Cais em Vila Nova da Barquinha – Foto do Arquivo Municipal António Roldão

“Vede, Ninfas, que engenhos de senhores

O vosso Tejo cria valerosos,

Que assi sabem prezar, com tais favores,

A quem os faz, cantando, gloriosos!

Que exemplos a futuros escritores,

Pera espertar engenhos curiosos,

Pera porem as cousas em memória

Que merecerem ter eterna glória!”

Lusíadas, Canto VII

Os núcleos urbanos de Paio de Pele, Tancos e Vila Nova da Barquinha, por influência do rio Tejo que aqui corre e das suas embarcações que ali pululavam, subsistem na memória coletiva das nossas gentes como três locais de intensa atividade industrial e comercial ao longo dos últimos séculos.

Com o advento do transporte ferroviário, introduzido em 1862, o posterior domínio deste, mais tarde o do transporte rodoviário, perto dos anos 30; e com o erguer de barragens no Tejo e Zêzere nos anos 50 do século passado, perderam os nossos núcleos urbanos grande desenvolvimento industrial e comercial, com influência direta no gradual desaparecimento do transporte fluvial e das embarcações ali presentes.

O cais fluvial de Tancos e, posteriormente, o de Vila Nova da Barquinha serviram, durante séculos, como ponto de encontro e de movimentação de pessoas ou mercadorias. Primeiro foi usado para o transporte de mercadorias e animais através de carroças, depois o comboio e por último as camionetas que articulavam, até ser rentável, com os barcos junto dos respetivos cais. 

Este interface do transporte e armazenamento de mercadorias junto do cais, produtos oriundos do Alentejo e das Beiras, deteve enorme preponderância na economia regional.

Esta grande via comunicacional, o rio Tejo, ligava estas três vilas diretamente às vilas e cidades situadas a jusante com especial enfoque à capital do reino. Em suma, a atividade económica e, em particular, a atividade portuária que foi pujante entrou em declínio pelo aparecimento de meios de transporte alternativos ao fluvial, como o ferroviário e rodoviário – estes mais económicos e mais rápidos – sem ignorar os problemas agravados pelo próprio rio Tejo como os assoreamentos recorrentes bem como a incúria dos homens, o que veio, certamente, a acentuar esta decadência.

Cais da Hidráulica vendo-se ao fundo o edifício da Câmara Municipal

Sobre o cais de Tancos escrevi em https://www.mediotejo.net/o-cais-de-tancos-e-um-encantador-mosaico-de-memorias-estorias-de-vida-e-paisagem-por-fernando-freire/, pelo que a presente crónica versará sobre os cais da Barquinha e os sítios aqui existentes.

Na toponímia temos o Cais do Vapor, construído onde nasceu a Barquinha, o Cais da Hidráulica, (a nascente) e os cais adjacentes à Rua do Tejo e Rua do Sal, que serviram, também, como locais para o desembarque e embarque de mercadorias, pessoas e armazenamento de produtos. Nestes sítios o terreno foi adaptado às necessidades num total aproveitamento da margem direita. Essa acomodação teve enorme influência no traçado da urbe, no comércio, na cobrança de taxas e impostos, bem como efeito cultural com a troca de informações, tradições, usos e costumes das diferentes gentes que aqui fixavam residência temporária ou domicílio definitivo.

O poder comercial e financeiro dos marítimos e arrais era observável no tipo urbano de construção e no crescer da vila, que se foi erguendo junto da encosta sobranceira a norte. Para além destes existiam outras gentes ligadas ao rio, os carpinteiros, os calafates, os pescadores e os comerciantes sem esquecer as tabernas, lojas de bebidas e as estalagens. 

O rio Tejo naquela época estava pejado de embarcações: fragatas, bateis, muletas, cangueiros, bateiras, varinos, faluas, botes, canoas, catraios, culés, praeiras, e barcos do Ribatejo, algumas com as suas velas enchidas pelo vento como o provam textos, pinturas e fotografias que pululam entre os arquivos das nossas gentes.

Vapor no Tejo e varino na Barquinha

Toda a navegação se fazia à vela e a remos, pois só em 1837 chega a regulamentação do vapor às embarcações no rio Tejo conforme Carta de Lei de 24 de novembro de 1837, de D. Maria II, que faz o concurso de concessão de tal serviço.

