Portugal entrou em 2025 com as criptomoedas a passarem das páginas de economia para as rotinas de lazer. Comprar bilhetes de concerto em USDT, enviar gorjetas em streams de “gaming” ou usar fan tokens do Benfica para votar em prémios do clube já não espantam ninguém.
A tendência é visível nos números, pois 43% dos investidores nacionais dizem deter cripto‑activos, quase o dobro da média europeia, segundo o estudo “People & Money 2024” da BlackRock. Mesmo entre o público em geral, um inquérito do Banco de Portugal indica que 13% dos consumidores já tiveram criptomoedas ou stablecoins.
O dinheiro digital também chegou ao jogo online, sector que continua a crescer. Entre janeiro e março deste ano a receita bruta do iGaming licenciado atingiu 284,7 milhões de euros, mais 9,1% do que no mesmo período de 2024, de acordo com dados oficiais do SRIJ noticiados pela Rádio Renascença. Neste mercado, os entusiastas do poker já dispensam a troca para euros.
Basta escolher uma sala onde possam jogar poker com bitcoin, pagando o buy‑in directamente em BTC ou USDT e recebendo os prémios na mesma moeda. O arranque de 2025 trouxe ainda nova oferta de mesas “crypto‑only”, acompanhando a procura de utilizadores que preferem transacções instantâneas e taxas mais baixas.
A adopção de cripto no entretenimento é impulsionada por marcas desportivas. O Benfica, pioneiro em pagamentos com criptomoedas desde 2019, reforçou em 2023 a sua presença na blockchain com o lançamento de meio milhão de fan tokens na plataforma Socios.com.
Estes activos conferem voto em iniciativas do clube e recompensas exclusivas, abrindo caminho para experiências digitais pagas em cripto, como conteúdos personalizados ou realidade aumentada nos estádios. Do lado da regulação, o mercado opera sob o Regulamento Europeu MiCA, em vigor desde dezembro de 2024.
O Banco de Portugal exige agora registo prévio e reservas de capital a todas as entidades que prestem serviços de activos virtuais, incluindo operadores de jogo que aceitem criptomoeda. O objectivo é reforçar a protecção ao consumidor e prevenir o branqueamento de capitais. A legislação fiscal também evoluiu.
Os ganhos com cripto pagam 28% de IRS, tal como outras mais‑valias financeiras. A migração para pagamentos digitais estende-se aos meios de subsistência locais. Empresas tecnológicas já anunciam salários parciais em USDC, enquanto investimentos em redes inteligentes, como o reforço da E‑Redes, dependem de smart contracts para auditoria de execução.
Apesar da volatilidade, a conveniência fala mais alto. Transacções em BTC liquidam‑se em minutos, sem as comissões bancárias que encarecem depósitos tradicionais, e a transparência da blockchain facilita auditorias de fair play nas mesas de poker.
Entre janeiro e março, o Estado arrecadou 82,7 milhões de euros em Imposto Especial de Jogo Online, dos quais cerca de 15 milhões financiam federações desportivas. Especialistas projectam que, se o ritmo de adopção das criptomoedas se mantiver, estas receitas poderão crescer 12% em 2026, acompanhando a expansão dos casinos “crypto‑friendly”.
Para já, 2025 marca o ponto em que a cripto deixa de ser apenas activo de investimento para se tornar bilhete de entrada num ecossistema de entretenimento digital cada vez mais vasto. Da bancada virtual do Estádio da Luz às mesas de poker online, a carteira em cripto afirma‑se como complemento, e, em muitos casos, substituto, do velho euro.

