Durante muitos séculos o saber da arte pirotécnica foi detido pelo povo chinês e indiano e só muito mais tarde, trazido pelos árabes e gregos, chegou à Europa. Curioso é que no mundo de quinhentos a arma de fogo no Japão foi introduzida, pela primeira vez, pelos portugueses, quando um navio ali buscou abrigo numa ilha de uma tempestade, no ano de 1543.
Fundeou na ilha “Tanegashima” dando origem à curiosidade dos nativos e às trocas comercias. Depois, procederam os japoneses à feitura das primeiras réplicas funcionais de armas de fogo entregues pelos portugueses. Foram obras feitas por ferreiros que iniciaram a mutação das armas e o rumo das guerras naquele território, substituindo os “sabres Samurais” pela “espingarda de Tanegashima”, uma peça fundamental da história militar e formação do Japão como nação.
A criação de fábricas de pirotecnia em Portugal iniciou-se no princípio do Séc. XX.
Desconhecemos quando a arte do fogo de artifício foi introduzida no nosso concelho, mas a data deve ser próxima de 1907.
Sabemos que, no ano de 1906, em Diário do Governo, n.º 143, de 30 de junho de 1906, a folhas 2289, é publicado um Edital com o seguinte teor: “Luiz Augusto da Costa Ramos, Administrador do concelho da Barquinha. Faço saber que Francisco Martins, proprietário, residente no logar da Moita, freguesia da Atalaia, d’este concelho, requereu perante esta administração o processo preliminar para o estabelecimento de uma officina pyrotechnica nos referidos logar e freguesia.
E como este estabelecimento esteja compreendido na tabella A, annexa ao decreto de 24 dedezembro de 1902, e seja considerado perigoso pelo perigo de explosão, são convidadas as autoridades públicas, os médicos, os industriaes ou qualquer interessado a reclamar por escrito no prazo de trinte dias, a contar de hoje, perante mim, contra o estabelecimento da testa officina.
E para constar se passa o presente e outro em conformidade com a disposição do regulamento approvado pelo decreto acima referido. Barquinha, 26 de junho de 1906.= E eu, Júlio Cesar de Sousa e Costa, Secretario da Administração do concelho, o subscrevi. = Luiz Augusto da Costa Ramos”.

Este é o primeiro pedido que é feito para o concelho de Vila Nova da Barquinha.
Certo é que este requerimento teve o seu deferimento, em 7 de fevereiro de 1907, por El Rei D. Carlos I, conforme consta do alvará de licença n.° 56: “Eu El-Rei faço saber aos que este meu alvará de licença virem, que atendendo ao que me foi representado por Francisco Martins, do logar da Moita, freguesia da Atalaia, concelho da Barquinha, districto de Santarem, pedindo licença para estabelecer no logar de Moita, freguesia da Atalaia; concelho da Braguinha, districto de Santarém, uma oficina exclusivamente destinada a preparações pyrotechnicas, artifícios de fogo, foguetes ou manipulações análogas de corpos explosivos.
Vista a lei de 24 de maio de 1902 e o decreto regulamentar de 24 de dezembro de 1902; Visto o parecer da Comissão dos Explosivos; Considerando estarem preenchidas todas as formalidades que as leis exigem: Hei por bem conceder ao dito Francisco Martins a licença para a instalação de uma oficina exclusivamente destinada a preparações pyrotechnicas, artifícios de fogo, foguetes ou manipulações análogas de corpos explosivos nos termos do artigo 11.° do regulamento de 24 de dezembro de 1902, ficando o concessionário obrigado a disposto nos citados diplomas e mais às seguintes condições geraes e especiaes.
1.º Entrar na Caixa Geral de Depósitos, no prazo de trinta dias, a contar de data d’este alvará, com a quantia de 50,5000 réis, importância da caução definitiva arbitrada; 2.º Só poderá começar a laborar e funcionar depois de ter permissão dada por escrito pelo administrador do concelho ou bairro, precedendo auto de vistoria feita pelo inspetor de serviço de artilharia ou por delegado seu, a requerimento do interessado; 3.º Não effectuar a cessão ou transferência sem previa autorização do Governo; 4.º Aceitar a visita ordinaria ou extraordinaria do official de artilharia, inspector ou do seu delegado, e bem assim a do engenheiro chefe da circunscrição dos serviços técnicos da industria, permitindo-lhe que examine as condições da instalação, verifique a produção da fabrica e proceda ás pesquisas que lhe forem superiormente ordenadas; 5.º Não effectuar trabalho nocturno.
