Quando, há alguns anos, ouvi o então CEO do Novo Banco, António Ramalho, dizer que “Santarém devia estar para Lisboa como Braga está para o Porto”, percebi que a frase resumía, com notável simplicidade, aquilo que tantas vezes nos falta: ambição estratégica.
Não falamos apenas de Santarém, mas de toda esta larga faixa do território português – a Lezíria, o Médio Tejo e o Oeste – que continua subaproveitada no seu potencial económico e humano.
Com a criação da NUT II Oeste e Vale do Tejo (OVT), aprovada pela União Europeia em 2023, abriu-se uma nova página na história do desenvolvimento regional. Pela primeira vez, este espaço comum que reúne 34 municípios e mais de 800 mil habitantes ganha escala estratégica própria. Dispomos de indústria sólida, agroindústria de excelência, capacidade exportadora, inovação tecnológica e uma localização invejável entre Lisboa e o Centro.
Esta nova configuração territorial permite planear em conjunto, integrar políticas públicas, coordenar programas de investimento e ganhar massa crítica para competir em pé de igualdade com as regiões mais dinâmicas do país. É, sem dúvida, uma oportunidade única para reforçar a coesão territorial e projetar um crescimento sustentável.
Mas uma oportunidade assim exige mais do que novos mapas administrativos ou slogans tecnológicos. Exige visão.
Nos últimos anos tornou-se comum falar em Smart Regions: territórios modernos, conectados, cobertos de sensores, redes 5G e dashboards digitais. Contudo, tecnologia sem direção pouco acrescenta ao desenvolvimento humano.
O que a nossa região precisa não é apenas ser smart — é ser wise.
Uma Wise Region é uma região sábia, centrada nas pessoas, onde a inteligência artificial (IA) serve a comunidade, em vez de a substituir. É esta a visão que devemos construir no Oeste e Vale do Tejo.
Ser uma Wise Region implica três pilares fundamentais:
1.Decisões centradas nas pessoas. A I A pode apoiar a tomada de decisões locais, analisando dados para otimizar cadeias logísticas da agroindústria, antecipar tendências de consumo internacional ou ajudar pequenas e médias empresas a ajustar a sua produção aos mercados externos.
2.Participação aberta. Ferramentas digitais podem democratizar o planeamento, permitindo que cidadãos, autarquias e empresas contribuam em tempo real para decisões territoriais mais transparentes e inteligentes.
3.Sustentabilidade integrada. A I A pode monitorizar recursos naturais, otimizar o uso da água no regadio da Lezíria, reduzir emissões industriais no Médio Tejo e promover um turismo verde no Oeste — equilibrando crescimento económico com preservação ambiental.
A NUT II Oeste e Vale do Tejo concentra dezenas de milhares de PME que produzem, exportam, criam emprego e inovam. Reúne indústria, agricultura, tecnologia e talento. Temos aqui as condições ideais para fazer deste território um verdadeiro laboratório vivo da globalização sustentável.
O desafio está lançado: fazer da nossa região o exemplo de uma Wise Region, a primeira de Portugal.

Nota: Artigo de opinião elaborado a partir da intervenção na qualidade de Presidente da Direção da NERSANT no dia 5 de março, no CNEMA, durante a sessão “Portugal Export +60’30”, uma iniciativa promovida pelo novobanco e pela Associação Empresarial de Portugal (AEP).
