Há medidas que por melhor intencionadas que possam ser acabam por revelar um total alheamento e falta de noção de quem as toma ou propõe. Falo-vos da proposta de Lei Orgânica da GNR que defende uma duplicação do número de Generais na Guarda Nacional Republicana. Num contexto em que centenas de postos estão sem gente suficiente para as mais simples tarefas de patrulhamento, em que muitas noites e fins de semana não há sequer uma patrulha por Concelho, o Ministério da Administração da Interna e a GNR acham que é um bom momento para duplicar o rácio do número generais por cada 1000 militares.
A medida não está aprovada, mas como veio a público é essa a proposta do Comando da GNR e como nos parece obvio só avançaria para uma negociação com os parceiros depois de obter o consentimento do Ministro da Administração Interna que, espero, tenha o bom senso de recuar e travar esta aberração.
Se internamente se encontrarão justificações de carreira ou de expectativas dos oficiais na linha de promoção ou até da mais valia operacional para a estrutura, que eu duvido, do ponto de vista da motivação e da união do corpo de homens e mulheres que constituem “a guarda”, não há sinal mais contrário de desrespeito face às atuais dificuldades.
Milhares de homens e mulheres são hoje obrigados a desempenhar as suas funções conscientes que não cumprem as responsabilidades e nem correspondem às expectativas dos cidadãos por manifesta falta de pessoal.
É uma vergonha, mas a verdade é que dezenas de concelhos por esse país fora passam muitos dias, noites e fins de semana sem uma única patrulha disponível. É uma vergonha, mas são demasiados os dias em que uma única patrulha da GNR é que assegura o serviço em três e quatro concelhos. É uma vergonha, mas a GNR nem fornece atempadamente o fardamento necessário aos seus militares obrigando-os a adquiri-lo no mercado paralelo. É uma vergonha, mas se não fossem as autarquias muitos postos da GNR não tinham um veículo a funcionar para desempenhar a sua função. É uma vergonha, mas enquanto a GNR investe milhões de euros em novos barcos patrulhas os seus homens e mulheres trabalham em quartéis sem quaisquer condições. A GNR tem muitos problemas para resolver e devolver a dignidade à mais tradicional força de segurança do país, duplicar o número de generais não é de certeza a sua prioridade.
Fica a sensação que a única justificação é a necessidade de garantir vaga para os Coronéis que legitimamente querem subir na carreira ou para dar guarida aos Generais em excesso nas Forças Armadas.
No último Governo do PSD fizemos uma das maiores reduções ao nível de Generais das Forças Armadas. A maior necessidade da GNR, que tem o atualmente o maior quadro de generais da sua história, é de “botas no chão” e que eu saiba os Generais calçam botas mas ainda não fazem patrulhas.