Pelo que, mando ás autoridades, tribunaes, funcionários e mais pessoas a quem o conhecimento d’este meu alvará competir, que o cumpram e guardem e o façam cumprir e guardar tão inteiramente como nelle se contém. Não pagou direitos de mercê por os não dever. E por firmeza do que dito é, lhe mandei passar o presente alvará, o qual vai por mim assinado e sellado com o sello das armas reaes e com o de verba. Dado no Paço, em 7 de fevereiro de 1907. — El-Rei. = João Ferreira Franco Pinto Castello Branco. (Diário do Governo n.º 67, anno 1911, pág. 1250).”
Portanto, este é o primeiro registo que encontrei sobre a génese de atividade pirotécnica no nosso concelho. Esta novel atividade em Portugal veio a ser regulada em 24 de dezembro de 1902., e publicada no Diário do Governo, n.º 32, de 11/02/1903. Na página 5., pode ler-se:
“Artigo 1.° É livre o exercício da indústria do fabrico e manipulação das substancias ou corpos explosivos, contanto que sejam satisfeitas as prescrições do presente regulamento. Artigo 2.° Consideram-se substancias ou corpos explosivos aqueles habitualmente usados na guerra ou na indústria com este nome, tais como as pólvoras ordinárias e seus derivados, a pólvora-algodão e outras nitroceluloses, a nitroglicerina, as dinamites, a gelatina explosiva e seus derivados, as picratites, os fulminantes, as pólvoras sem fumo, e, finalmente, todas as substancias que, podendo ter aplicações militares ou industriais da mesma natureza, desenvolvem subitamente um grande volume de gazes com produção de efeitos mecânicos consideráveis, sob a ação do choque, calor, eletricidade, luz ou influência química.
O nosso primeiro pirotécnico, Francisco Martins, era natural de Souto, Abrantes.
Estabeleceu a sua atividade na Moita do Norte, então freguesia da Atalaia, concelho de Vila Nova da Barquinha, em 1907. Sabemos, por prova testemunhal. que as primeiras infraestruturas pirotecnias situavam-se nas imediações da Rua dos Poiais, na Moita do Norte.
Francisco Martins, teve 10 filhos, 7 do sexo masculino e 3 dos sexo feminino, dos quais 5 dedicaram-se à arte do pai. Foram eles: Manuel Martins, que estabeleceu a sua fábrica na Moita do Norte, junto ao cemitério Municipal; Adelino Martins com fábrica em Atalaia, (Rua Afonso Henriques); Jacinto Martins, com fábrica em Torres Novas; Silvino Martins com fábrica no Porto-Canidelo(?); e Francisco Martins Júnior com fábrica no Bombarral.

Conta-nos António Rabaça Martins, neto de Francisco Martins: “ele foi um homem dos 7 ofícios. Teve várias atividades, mas quedou-se pela pirotecnia com quem trabalhava em sociedade com os seus sete filhos na Moita do Norte. Mas um dia zangaram-se todos e cada um foi para seu lado. Um para o Porto, outro para Torres Novas, outro para o Entroncamento, outros ficaram na Moita, e outro para o Bombarral… enfim foram espalhar a arte da pirotecnia, da pólvora e dos rastilhos pelo país todo” (in entrevista ao Jornal Gazeta das Caldas).
Aquela pirotecnia do Bombarral, de António R. Martins, Lda. (descendentes da família Martins da Moita do Norte – Barquinha, uma das mais prestigiadas famílias de pirotécnicos nacionais) trabalha nesta arte há quatro gerações, desde 1934.
Em tempos de antanho, de mínguas e dificuldades perseverantes existiam períodos de convívio social, retemperadores de vidas, em que a alegria, o júbilo, o convívio, a solidariedade, e a identidade social era fortalecida por eventos do círculo ou roda do ano.
As mais emblemáticas eram e são as festas religiosas, a maioria realizadas no verão que eram lustradas com foguetes e à noite com a introdução de fogo preso, foguetões e balonas de mil cores.
O maior número de fábricas de pirotecnia, entre 1900 e 1925, estavam sediados acima do rio Tejo. Por isso mesmo as pirotecnias da Moita eram muito conhecidas na região e a sul do mesmo rio. Nestas localidades todos os anos contavam com o fogueteiro da Moita e a sua fama percorreu o país.

Na minha terra natal, Oleiros, Beira Baixa, também existe uma fábrica de fogo de artifício e foguetes: a “Pirotecnia Oleirense”, fundada em 1948 por Simão Pedro Duarte. No final dos anos 80 a pirotecnia muda de mãos e passa para a D. Aura Fernandes, viúva do José Maria, e para os filhos João Paulo Ribeiro e Amélia Ribeiro. A empresa cresceu, criou empregos e com espetáculos de fogo-de-artifício, eventos pirotécnicos únicos e arrojados um pouco por todo o mundo, tem elevado bem alto o nome de Oleiros.
