Natural de Tramagal, Octávio Félix de Oliveira, presidente do Instituto da Segurança Social (ISS) e ex-secretário de Estado do Emprego, morreu na terça-feira, aos 65 anos, vítima de doença prolongada, tendo o presidente da República e o primeiro-ministro lamentado o seu falecimento e deixado condolências à família e amigos. A Junta de Freguesia de Tramagal decretou um dia de luto e colocação da bandeira a meia haste. As cerimónias fúnebres realizam-se em Lisboa e em Tramagal.
O Primeiro-ministro português já lamentou o falecimento de Octávio Félix de Oliveira e disse que Portugal “deve-lhe muito” pelo seu “trabalho exemplar” em funções públicas, especialmente pela sua “dedicação ao setor social”.
“Foi com grande consternação que tomei conhecimento do falecimento de Octávio Félix de Oliveira”, afirmou Luis Montenegro, realçando o seu “trabalho exemplar” em funções públicas, numa nota publicadas nas redes sociais.
“Portugal deve-lhe muito pelo trabalho exemplar que desempenhou nas suas funções públicas, em especial pela dedicação ao setor social”, destacou o chefe do executivo português.
Por isso, “deixo aqui as sentidas condolências, em meu nome e em nome do Governo de Portugal, à família e amigos. Obrigado, Octávio”, concluiu Luis Montenegro.
O Presidente da República, por sua vez, realçou “a dedicação à causa pública, a integridade de caráter e o percurso humanista” de Octávio Félix de Oliveira”, considerando que estes valores ficarão “na memória de todos com profunda gratidão”.
“A dedicação à causa pública, a integridade de caráter e o percurso humanista de Octávio Félix de Oliveira, ficam na memória de todos com profunda gratidão”, afirma Marcelo Rebelo de Sousa, numa mensagem publicada na página oficial da Presidência da República.
O presidente da República recorda que Octávio Félix de Oliveira foi uma “personalidade reconhecida pela sua intervenção na área do trabalho e da segurança social”, que ocupou altos cargos públicos, “missão que se encontrava a desempenhar na presidência do Instituto da Segurança Social”.
O chefe de Estado lembrou, “com amizade” Octávio Félix de Oliveira e apresenta à família e amigos “as mais sentidas condolências”.
“Está quase”, dizia muitas vezes aos amigos que lhe perguntavam quando é que pensava abrandar o ritmo, ele que teve uma vida profissional sempre exigente, em cargos de responsabilidade nacional.
Homem de afetos e amizades, morte de Octávio Oliveira gera tristeza e consternação
Octávio Félix Oliveira, nascido há 65 anos na freguesia de Tramagal, Abrantes, já planeava os dias da “aposentação”, em que poderia perder-se durante horas em leituras, em conversas com a família e amigos, à volta de uma mesa, a vibrar com o Sporting ou a passear a sua neta, de dois anos.
Haveria de encontrar outros “trabalhos”, certamente, e dedicar-se a mais algum projeto em prol da terra onde cresceu, como tantas vezes fez, a apoiar instituições como o Tramagal Sport União ou o Teatro Tramagalense.
Mas ainda faltava o “quase”, e por isso continuava a levantar-se todos os dias às 05h03, mantendo o ritual de disciplina que lhe permitia chegar antes da hora ao trabalho, em Lisboa, e ficar depois “até quando fosse preciso”.
Em maio do ano passado tinha aceitado aquele que seria “um último desafio profissional”, quando foi nomeado presidente do Instituto de Segurança Social pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, no primeiro governo de Luís Montenegro.
PERCURSO PROFISSIONAL
Licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo Instituto Superior de Economia, da Universidade Técnica de Lisboa, Octávio Oliveira iniciou a sua carreira como técnico superior no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) em 1987, tendo sido diretor do Centro de Emprego de Torres Novas. Foi também vice-presidente executivo do Nersant (Associação Empresarial da Região de Santarém), de 1993 a 1995. Foi diretor do Centro de Formação Profissional para a Indústria da Cerâmica, nas Caldas da Rainha (2005-2011), e diretor do Centro de Formação Profissional da Indústria Eletrónica, Energia, Telecomunicações e Tecnologias da Informação (2016 -2024). Presidiu ao Conselho Diretivo do IEFP entre 2011 e 2013 e, nessa qualidade, representou Portugal na OCDE, Comité LEED, Comité Consultivo da Livre Circulação de Trabalhadores e Comité do Emprego da União Europeia. Foi Secretário de Estado do Emprego nos governos de Pedro Passos Coelho, entre 2013 e 2015, e assumiu em 2024 a presidência do Instituto da Segurança Social, no governo de Luís Montenegro
Um ano e meio depois, o seu nome voltaria a surgir em Diário da República, mas pela atribuição de um Louvor pelos serviços prestados ao Estado português.
