Continua na senda do dia “os direitos dos pais sobre os filhos”. O canal de televisão que decidiu travar uma luta contra o “sistema”, antes sequer de o tentar compreender, continua a colocar os profissionais da área da proteção das crianças e jovens como os maus da fita.
Salvaguardo uma vez mais, até porque este tema não é novidade nas minhas crónicas, que bons e maus profissionais há em todo o lado, mas a mim parece-me estranho, ou não quero acreditar que o “sistema” se organize contra o facto de os pais e mães poderem criar os seus filhos. Uma vez mais, no rigor destas reportagens, apenas se ouve a parte que interessa e que vende títulos. Depois passam a mensagem de que há um “prazer” dos técnicos e dos tribunais em colocar crianças em instituições de acolhimento. Bom, eu questionaria a situação no seu todo, nas diferentes perspectivas. Mas isso não vende. O “negócio” é estar contra o conjunto de pareceres de diferentes técnicos (da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, dos hospitais, das instituições, do Instituto da Medicina Legal) onde todos afirmam haver perigo para a criança.
Continua-se a questionar se os pais e mães são “donos” dos seus filhos, como se de um objecto se tratasse. Um dia, numa audiência em Tribunal ouvi um Juiz dizer a uma mãe que alegava que o filho era seu e por isso ela é que sabia o que era melhor para ele, apesar de estar em causa o bem-estar físico e emocional da sua criança, e o Juiz lhe ter dito com todas as letras, de que a criança não era sua propriedade. Pegou num livro que tinha em cima da secretária e lhe explicou que aquilo sim, ela poderia dizer que era seu, pois é um objecto. Esta perspectiva deste Juiz pode ter salvo aquela criança. Precisamos de mais juízes assim e não de juízes que obriguem filhos a estar com pais, mesmo quando há perigo, só porque é pai ou mãe. Mesmo quando esse pai ou mãe agiu de tal forma que colocou a vida do filho em perigo. Só porque sim.
Queremos tanto defender a ideia de que os pais têm direitos sobre os filhos, que assistimos a situações gritantes de violação dos direitos dos filhos. Privamos crianças de serem amamentadas em casos de divórcio, porque o pai tem de estar com a criança, não se tentado alternativas que possam responder da melhor forma aos interesses da criança, respeitando vá lá, a vontade também dos pais. O foco tem de ser a criança e não o adulto. Há que ter em consideração que os adultos quando estão zangados, como é o caso das situações de divórcio, por mais que tentem deixam-se levar pelas emoções. E sim, tem de haver alguém que proteja as crianças se os pais não o conseguirem fazer. Sou defensora de que se deve dar todo o apoio aos pais para que consigam ultrapassar as dificuldades com que se deparam, mas isso não pode, em caso algum colocar em causa o bem estar das crianças.
Que se façam reportagens sobre os casos de sucesso. De filhos que voltaram a casa depois da intervenção destas equipas. De casos de crianças que tiveram a oportunidade de uma vida ao serem adoptadas. De crianças e de pais que ultrapassaram as suas dificuldades com os apoios de uma comunidade e de um sistema que estão cá para os ajudar. Que se façam reportagens sobre que tipo de recursos poderíamos criar para conseguirmos fazer mais. O que falta e o que podemos criar. Isso sim é que era um desafio. Mas se calhar não vende!