Por vezes, longe da realidade de antanho, ficamos boquiabertos com certos textos, fotografias e ilustrações que nos chegam ao nosso quotidiano. Vejamos três exemplos, dois sobre a carga das embarcações e um sobre os tempos de viagens. António Luís Roldão1 conta-nos que, na sequência da consulta à ata da Câmara Municipal da Barquinha de 25 de julho de 1862, teria atracado uma embarcação que transportou uma locomotiva a vapor que naquela data “girava na linha de caminho de ferro”, linha do Leste. O local de desembarque foi o Largo do Estaleiro, pelo que houve que proceder a grandes escavações no cais para acolher aquele monstro de ferro, que veio via fluvial rio acima até ao cais da Barquinha, para muitos conhecido como  Cais do Vapor.  

Outro exemplo elucidativo da carga transportada é este barco varino de água acima carregado de cortiça. Impressionante a sua carga!

Barco varino carregado de cortiça

Um terceiro exemplo, este sobre o tempo de viagem, colhi da consulta ao jornal o Moitense2: “…. No ano 1842 oitenta e nove figuras belamente vestidas com os trajes do século XVIII, exibiram uma dança guerreira. 40 homens vestidos de granadeiros e outros tantos de infantaria de linha, com seus oficiais, sargentos com as alabardas. Porta-estandartes, trombeteiros, tambores e pífanos, exibiram-se na Barquinha, Golegã, Torres Novas e Tomar. De chapéu tricorne, cabeleira de estopa, casaca, polaina branca até o joelho, numa indumentária rigorosa, armamento militar, etc., a dança deu brado na região! E tão importante era a disposição e manobra dos seus componentes que o Governador Civil de Santarém, sabendo do caso, pediu que fosse à Capital do Distrito afim de se exibir, para o que mandou 200$000 réis, quantia importantíssima naquele tempo destinados a despesas. Foram os moitenses e levaram consigo muita gente da localidade em cinco barcos que partindo no domingo de Pascoela, ao dealbar, embarcados no porto da Barquinha, chegaram à Ribeira de Santarém pelas treze horas … Era quase uma hora da tarde quando embarcaram com rumo à Barquinha onde chegaram às 11 horas da noite.” 

Para termos uma noção do tempo de viagem no Tejo verificamos que em ascenso (a subir) em meados do século XIX, de Santarém à Barquinha, eram 10 horas de viagem. 

Mas afinal o rio era navegável até onde e que tonelagem suportavam as nossas embarcações?

“Desde porto de Mugem (atual Muge) até Abrantes, na grandeza de 72 Km distância, permitem as águas do rio a navegação a barcos da lotação de 13 a 20 toneladas métricas (20 a 30 moios), porém nos restantes 68 Km que decorrem entre Abrantes à foz do rio Sever, fronteira com Espanha, os muitos rápidos, cascalheiras e cachões só consentem a navegação a barcos da lotação de 6,7 toneladas (10 moios).” 3

Em 1895, nas páginas da Revista de Obras Públicas, Frederico Augusto Pimentel divulgava o cômputo sobre a extensão das vias navegáveis em Portugal indicando que para o Tejo era 265 km! É obra!

O rio Tejo era navegável em todas as épocas do ano, quer o rio levasse farta água, quer em águas médias. As correntes não eram demasiadas rápidas e não criavam dificuldade à navegação até à cidade de Abrantes. A partir daqui até Vila Velha de Rodão e foz do Sever, fronteira com Espanha, a coisa complicava. Quando num ou noutro curso do rio isso acontecia, construíam-se os designados sirgadouros, que umas vezes eram estradas escavadas nas rochas dos contrafortes, outras vezes eram muros que atravessam as ravinas, e outras eram um alisamento feito nas encostas. Onde a corrente do Tejo era rápida a dificuldade era suprida com o auxílio de homens em terra que faziam a tração com corda ou vara a partir de um sirgadouro e a embarcação continuava o seu percurso para montante.

Cais primitivo junto da Câmara Municipal

O cais primitivo na Barquinha teria um cumprimento de 300 metros e passaria entre o atual Centro Estudos de Arte Contemporânea até à entrada da Rua do Sal. Recordo que o cais de Tancos tinha um cumprimento de 215 metros.

A imagem abaixo, do início de 1900, podemos vislumbrar toros de madeira alinhados desde o Largo do Estaleiro, atual Rua do Tejo, no centro histórico de Vila Nova da Barquinha até à Rua do Sal. Aqui reconhecem-se os barcos de água-acima atracados na margem do cais da vila. Identificam-se, igualmente, o edifício da Câmara Municipal e os antigos armazéns da Rua do Sal, aonde ainda são presentes, nos n.ºs de polícia 5, 7 e 9, e no chão do antigo armazém, argolões de ferro para amarração das embarcações.

