Durante a Semana Santa, as igrejas e capelas da vila, mas também das aldeias do concelho de Sardoal, estão enfeitadas com tapetes feitos à base de pétalas de flores e verduras naturais, com desenhos alusivos à época e símbolos eucarísticos. Os tapetes de flores são feitos na quarta-feira, num trabalho que se prolonga pela noite dentro, envolvendo toda a comunidade. Esta quinta-feira, 14 de abril, o mediotejo.net acompanhou, depois de dois anos de interregno, a visita a sete templos onde esta tradição única no País – e uma das mais emblemáticas das celebrações da Páscoa – atrai milhares de visitantes.
A tradição dos tapetes de flores nas igrejas e capelas de Sardoal, durante a Páscoa, já existia com grande esplendor no século XIX. O facto de a Páscoa ser para os católicos a festa mais importante, porque celebra a “Salvação”, essa verdade não escapa nem aos sardoalenses nem a quem os visita na fé e na curiosidade de conhecer as tradições partilhadas. Enfeitar o interior das Igrejas e Capelas com tapetes de flores é uma das mais emblemáticas cerimónias da Semana Santa de Sardoal e está de volta aos olhos de todos, dois anos depois de um interregno forçado, devido à pandemia de covid-19.
Há uma teoria sugestiva sobre a criação dos tapetes de flores, que atualmente são instalações de arte que saem da mente criativa e das mãos habilidosas dos populares inspirados pelo tema da Semana Santa, contendo símbolos eucarísticos, como a cruz, as velas, o sol, o pão, ou a figura de Cristo. Conta-se que, em 1303, aquando de uma vista da Rainha Santa Isabel a Sardoal, na pobreza e sem tapetes persas para receber condignamente a rainha consorte de Portugal, fizeram-se tapetes de flores.
Especulação ou lenda, facto é que a tradição dos tapetes feitos à base de pétalas de flores e verduras naturais perdurou ao longo dos tempos, mantendo-se não só em Sardoal como se estendeu, desde há oito anos, a 10 capelas e igrejas do concelho fora da vila, para apreciação de todos a partir de Quinta-feira Santa.
A visita começou pela Igreja da Matriz, uma visita guiada por João Soares, técnico de Conservação e Restauro da Câmara Municipal de Sardoal. O templo é o elemento patrimonial mais importante do concelho. Foi construída nos finais do século XIV ou século XV. Possui elementos de várias épocas, Gótico, Renascimento, Barroco até ao Neoclássico. Do século XVI os elementos mais importantes são seguramente as tábuas do Mestre do Sardoal. O altar-mor em talha dourada, do período Barroco Joanino, e os painéis de azulejos de Gabriel del Barco são outros elementos a destacar.
Mas nesta quinta-feira 14 de abril, na vista à Igreja Matriz, o presidente da Câmara Municipal, Miguel Borges, voltou a referir na presença, já habitual, do presidente do Turismo do Centro, Pedro Machado, a necessidade urgente de recuperação daquele património dos finais do século XIV, com graves problemas de conservação não só do edifício como do património integrado e móvel. Para o autarca “só quem não vem a Sardoal é que não percebe que este património é fundamental para o turismo local, estratégico para o desenvolvimento da economia local”.
Recorda-se que há dois anos o Turismo de Portugal rejeitou a candidatura da Fábrica da Igreja Paroquial da freguesia de Sardoal ao Programa “Valorizar”, no âmbito da requalificação da Igreja Matriz, por considerar não ser património do interesse turístico nacional.
A Igreja Matriz da Paróquia de São Tiago e São Mateus que possui três naves, rosácea e do lado esquerdo, a Capela lateral dedicada ao Sagrado Coração de Jesus onde estão as Tábuas do Mestre Sardoal, deixadas por Vicente Gil e Manuel Vicente, é uma das mais importantes heranças culturais e artísticas do concelho.
A importância da oficina do Mestre do Sardoal para a História da Arte Portuguesa centra-se na transição do estilo gótico para o renascentista, designados por “Primitivos Portugueses”.
