Foto: Adelino Correia-Pires

Com o Verão e a chegada dos emigrantes, mais se acentua o contraste entre os portugais de Portugal. Sem regionalismos bacocos, como é diferente ser-se do norte ou do sul, urbano ou da província, do continente ou das ilhas.

No Minho, Beiras e Trás-os-Montes, não há lugar ou freguesia que não festeje o padroeiro. Orgulhosos, os mordomos vestem-se a rigor e as festas e romarias daquelas gentes, são lugares de encontros, reencontros e saudades, mortas com a chouriça e o caneco. Mais a sul, o tempo é de praia e festivais de verão, onde o bronzeado e a tatuagem desfilam em passerelas de vaidade.

Nas grandes cidades, os cruzeiros e os low-cost, fizeram de Lisboa e Porto capitais do turismo enlatado, entre um faduncho inspirado e um bom cálice de “três velhotes”.

Seja aqui ou acolá, não fazemos a coisa por menos. Há sempre algo que nos une ou nos distingue dos camones ou dos chinocas. A sardinha e o bacalhau, o pastel do dito cujo, o tal vinho do Porto, o Zé Povinho ou o galo de Barcelos, só poderiam ser nossos, e onde há um português, lá estão eles. São a nossa imagem de marca, estão presentes nas mesas fartas, recheiam os “souvenirs” e têm na sua essência, uma história de trabalho e sofrimento.

Na sardinha e no bacalhau, fiel amigo e cozinhado de mil maneiras, se homenageia a coragem dos pescadores das águas frias e dóris da Terra Nova. Nos velhos socalcos do Douro, trabalhados que nem um galego, se produz aquele que, “very british” é hoje um dos mais chics vinhos do mundo.

Em Barcelos, capital do figurado, na lenda do famoso galo, se revê a justiça popular, quando o acusado, injustamente condenado à morte, fez com que no repasto do juiz, o galo ressuscitasse do banquete e cantasse alto e bom som, o grito da sua inocência.

E já secular mas ainda actual, a sabedoria popular eternizou para sempre, o génio de Bordalo Pinheiro. Afinal, hoje mais que nunca, o Portugal dos portugais, bem precisaria de dez milhões de “Zé Povinhos”. De descobridor a descoberto foi um passo. Vai dar certo?…

* Crónica escrita em julho de 2014, publicada no Jornal Torrejano e no livro “Crónicas com Preguiça” e reescrita hoje.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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