Pano de cais junto do edifício da Câmara

No cais da Barquinha atracavam, também, os barcos fretados a vapor vindos de Lisboa. A Companhia de Papel do Prado tinha os seus armazéns junto do cais do vapor, lado nascente, pelo que frequentemente aqui chegavam e partiam este tipo de embarcações. Em 1891 as fábricas do Prado e Marianaia dedicavam-se ao fabrico de papeis de escrita, almaço e embrulho e utilizavam apenas trapo como matéria prima. Com o advento do caminho de ferro aqui chegado em 1862, os vapores diminuíram de atracar no cais com o seu nome e os armazéns da fábrica do Prado, na Barquinha instalados, deixaram de ser usados.

Outrossim, os barcos movidos a vapor utilizados para passageiros a norte do Tejo, entre Lisboa e a foz do canal de Azambuja com escala por Alhandra, Vila Franca de Xira, Carregado e Vila Nova da Rainha, em 1857, pelos gravíssimos prejuízos causados à empresa concessionária, deixaram de operar conforme Decreto de 30 de julho de 1857. Era a consequência da abertura à circulação da linha de caminho de ferro do Leste.

191? – panos de cais entre o edifício da Câmara/Largo do Estaleiro e Hidráulica

Os arrais dos barcos que navegavam no Tejo eram homens destemidos, senhores dos segredos das correntes, levavam produtos e pessoas para o cais de Santarém, em Lisboa (o cais de Santarém situava-se entre o Largo do Terreiro do Trigo e o Campo das Cebolas) o local autorizado para os arrais e marítimos oriundos a montante de Santarém largarem as mercadorias e as pessoas, estas últimas sujeitas a controle de entrada na cidade, conforme determinavam as providências para o exame de passageiros que pelo Tejo se dirigem a Lisboa,  de 10 de julho de 1810.

Em 1881, conta-se que “…para comparar as dificuldades do ascenso com as do descenso, um barco levando viagem prospera, não vai, de Abrantes a Vila Velha de Rodão, em menos de quatro dias de verão, e achando um bom ensejo d’aguas, que o não obriguem a descer frequentes vezes de roda atrás, nem tendo vento que lhe estorve o andamento, pode vir de Vila Velha a Abrantes em oito horas. Nos dias de verão chega-se a trabalhar doze horas por dia, e assim, ao passo que na subida se gastam quarenta e oito horas (4 dias), na descida gasta-se seis vezes menos (8 horas), e pode-se dizer que o esforço é dez vezes menor.” 4

Pano de cais da Barquinha em 1980

Como podemos ver o traçado urbano da Barquinha é paralelo ao rio e foi a matriz a partir do qual se estruturaram as outras ruas da nossa vila.

O desenho do limite do cais entre o Cais da Hidráulica e a Avenida dos Plátanos, onde corre hoje o braço de água do nosso parque, permite-nos sonhar e imaginar a fisionomia do antigo cais que apresenta traços curvilíneos e fantasiar os diferentes contextos, os atos de comércio e a troca de culturas.

Nunca este espaço foi uma barreira natural entre o rio e as nossas gentes, mas local de transposição de saber e testemunho das relações entre as visões políticas da regeneração da urbe com a reconstrução do Cais – ninho de empresas, a criação do Parque de Escultura, e a introdução de expressões culturais presentes no Centro de Estudos de Arte Contemporânea e na Galeria do Parque, mantendo os decisores políticos uma preocupação emergente na sustentabilidade da identidade territorial da ligação da terra ao rio.

1 ROLDÃO, António Luís. Crónicas Históricas II, Ed. Câmara Municipal da Barquinha, 2014

2 O Moitense, n.º 42, artigo de Júlio Sousa e Costa, 15 de agosto de 1939

3 CORREA, José Cândido. Curso de legislação e administração naval. Polícia de administração das águas. Imprensa Nacional, 1891

4  Memórias da Académia Real das Sciências de Lisboa, Tomo 6, Parte I, 1881

Fernando Freire

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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1 Comentário

  1. Abordagem histórica com rigor e um cuidado didáctico a merecer o meu aplauso. Para quem gosta de conhecer o território ribatejano rasgado pelo rio Tejo, os textos que nos vai oferecendo são camadas de conteúdos integrados na nossa espessura histórica. Obrigado pela partilha. Abraço desde Riachos.

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