Por estes dias António Costa disse umas coisas que fizeram com que outras se lhe colassem como uma roupa justa se cola a um corpo suado.
Disse, e vale a pena recordar, que os portugueses deveriam usar mais transportes públicos, deixar de fumar e moderar o crédito ao consumo.
Para lá da ligeireza com que disse o que disse, na forma como o disse e com o sentido com que o fez, António Costa soltou aquilo que se costuma dizer de um balão que não voa, porque o gás é pesado e foi enchido com os pulmões que libertavam dióxido de carbono, maioritariamente.
Se tivesse sido um primeiro ministro de um governo qualquer mais à direita, poderiam cair “o Carmo e a Trindade”. Foi o que aconteceu quando Pedro Passos Coelho disse que a crise económica e o desemprego poderiam ser uma boa oportunidade para que os jovens qualificados fizessem uma experiência profissional no estrangeiro. Foi interpretado como um convite à emigração. E Passos condenado, nunca mais se conseguindo ver livre dessa ideia.
Agora, o chefe do Governo , que apresentou um Orçamento com aumento de impostos e a chamada “austeridade de esquerda” (que deve ser sinónimo de austeridade boa, só pode…), veio dizer que uma forma de minorar o impacto do orçamento que nos vai apresentar é através daquelas medidas.
O Jornal de Negócios já veio clarificar.
Importa clarificar esta situação.
Se todos os portugueses deixassem de fumar, isso seria o equivalente a 0,8% do PIB de impostos que não seriam cobrados pelo Estado. O défice público subiria de 2,2,% para 3% do PIB.
Mas ainda que não deixassem de fumar a reduzissem o consumo em 25% (em cada 4 cigarros que antes passavam a fumar, agora fumariam apenas 3), o imposto caía arrecadado caía em quase 380 milhões de euros e o défice público passaria de 2,2% para 2,4%.
Quanto a usar mais transportes públicos, isso impacta no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos mas também no IUC (o selo do carro), no ISV (imposto sobre os veículos) e no próprio ISP. Mas admitindo apenas o impacto no ISP e estimando uma poupança de tráfego de 25% sobre o habitual, isso significaria uma redução da receita fiscal de 3,4 mil milhões para 2,6 mil milhões, ou seja, menos 858 milhões de euros e um impacto no défice público superior a 0,5%.
Diz o Jornal de Negócios que o impacto do imposto de selo no crédito ao consumo é o mais difícil de medir e o que menor impacto tem nas contas do Estado.
Se os portugueses lhe fizessem “o jeito”, mesmo nestes cenários mais moderados, o défice público passaria de 2,2% do PIB para 2,9% do PIB e poderia até exceder a meta dos 3%, a tal meta que não podemos exceder.
Isto demonstra a irresponsabilidade do chefe do Governo. Além da ligeireza com que abordou a situação. E que depois deu origem a um movimento de frases que pretensamente poderiam ter sido ditas por si, numa página do Facebook chamada de “Os Conselhos do Costa”.
O mundo está louco. Mas não está para loucos nem para brincadeiras de mau gosto por parte dos nossos mais altos representantes.
E de uma coisa Costa já não se livra: do gozo que está a gerar nas pessoas e na forma como o estão a olhar. Ao menos nisto a geringonça deu um sinal claro: Costa ficou a falar sozinho e nem se ouviu o pio a Jerónimo, Catarina e Heloísa. Devem estar a estudar o orçamento. Que não dão como certo que por si seja aprovado. A ver vamos, disso ainda temos tempo para conversar. Oportunamente.
