Temos assistindo a uma verdadeira epopeia de histórias e historietas de pessoas vacinadas indevidamente, crucificando, injuriando e criticando tudo e todos como se tratasse tudo da mesma coisa e a responsabilidade fosse apenas de quem estava no sítio certo à hora errada para apanhar uma sobra. Nem todos os casos são iguais, mas já lá vamos.
Em primeiro há uma clara falta de planeamento que não assegurou à partida uma lista de potenciais suplentes que fizessem parte das prioridades e pudessem ser vacinados num curto espaço de tempo. Por exemplo, os bombeiros. Em alguns locais os responsáveis tiveram, à revelia das regras porque elas nem existiam, o bom senso de chamar os bombeiros que estavam à porta dos lares ou no quartel mais próximo. Disparate foi vir a público o Presidente da Liga de Bombeiros criticar este procedimento e assim de alguma forma condicionado esta prática. O Governo não teve discernimento e coragem de impor de imediato esta regra apesar de ter tido o respaldo e sinal do PSD para tal.
Em segundo lugar, parece não haver um critério uniforme sobre quem nos lares deveria ser vacinado. A polémica maior é mesmo com os órgãos sociais das IPSS´s apesar das listas de vacinados propostos ser aprovada antecipadamente pela respetiva ARS (saúde regional).
A CNIS (Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade) revela mesmo que nas recomendações da DGS se incluem dirigentes com papel ativo e executivo nas instituições. Pelos vistos há demasiada gente a ser acusada que na verdade foi enganada, pela DGS, pela Task Force e por quem autorizou a sua vacina. Ora, se um Provedor que passa o dia num lar, em contacto com idosos e funcionários é óbvio que é um membro ativo do Lar e tem que ser vacinado. Outro que apenas vai às reuniões da Mesa já não faz sentido.
Em terceiro lugar, o facto de sobrarem tantas vacinas, como por exemplo aconteceu no INEM do Porto, é apenas falta de planeamento da instituição. Se à partida não sabem se 53 médicos e enfermeiros dos “150” que possuem vão ou não requerer a sua vacina – pois existe a possibilidade de já a terem tomado noutro hospital onde prestam serviço – então é porque não fizeram o trabalho de casa, não planearam, não telefonaram, não foram eficientes. Até porque devia haver um registo centralizado único da toma da vacina como se faz em Israel e noutros países organizados. Assim, se sobra, dá-se aos vizinhos da pastelaria. Ridículo.
Em quarto lugar, também me parece que sempre que a política ou o Governo se mete em processos já bastante estabilizados costuma dar asneira. Se todos os anos se dão milhões de vacinas através dos centros de saúde e das farmácias, com uma máquina já bem oleada entre o sector público, social e privado, não era mais fácil deixar essas equipas fazerem o seu trabalho habitual com mais esta vacina que não é assim tão diferente das outras?
Depois temos os chico-espertos e os abusadores que usam a sua condição para passar à frente do comum dos mortais apesar de terem consciência que estão a cometer um claro abuso. Esses sim, merecem ser alvo de critica pública e da chacota popular. Mas nesta polémica é preciso ter muito cuidado antes de atirar a primeira pedra pois também parece haver muto boa gente que é apenas vítima da incompetência alheia.
E quanto às prioridades é preciso não ter hesitações a assumir que os autarcas que andam no terreno a ajudar as pessoas e a fazerem um esforço para que tudo funcione têm que ser vacinados o quanto antes, tal como os dentistas, tal como os professores e também os homens e mulheres que apanham o lixo e que ninguém se lembra que arriscam a vida todos os dias ao recolher lixo de pessoas infetadas sem o saberem.
