Foto: Nuno Vasco

Quando, há dois anos atrás, vi esta genial foto do Nuno Vasco, não resisti. Cá estava: o “Zé Povão”!…

Escrevi na altura, “… Quantos discursos aprimorados, quantas encenações, quantas poses? Bem podem os líderes, candidatos e aspirantes a políticos ajeitar a gravata, regar o cravo ou inspirar fundo. Podem até treinar o sorriso, simular o esgar, afinar o timbre. Mas nada resistirá ao que é autêntico e genuíno. Como uma peça da Rosa Ramalho ou uma foto do Eduardo Gageiro…”

Continuo a pensar o mesmo. Num país que tem tudo para dar certo, mais que as elites aveludadas, valha-nos o Zé Povão.

Só tudo o que é verdadeiramente genuíno e autêntico poderá resistir à erosão do tempo e de todos os tempos. Porque só as gentes e a sua sábia bonomia de abrir (a)braços e corações como ninguém, poderá manter a chama acesa de um país ora cinzento, ora arco-íris. Ou, só os lugares mágicos, pequenos esconderijos de lavar a alma, poderão aconchegar tantas dúvidas e incertezas. Ou mesmo só as mil e uma lendas e tradições, contadas pela voz rouca de avós cansados, poderão arregalar olhos a crianças espantadas, com estórias de um país de poetas. Ou ainda, as sestas bem dormidas depois de regadas com vinho bom e azeite do melhor lagar poderão digerir repastos de uma gastronomia sem esses e erres, dos sabores e saberes da terra e da serra.

É este o país que o “diga 44 e tussa”, nos vem revelar ainda, um inquietante diagnóstico. Um país melhor, francamente melhor, mas longe de estar curado. E as doenças mal curadas podem descambar em recaídas perigosas. É este país de “democradura”, uma democracia salpicada de pequenas ditaduras, com liberdades dissimuladas, que não pode, não merece, nem deve ficar refém de podres poderes.

Talvez por isso, este foi o país do Zé Povinho nos tempos de Bordalo Pinheiro. E continuará a ser o país do Zé Povão, nos tempos de hoje. Sim desse, do genuíno, do autêntico. Mesmo que tentem truncar-te a letra, ó Zeca. Talvez para “o povo a quem mais ordenam.”

Mas acho que não vão conseguir…

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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