A ministra do Trabalho enaltece o seu percurso, “marcado por notável dedicação à causa pública e pautado por elevados padrões de excelência no âmbito dos cargos e funções que marcaram a sua carreira profissional”, e nos quais evidenciou sempre “elevada capacidade de liderança e competência estratégica e técnico-profissional, inquestionável assertividade, espírito de missão inabalável, inexcedível disponibilidade e abnegação, e absoluta lealdade”, características determinantes para o garante do cumprimento das missões a que se propôs.”.
Foi ainda ressalvada “a sua capacidade de relacionamento humano e a irrepreensível postura ética que contribuíram de modo indelével para criar ambientes de trabalho de referência, e lhe permitiram granjear o respeito, a consideração e o reconhecimento do universo de pessoas com quem trabalhou, bem como das instituições nacionais e internacionais com as quais interagiu ao longo da sua carreira, constituindo-se como um exemplo de compromisso com a causa pública”.
Esse Louvor foi publicado na segunda-feira, 17 de novembro. O dia em que, sem que fosse possível prever, seria a véspera da sua morte.
Octávio Oliveira morreu pouco depois do meio-dia de terça-feira, 18 de novembro, no hospital onde estava internado, em Lisboa, devido a um tumor cerebral que lhe foi diagnosticado em junho passado.
A aposentação tão esperada concretizou-se após o verão. Mas ele já não teve possibilidade de a viver plenamente, como merecia.
As cerimónias fúnebres realizam-se em Lisboa e em Tramagal. Na quarta-feira, a partir das 16h00, o corpo estará em câmara-ardente na Igreja do Campo Grande. Na quinta-feira, às 9h00, segue para a Igreja Nossa Senhora da Oliveira, em Tramagal, onde, às 11h30, estará em câmara-ardente, sendo celebrada missa de corpo presente às 14h00. No mesmo dia, às 15h00, o corpo segue para o crematório do Entroncamento.
O mediotejo.net apresenta sentidas condolências à sua família e aos muitos amigos que hoje choram a sua partida, em toda a região e no país.

– Texto de Adelino Correia Pires, amigo de infância e de uma vida
Era domingo. Estivemos os dois frente a frente, sentados na livraria, poucos dias antes de saber o que te iria acontecer. Talvez já o pressentisses. Como sempre, vias mais cedo e mais longe e te fosses despedindo, assim, aos poucos, disfarçadamente, sem que os outros se apercebessem do que estarias a intuir. Falámos a verde, com tons de azul. Da tua lufa-lufa e da minha preguiça. Tu, um peso pesado de generosidade e altruísmo. Eu, um peso pluma, de clausura e confessionário.
Senti-te cansado, é certo. Tinhas regressado do teu Tramagal na véspera, um ritual de todos os sábados, quase todos. A vinha dos teus avós, a casa dos teus pais, as ligações de afecto àquela terra, àquelas gentes. Desabafaste. Da vida. Da família. Dos amigos que foram partindo e dos poucos que ainda vão sobrando. Dalgumas memórias dos tempos do Tapadão. Do nosso Sporting e dos ventos da Superior Sul. Dos meus escritos (poucos) e dos teus afazeres (muitos).
No dia seguinte, depois de uma semana, mais uma, dura, duríssima, terias uma reunião importante entre as mil e uma que foste tendo ao longo da vida. Chatices. Para quê tudo aquilo, perguntei-te eu? Dizias-me que te levantavas invariavelmente às 5:03, de segunda a sexta, para que pudesses estar a horas no serviço, do qual sairias consoante o necessário. Qual serviço, pensava eu, olhando para quem tinha passado a vida a servir e não a servir-se? Para quê, perguntava-te eu, a quem tinha uma vida consolidada, dois filhos médicos, uma carreira brilhante, uma mão cheia de causas, a vinha do avô, a casa dos pais, uma aposentação ali, à beira da esquina? Porquê, questionava eu, a quem tinha dado tanto a tantos, e para quem as provas de amizade sempre superaram qualquer azedume de ideologia? Dizias-me que sim, que estava quase. Que quando chegasse o tempo, abrandarias. Como se um leão pudesse miar. (…)
Sabes Octávio, a tua vida inacabada não ficará por aqui. Porque estiveste sempre nos bons e nos maus momentos. E agora, que olhas a via láctea e segues as estrelas como o teu pai te disse ainda eras criança, assim continuarás em cada um de nós.


Excelente texto Patrícia. Parabéns.