Foto: Freepic

No dia do casamento do irmão mais novo da minha avó Maria, o tio Zé, compraram-se uns sapatos novos para o meu bisavô João. Ia casar o último dos 8 filhos e a ocasião merecia a despesa extra. 

Uns sapatos novos para o pai do noivo, que toda a vida foi pastor de gado e, adivinho, toda a vida terá calçado aquelas botas de homem do campo, quer no verão, quer no inverno. Botas que no início eram bravas mas que se iam moldando ao pé, ganhando os jeitos do andar de quem as calçava e duravam uma vida.

Mas para o casamento do filho mais novo, o bisavô João teve direito a sapatos novos. O investimento ficou guardado até ao dia da boda e, nessa manhã, deram-lhe os sapatos para calçar. E ele calçou-os.

Naquele tempo andava-se mais a pé e lá foi o rancho da família a pé até à terra da noiva, nem dois quilómetros, ali ao lado. Dali seguiram para a Vila onde, na Igreja, os noivos disseram o sim que durou uma vida. Após a missa voltaram para a terra da noiva, de novo tudo a pé, onde foi dia de festa farta, com comes e bebes daqueles que, na altura, só em dia de festa boa eram dados a comer. 

Casados os noivos e terminada a festa lá voltaram para casa, tudo a pé, a comentar a festa tão boa, os noivos tão felizes, o casamento do mais novo da família. O bisavô João agora que estivesse descansado, que já tinha criado e casado os filhos todos. O bisavô João ouvia, pouca conversa adiantava e só via a hora de chegar a casa.

Chegados a casa, que eram todas perto umas das outras, cada filho foi para a sua. E o bisavô João e a bisavó Maria José foram para a deles, ali no meio. 

O bisavô João chegou, sentou-se num banquinho de madeira, descalçou os sapatos, atirou-os para um canto e disse: 
– Arruma isso, mulher, que nunca mais os calço.

Nem imagino o pânico da bisavó Maria José, tanto dinheiro ali investido, o que era aquilo, que antipatia ganhou aos sapatos. Chamou a filha, as noras, vieram todos questionar o patriarca e o seu azedume aos sapatos, que lhe haviam de dar para os dias de festa, bem tratadinhos, até ao fim da sua vida.

Uns atiravam uma hipótese, outros outra, adivinhavam aquele desamor aos pobres sapatos. Até que alguém lhes deitou a mão, como que a querer resgatá-los e percebeu que nos sapatos, bem lá dentro, encafuados, estavam aqueles rolhões de papel que se poem nos sapatos para não perderem a forma. 

Ninguém se lembrou de os tirar e o bisavô João, que não era de se queixar, sentiu os sapatos apertados todo o santo dia, logo desde que os calçou e se pôs de pé e não se queixou para não estragar o dia, que era de festa.

Sempre gostei desta história de família, do meu bisavô João Lourenço, homem pacato, de família, cuidador do rebanho de cabras que toda a vida lhe foram o sustento. Não era de queixas, para não aborrecer ninguém. E foi o que fez naquele dia.

Penso nesta história muitas vezes, no que aguentamos para não causar chatice. No quanto certos dias nos apertam os sapatos, mas não queremos estragar a festa. 

A verdade é que se o meu bisavô João se tivesse queixado, poderiam ter dado pelo “gato” bem cedo e não teria passado o dia em agonia.

Se há pessoas a quem não apertam os calos, que se queixam de tudo e de todos, que exigem, que cobram, outras há que vão deixando andar, que não se queixam nem estão para criar situações chatas.

Na verdade, numa escala grande, global e narcisista, as primeiras causam os grandes problemas do mundo. Mas as segundas não estão melhor. Não ficam melhor. E é esta a questão: quanto devemos aguentar? Será ali o meio termo, não é!?!

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação. Licenciada em Sociologia, trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é.

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