Desde menino sempre gostei do risco desta atividade, do ruído dos foguetes, das bombas que estouravam continuamente no ar e por todos os lados, das girândolas, das latadas e dos foguetes de luzes de mil cores. Este meu gosto pelo fogo certamente estava ligado ao meu pai, António Freire, que frequentemente prestava serviço como fogueteiro. Ele brincava com o fogo pois utilizava dinamite para quebra a pedra nas minas que abria para a captação de água. Como me recordo dos bastões castanhos de 20 cm de comprimento e dos fulminantes guardados numa lata verde que, por ordem paternal superior, estava expressamente proibido de tocar, não fosse o “diabo tecê-las”.
Recordo, com saudade, os balões que deixavam o arraial e se perdiam de vista no infinito. O efeito era surpreendente pela iluminação interior. Memoro as latadas como muros brilhantíssimos de fogo de prata e oiro num conjunto verdadeiramente soberbo e deslumbrante. Ah! E aquele vai vem de “bichas supersónicas” que ligavam diferentes artefactos desde o ciclista, à roda e ao castelo! Que saudades … Recordo sem nostalgia o acordar às 7 da manhã, nos anos em que não nos deitávamos, com o rebentar dos foguetes na “alvorada” ao som da banda filarmónica oleirense. Adiante …

No alvará n.º 193, de 1951, concedido a Manuel Martins, oficina pirotécnica, podemos atentar o seguinte:
“CONSTRUÇÕES: a oficina é formada pelos seguintes edifícios construídos em tijolo e adobe com cobertura de telha e madeira;
– 1) casa com 3 dependências: a) oficina de preparação de elementos para artifícios de 6,20m X 3,30m, com dois portões e uma janela; b) oficina de preparação das temporas, de 3,40m X 3,10m, com um portão; c) oficina de fabrico de pólvora de 3,30m com uma porta e uma janela;
– 2) Oficina de carregamento e acabamento de artifícios de 7,4m X4m com duas portas;
– 3) Oficina de fabrico de rastilho, de 5,35 X 3,15m tendo uma porta e um telhado anexo;
– 4) Casa das cores, de 2,40 m X 2,40 m com uma porta;
– 5) Depósito das cores de 1m X 1 m com uma porta;
– 6) Depósito de artifícios e de elementos carregados de 5,5m X 3,20m; tendo uma porta e um telhado anexo;
– 7) Depósito de matérias primas, de 3,70m X, com uma porta
ENERGIA A UTILIZAR: o trabalho é manual exceto o das oficinas de fabrico de pólvora e de rastilho.
MAQUINISMOS E APARELHAGEM: os necessários para o fabrico de pólvora e de rastilho.
NATUREZA DAS MATÉRIAS PRIMAS A EMPREGAR: Cloratos, salitre, carvão, enxofre, etc.
LOTAÇÃO DE PAIOIS OU DEPÓSITOS: Depósitos de matérias primas: até 100Kg. De clorato de potássio, 20 Kg de pólvora, 10 Kg de diversas substâncias, depósitos de artifícios prontos, 300 dúzias de foguetes, 600 metros de cordão “Bickford”, 300 dúzias de canudos carregados para foguetões, 600 dúzias de canudos carregados para foguetes e 30 kg de fogo diverso.
QUANTIDADE MÁXIMA DE SUBSTÂNCIAS EXPLOSIVAS QUE ESTÁ AUTORIZADO A ARMAZENAR: 900 Kg de clorato de potássio.
PESSOAL: 7 homens e três mulheres
CLÁUSULAS ESPECIAIS: está autorizado pelo Alvará concedido pelo Governador Civil de Santarém em 25-1-1936, a proceder ao fabrico e de rastilho “Bickford”. Pode fabricar pólvora só para uso próprio.
Observações: — Junto a este Alvará estarão sempre anexos as plantas, memória descritiva e ofícios da Comissão dos Explosivos ou das suas Delegações com as determinações sobre as construções, suas modificações ou funcionamento, e fica expressamente obrigado em caso de explosão, incêndio ou desastre a suspender imediatamente a laboração na parte onde se der a ocorrência e a comunicá-lo imediatamente à Secretaria da sua Delegação. O presente alvará foi renovado nos termos do art.º 163.º do Regulamento sobre substâncias explosivas, Decreto–lei 37.925, de 1-8-950, e substituiu, para todos os efeitos, o do mesmo número datado de 28-9-1926 e o lavará passado pelo Gov. Civil de Santarém de 25-1-1936.”
Em 21 de janeiro de 1957 Francisco Martins deixou a categoria de comerciante em nome individual e criou a firma: MARTINS & FILHOS, LIMITADA.
Esta oficina pirotécnica é ampliada, em 25 de outubro de 1965, com a construção de mais um edifício destinado a:
DEPÓSITO DE MATERAIS PRIMAS CORANTES – a 13,80m a oeste do depósito das cores e a 40 m do muro sul da vedação do conjunto de todas as outras dependências da oficina. Estes dois depósitos (de matérias primas corantes e de corantes e de cores) estão envolvidos em vedação de arame.