Nessa igreja, com cortinas e passadeiras em tom carmim, um retábulo para onde é transladado o “Santíssimo” após a cerimónia do lava pés – já se pode observar as toalhas em repouso nas cadeiras enfileiradas – , não se instalou um tapete de flores. A tradição passa pela ornamentação do altar com mais de 30 vasos de trigo germinado no escuro, adquirindo por isso uma tonalidade amarela. Ali será adorada a hóstia consagrada. Todos os anos a decoração é a mesma, simbolizando a ressurreição depois da primeira Eucaristia; a consagração do pão.
Do lado direito, retábulo da Nossa Senhora da Conceição e outras esculturas cenográficas na tentativa de aproximação do real. A estátua, tal como uma outra representando a Senhora das Dores, veste-se de cabelo verdadeiro para dar sentido de realidade a quem a observa, à semelhança do que se fez em Sevilha, na vizinha Espanha. São imagens que guardam grande carga emocional.
Seguiu-se a Igreja da Misericórdia, marco da arquitetura da Renascença na região, uma Igreja do século XVI com decoração típica da renascentismo, cujo ícone é uma Nossa Senhora que carrega um manto num simbolismo de proteção de todos os povos.
No corredor em repouso, aguardando mais à noite a Procissão do Senhor da Misericórdia (ou Fogaréus), painéis representando Cenas da Paixão de Cristo, pertença da Misericórdia. Mais à frente a primeira instalação que vimos, o tapete de flores cujo desenho transporta o visitante para o vitral, técnica muito presente na arte sacra. Nele surge representada uma pomba com um sol em cenário de fundo e três cruzes remetendo-nos para o Calvário mas também para a Ressurreição.
Os materiais que o compõem são de origem natural. Flores silvestres e carrasca de pinheiro. Estão também presentes cinco cores diferentes com diferentes significados: roxo (paixão de Cristo), castanho (terra, renascimento e ressurreição); verde (esperança, cura e caridade); branco (luz divina, paz e redenção); e amarelo (luz divina).
A Igreja da Misericórdia situa-se nas proximidades da Igreja Matriz, constituindo-se como um dos principais e mais belos monumentos da vila de Sardoal.
Remonta à década de 1370, quando o rei D. Fernando I e a rainha D. Leonor aqui se refugiaram da peste que grassava em Lisboa, mandando erigir uma pequena Ermida. No entanto, trata-se de um templo do século XVI, possivelmente reconstruido e ampliado, conforme inscrição epigráfica numa das pilastras do pórtico (1551).
Os magníficos ornamentos renascentistas nos pórticos e numa janela atestam a feitura quinhentista deste equipamento, para além dos testemunhos documentais que revelam uma segunda remodelação no início da segunda metade da centúria de quinhentos.
Realce ainda para esta síntese cronológica, para a confirmação da Misericórdia de Sardoal pelo Papa Inocêncio IV (1554), como o título de Confraria de Santa Maria do Hospital.
Curiosamente esta Igreja não segue as normas de orientação clássicas, sendo a sua Capela-Mor orientada para poente.
Na Capela do Espírito Santo a instalação de arte floral desenhando uma cruz com um espaço central para ser pisado pelos visitantes. É aromático, exala fragrâncias de rosas, de alfazema, de rosmaninho, de alecrim, de bucho e camélia.
O objetivo é dotar o ambiente de aromas que “inebriem o Senhor”. Entre o tapete e esse corredor florido pétalas de flores roxas com uma salva de prata recolhe dádivas em dinheiro que os mais caridosos queiram deixar. A representação é Pentecostes em celebração da descida do Espírito Santo. Vê-se uma pomba debaixo da barba do ‘Pai’, insinuando o sopro de Deus.
Entrou-se depois na capela de Nossa Senhora do Carmo, na Casa Grande, habitação do bispo do Brasil e primaz da rainha Dom Gaspar Barata Moura Mendonça. A Capela, após as obras de restauro, volta a receber os enormes tapetes florais, e ali será inaugurado dia 18 de abril, o Centro de Interpretação da Semana Santa com o objetivo de combater a sazonalidade turística e que a Semana Santa possa ali ser recriada e visitada durante os 365 dias do ano. O tapete floral acompanha o estilo rococó com curvas e arcos em tons de roxo, amarelo e branco.
