Quero começar por agradecer ao mediotejo.net este retorno periódico com textos de opinião. Não era este o tema que tinha previsto, mas a realidade impôs-se…
As eleições para a Assembleia Nacional Francesa foram uma surpresa e vieram alterar a conjuntura do país, mas também da Europa. Merecem ser analisadas ao pormenor nas suas variadas dimensões para, no próximo futuro, melhor se entender todas as consequências, que estou em crer serão várias e muito interessantes.
Mas falemos agora das reações “no momento”, ou seja, do que se tem passado e dito desde domingo, 7 de julho. A vitória da extrema-direita na primeira volta criou uma grande ansiedade à esquerda e ao mesmo tempo um grande sentido de responsabilidade. O comportamento da Nova Frente Popular (NFP) foi exemplar ao não hesitar na desistência dos seus candidatos/as quando estava em causa a vitória do Rassemblement National (RN).
Tenho ouvido, em tom de crítica, que a votação foi “contra”, diminuindo assim o valor do voto que abdicou do seu partido para se transformar num voto que travou uma mudança muito perigosa, um retrocesso nos princípios humanistas e um programa político desastroso, que levaria à divisão do povo, à discriminação e à repressão. Um programa racista e xenófobo. E não, não estou a exagerar. É verdade que o discurso da extrema-direita se adocicou, mas não o suficiente para esquecer a sua real natureza. Basta conhecer as suas principais propostas e relembrar o que disseram nas recentes eleições europeias.
Também vi muita gente (comentadores sobretudo, mas também jornalistas) a esforçarem-se ao máximo para equiparar os “extremos”, para demonstrar as inúmeras diferenças dentro da Nova Frente Popular, para prever a sua desagregação, a desgraça, a ingovernabilidade, a instabilidade…
Eu sei que não estavam à espera, eu sei que seria mais cómodo o resultado ter sido “mais do mesmo”, com mais ou menos arranjos entre “os do costume”, mas não foi. E quem leva a sério o comentário político deveria ter ficado alerta quando a Esquerda demonstrou uma capacidade invulgar quando se uniu para concorrer às eleições, que Macron precipitada e irresponsavelmente convocou, criando a Nova Frente Popular numa semana – repito, numa semana! E essa união tem programa político (cheguei a ouvir num canal televisivo que há partidos dentro da Nova Frente Popular que não vão estar de acordo com o programa, programa que aceitaram e propuseram ao eleitorado…). Sim, agitem-se os deuses e as deusas, é caso para isso perante tanto esforço e contorcionismo para tentar disfarçar o incómodo, diria mesmo a azia que a vitória da Nova Frente Popular causou.
Eu sei que não estavam à espera, eu sei que seria mais cómodo o resultado ter sido “mais do mesmo”, com mais ou menos arranjos entre “os do costume”, mas não foi. A vitória da Esquerda aconteceu. Está agora nas mãos daqueles e daquelas que tiveram a coragem e o desassombro de fazer a Nova Frente Popular numa semana – repito numa semana! – encontrar uma saída para o governo de França.
Helena Pinto
Parte importante deste esforço é a diabolização da “France Insubmisse” (França Insubmissa), a principal força da Nova Frente Popular e que mais deputados/as elegeu. Não vou aqui “defender” Jean-Luc Melénchon, não me compete e nem sequer tenho conhecimento suficiente sobre o funcionamento da NFP para tal. Mas uma coisa sei: está nas mãos daqueles e daquelas que tiveram a coragem e o desassombro de fazer uma organização (NFP) em uma semana, encontrar uma saída para o governo de França e têm toda a razão quando dizem que é a isso que o Presidente Macron está obrigado, devendo chamá-los a governar.
O Programa da Nova Frente Popular* apresentado aos eleitores/as é sensato, equilibrado e responde aos principais problemas dos franceses e francesas e recolheu muitos apoios durante a campanha eleitoral, incluindo 300 economistas. No dia da votação muitos se empenharam em agitar todos os papões, incluindo o tradicional – “o que dirão amanhã os mercados financeiros??”, essa entidade parda, omnipresente… Afinal, segundo o insuspeito ‘Observador’, “ao contrário do que habitualmente acontece quando umas eleições produzem um resultado inesperado, os mercados financeiros não esboçaram qualquer movimento significativo de reajuste de expectativas”. Não deixaram, no entanto, de alertar para o “perigo despesista”, ou seja, aumento salário mínimo, reposição da idade da reforma (lembremos que esta questão levou milhares e milhares de franceses à rua e Macron teve de aprovar a sua reforma por decreto deixando de fora o Parlamento).
Bom, mas aqui não há novidade. A Nova Frente Popular não vai governar para os mais ricos, não vai prolongar as políticas liberais que conduziram à situação atual e deram força à extrema-direita.
Uma coisa é certa: aconteceu, a vitória da Esquerda aconteceu. Vamos ver como corre, como se desenvolve. Há muita gente à espera, há muita esperança à solta! E ainda bem!
É assim a Democracia, não é verdade?
*Para quem tiver interesse em consultar, aqui fica o Programa da Nova Frente Popular.

O artigo da jornaslista Helena Pinto está conforme aos meus conhecimentos sofre o que realmente aconteceu. Parabéns pela boa informação, algo que falta hoje à grande maioria da comunicação social, fiel os dependente dos interesses financeiros.