou em direção a quem deu origem ao pretexto da greve.

É mais ou menos isso (risos). No essencial, essa tua definição serve para eu seguir para o meu próximo raciocínio.

Diz lá!

Antigamente os sindicalistas eram acusados de marcar greves para sextas ou segundas-feiras para serem mais apelativas, porque sempre davam direito a um fim de semana prolongado.

Agora já não o fazem, precisamente para mostrarem que quem faz greve é mesmo só para manifestar o seu protesto.

Mas continuam a marcar, sempre que possível, para dias que causem confusão significativa, por muito que digam que não, que só podia mesmo ser aquele dia.

A verdade é que esta greve dos professores foi anunciada para uma quarta-feira, mas coincide com um dia de exames nacionais.

O que é estranho é que as duas federações de sindicatos dos professores já tenham garantido que, se o ministério da Educação mudar o dia do exame, elas não mudam o dia da greve.

Então a greve não vai atrás do exame?

Pelos vistos, não!

Então os sindicalistas não querem prejudicar os alunos?

Provavelmente, não!

Então por que marcaram a greve para um dia de exame? Não era para ter o máximo de impacto?

Pois não sei… É como a história dos médicos que, há bem pouco tempo, fizeram greve. Em muitas situações avisaram que iam fazer greve para que os serviços avisassem os utentes e reagendassem novas consultas, sem demoras significativas.

Então lá se vai o efeito da greve!

Voilá! É mesmo aí que eu quero chegar. Podemos chamar a isto a ética da greve.

Engraçado, nunca tinha pensado nisso. Isso é mesmo o verdadeiro serviço público. O direito à greve, mas com a consciência de que quem é diretamente afetado é quem está na base da pirâmide, mas no topo das preocupações dos profissionais responsáveis.

É nestes dias, em que vejo as coisas a funcionar com bom senso, sem se perder a noção do que é importante, que tenho orgulho neste país.

Estás a ficar lamechas! Mas deixa lá, que eu vou ficando por aqui para te ir lembrando as outras coisas, que às vezes nos fazem pensar que ainda há muito caminho a percorrer…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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