Primeiro a informação útil/prática para os papás e mamãs:

Os cheques-dentista são oferecidos pelo Estado (geralmente através da escola) aos 7, 10 e 13 anos. Se a criança tiver usufruído de todos eles, tem direito ainda a outro cheque aos 16 anos que terá de pedir ao Médico de Família. Antes dos 6 anos, também por intermédio do Médico de Família, as crianças têm direito a um cheque por ano.

Frequentemente as consultas do cheque dos 7 anos coincidem com a primeira ida da criança ao dentista. Se por um lado uma criança com medo resulta (muitas vezes) de um pai com medo, também é certo que 1 mês pode fazer toda a diferença no comportamento da criança (vá-se lá saber porquê!). Durante a intervenção, invariavelmente lá vem a pergunta da entidade parental “Acha que ele/ela vai precisar de aparelho?”.

Vamos por partes:

Não sou das que dizem que assim que a criancinha tem dentes é ir com ela ao dentista, mas acho importante que os pais se informem de pequenos pormenores para a saúde do seu bebé uma vez que isso tem implicações para o resto da vida. E a saúde passa pelos dentes.

  1. O primeiro dente tanto pode nascer aos 4 meses, como a criança pode fazer 1 ano e continuar desdentada. Tudo está dentro do normal, não é por não ter dentes que não poderá iniciar a alimentação complementar. As gengivas conseguirão dar conta do recado. Já ouviu falar em Baby Led Weaning?
  2. Aconselho sempre a escovar desde o primeiro dente, com uma escova própria para a idade. Devido ao facto de a criança antes dos 5/6 anos ainda não conseguir cuspir devidamente as pastas para crianças têm uma pequena concentração de flúor. O flúor é importante na mineralização dentária mas quando deglutido pode tornar-se tóxico. Daí que só se deva “sujar” a escova com pasta ou o equivalente a um grão de arroz cru, com o flúor numa concentração de 1000 ppm. Os pais devem monitorizar e ajudar. A criança não irá conseguir fazer uma escovagem eficaz sozinha;
  3. Os dentes não nascem ”por ordem”. Os incisivos inferiores definitivos nascem sempre por trás dos de leite. É a língua que os vai posicionar na posição correcta;
  4. Os problemas de falta de espaço devem-se a um conjunto de factores. Se por um lado há muitas vezes uma condição genética hereditária, por outro lado há várias coisas em que podemos intervir;
  5. A OMS recomenda a amamentação exclusiva nos primeiros 6 meses e complementar até aos dois anos. Fora todas as propriedades ótimas do leite materno, a força para sugar na mama vai permitir um adequado desenvolvimento dos músculos com consequente alargamento adequado das estruturas ósseas. A não amamentação irá provocar, a longo prazo, problemas ortodônticos;
  6. A chupeta vai impedir que a língua faça pressão no palato e potencie o seu desenvolvimento. Se a introduzir, é importante que o hábito seja retirado até aos dois anos de idade, quando ainda pode haver reversão dos seus efeitos;
  7. O leite materno não provoca cáries. O leite artificial (cáries de biberão) e a restante alimentação sim. A cárie desenvolve-se através da presença de sacarose. Há um estudo que andou a circular no Facebook recentemente que diz o contrário. Eu recomendo que se leiam os estudos com espírito crítico antes de fazer sentenças absolutas;
  8. Se o bebé toma biberão é importante escovar os dentes depois do último biberão da noite. À noite a quantidade de saliva diminui e esta funciona como um estabilizador do Ph. Menos saliva+açúcar é uma festa para as bactérias da boca;
  9. Respiradores orais têm maiores incidências de cárie, além de problemas como hiperactividade, falta de atenção, falta de apetite, doenças infecciosas recorrentes, problemas posturais e de coluna, etc.

Isto são algumas das recomendações que dou a recém mamãs mas a própria cárie dentária também tem vários factores de predisposição. O que é certo é que a perda precoce de dentes aliada também à respiração oral (mas isto é mais outra crónica) é o primeiro passo para a colocação um dia de um aparelho dentário. E é aqui que entra o açúcar.

Nunca como agora o tema alimentação esteve tão na moda. Temos as mais variadas dietas, dos mais variados autores. Algumas com validação científica, outras nem por isso. Se umas só acentuam o efeito ping pong do peso, outras há que se convertem em verdadeiros estilos de vida. É investigar…

Hoje em dia o leite e o glúten são verdadeiros vilões e inimigos a combater, mas o maior consenso incide no açúcar. Há quem sugira que o maior responsável pelas doenças cardiovasculares é o açúcar e não o colesterol. Há documentários que defendem acerrimamente  que a nossa alimentação actual bastante processada é a responsável por todas as doenças em ascenção. Cada um tirará as suas conclusões.

Certo é que o açúcar torna-se uma compulsão. E sim, é o maior veneno que damos às nossas crianças.

Uma vez que temos um paladar que naturalmente tende para o doce (o leite materno é doce) não deveremos introduzir o açúcar antes dos 2 anos de idade de modo a que a criança se familiarize com outros sabores. Coitadinho do menino?! Por favor eles terão o resto da vida para comer porcarias…

Se alimentos açucarados são a norma e não a excepção aconselho vivamente a que insista na escovagem diária, de manhã e à noite, senão os problemas vão começar a surgir. E, como em tudo na vida, as crianças regem-se pelo exemplo.

Também não tenha medo de explicar à criança a verdade. O açúcar faz buracos nos dentes por isso temos de lavá-los. Os doces deixam as pessoas doentes por isso não os podemos comer todos os dias. Elas compreendem e acabam por aceitar e repetir.

E quanto aos avós e outros familiares “queridos” que não podem ver o seu filho sem o encherem de gomas e rebuçados? Infelizmente é uma luta que eu própria estou a perder. Resta-me ir consciencializando os meus filhos e tentar modificar-lhes o paladar. E no final? Confiar de que estamos a fazer o que é correcto.

Marta Gameiro Branco

Médica dentista especializada em endodontia, 31 anos. Mãe, para os bons e os maus momentos. Gosta de questionar, gosta de perceber, ainda que a questão seja óbvia. Porque o mundo é um livro aberto onde há sempre a possibilidade para mais uma leitura.
(E lavem os dentes todos os dias!)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.