O consumo anual de cloratos de potássio é atualmente de 1800 Kg.
Em 13 de novembro de 1969, há nova ampliação:
PAIOL PARA FOGOS DE ARTIFÍCIO – tem lotação de 10 dúzias de fogos prontos e 3000 dúzias de fogos, com as seguintes caraterísticas: mede interiormente 7,50 X3,5 X 3 m, tem paredes de tijolo, cobertura de telha (duas águas), forro horizontal de madeira, pavimento de cimento, uma porta de abrir para fora, sistema de ventilação, está travessado de todos os lados até à altura do beirado da cobertura e fica a cerca de 60m a sul da oficina de pirotecnia.
DEPÓSITO DE CLORATOS – tem atualmente a lotação de 300Kg. Este depósito fica dentro do depósito de matérias primas e tem porta para o exterior.
Em 1957 verificamos que a fábrica tem 10 de trabalhadores, mas importa acrescentar que muitas tarefas eram adquiridas em prestação de serviços pois muitas mulheres da Moita faziam os invólucros em casa, e recebiam uma remuneração ocasional, como contrapartida desse trabalho, que era pago à peça.
Por outro lado, vemos o crescimento da empresa pelo número de infraestruturas e capacidade de depósito de materiais que aumentou exponencialmente.
Um caso curioso … conta-se que Francisco Martins utilizava uma espécie de rastilho panteado por empresa alemã antes da II Guerra mundial. Essa empresa intentou uma ação judicial contra a fábrica de pirotecnia da Moita Norte, vãmente! Nunca se conseguiu provar se houve ou não reprodução, ou se Francisco Martins era também ele um inventor, pois a guerra veio fazer prescrever a ação judicial. Nunca mais se soube nada dessa empresa alemã e da putativa invocação do direito exclusivo de exploração do rastilho.
A Moita do Norte era sinónimo de fogueteiros. Nos anos 60, muitas das famílias da terra dedicavam-se a este ofício.
Em 2005, terminava a laboração a Fábrica de pirotecnia Manuel Martins & Filhos, Lda, a última do ramo a fechar portas na região.
Nesta unidade fabril, situada junto ao Cemitério, no Vale da Loura, desempenharam funções os dois derradeiros resistentes deste ofício, no concelho, os irmãos Maia. José Carvalho Maia nasceu em 17 de outubro de 1927, em Moita do Norte. Dedicou 60 anos da sua vida à profissão de sempre – fogueteiro.
Agora reformado, relembra tempos áureos da pirotecnia em Moita do Norte, em que viajava por todo o país para lançar foguetes e fogo de artifício em festas e arraiais. Filho e sobrinho de fogueteiros, foi também na fábrica que conheceu Adélia Antunes Fernandes, mulher com que viria a casar.
O irmão, António Maia Saragoila, nascido em 24 de novembro de 1930, em Moita do Norte, também fica na história da terra que o viu nascer como um dos últimos homens a trabalhar no fabrico de foguetes. Exerceu este ofício durante a sua vida profissional, na fábrica Manuel Martins & Filhos, Lda., ao lado do seu irmão José Carvalho Maia. Faleceu em julho de 2005, pouco tempo antes do encerramento da empresa.
Se existiram momentos de júbilo e de alegria com esta arte também há registo de dor e de lágrimas como podemos ver numa reportagem da RTP sobre explosão na fábrica na Atalaia onde explosões e incêndio na fábrica de pirotecnia Adelino Martins & Filhos Lda. provocou cinco mortos e quatro feridos, dois dos quais com queimaduras muito graves. https://arquivos.rtp.pt/conteudos/explosoes-em-fabrica-2/
Importa relevar que a Manuel Martins & Filhos, Lda comprou a Ernesto Inglês Paneiro, industrial de origem espanhola, a fabrica moagem, carpintaria e fábrica de sabão, situadas na Rua Luís de Camões, de onde fotografei o resto que existia das armações de pirotecnia – fogo preso. Imagem abaixo.
Atualmente, a laborar no Vale da Loura, Atalaia, possuímos a empresa INDUTUBOS – SOCIEDADE INDUSTRIAL DE TUBOS DE PAPEL LDA, com gerência de Amélia Martins (descendente de Francisco Martins) que se encontra ligada ao ramo da Pirotecnia / tubos cilíndricos em cartão. Estes destinam-se às mais diversas aplicações, desde a pirotecnia (inclusivamente em Espanha) ao têxtil, passando pela indústria transformadora de papel assim como o apoio a derivados tipos de indústrias.
Agradecimento: A Pérsio Basso e Maria Liseta Arrabaça, que me facultaram fotografias e informação sobre os fogueteiros da Moita do Norte.