A Capela de Santa Catarina tal como a de Sant’Ana foram em tempos capelas particulares de famílias que as doaram à paróquia de Sardoal. Naquela capela um tapete de flores elaborado pelo GETAS – Grupo Experimental de Teatro Amador de Sardoal, com elementos naturais, uma cruz branca em esferovite, uma coroa de espinhos, aliando às pétalas de flores alguma inovação na introdução de outros elementos estéticos. De notar que, este ano, todas as capelas e igrejas apresentam um cartaz com fotografias dos tapetes que nos últimos 10 anos estiveram em exposição naquele templo, ou seja desde 2012, sendo portanto oito, uma vez que a pandemia impediu dois.

Na Capela de Sant’Ana, o desenho do tapete homenageia a paz utiliza pétalas de flor roxas, rosa, amarelas, brancas e carrasca de pinheiro.
Na Capela do Senhor dos Remédios, encontra-se o tapete elaborado por Nalini António, aluna que venceu a edição 2022 do Projeto Capela. E ao lado na igreja conventual de Santa Maria da Caridade, no mosteiro, um tapete da autoria da Santa Casa da Misericórdia em tons de verde, roxo, amarelo e branco.
Uma igreja com dois retábulos, relicário, maneirista com transição para o barroco, vindo de Nagazaki, Japão, obra dos jesuítas, um oratório de arte namban, arte produzida pelos nativos japoneses de Nagazaki para a Europa. Sendo que existem 25 em todo o mundo e apenas dois com aquele tamanho, explicou João Soares.
Trata-se de uma pintura a óleo sobre cobre com a figura da Virgem. Toda a decoração prende-se com temas nipónicos como a laranjeira e o pessegueiro que representam a pureza e a família.
A sacristia do convento, onde se guardam os paramentos e as alfaias litúrgicas, é de 1720, em talha gorda com pinturas de óleo sobre tábua onde também está presente o gosto nipónico com desenhos de folhas de pessegueiro e pagodes.
Um amituário para guardar o amitos, uma espécie de golas que fazem parte dos paramentos, e uma credência (mesa) do século XVIII em mármore português. A peça mais rara da sacristia é uma caldeirinha de água benta em bronze. Os freixos plantados à volta do convento vieram na nau de Vasco da Gama de Nagazaki há 500 anos.
Mais em baixo, no Centro Cultural Gil Vicente, Francisco de Sousa vencedor do concurso ‘Desenho Digital’, no âmbito da Semana Santa 2021, viu nascer as cores e as formas que escolheu para o seu desenho finalmente transformado num tapete de flores.
Pelo sétimo ano, as aldeias do concelho juntam-se à iniciativa no adorno das Igrejas e Capelas fora do centro da vila. Presa, Panascos, Vale das Onegas, Santiago de Montalegre (igreja antiga junto ao cemitério), Mivaqueiro, Valhascos (S. Bartolomeu e Igreja), Venda Nova, São Simão, Entrevinhas e Andreus também embelezaram os seus templos religiosos na edição de 2022 da Semana Santa de Sardoal, podendo ser visitados entre sexta e domingo.
Os tapetes nos templos refletem o empenho com que a comunidade sardoalense trabalha e se envolve na Semana Santa. É um trabalho minucioso que se prolonga durante dias e uma noite madrugada fora, nas vésperas das celebrações da Semana Santa. Dezenas de pessoas dedicam-se aos desenhos a recriar, à imaginação da paleta de cores, à escolha das flores certas a combinar. As gerações mais velhas ensinam as mais novas e assim se passam os segredos da tradição e da arte de fazer os tapetes de flores que decoram as capelas durante a Páscoa.
Sempre relacionados com símbolos pascais e religiosos, os tradicionais tapetes floridos colocam crentes e descrentes de olhos postos no chão, os mesmos que se levantam na contemplação obrigatória do património histórico, religioso e nas peças de arte sacra.
No Centro Cultural Gil Vicente visitou-se ainda a exposição “Caminho de Fé”, com 12 obras sobre tela propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal, patente ao público até dia 30 deste mês.
Integrada na programação complementar da Semana Santa de Sardoal, a mostra é composta por 12 telas, pintura a óleo sobre tela do século XVI e XVII, cujo tema central é o caminho de Jesus Cristo até ao Calvário, a Flagelação, a Coroação de Espinhos, as Bandeiras Reais da Misericórdia de Sardoal, a Cena da Lamentação (Virgem da Piedade), Ultima Ceia e um Calvário.
E porque, neste momento, o Município aguarda o resultado da candidatura da Semana Santa proposta a Património Cultural Imaterial Nacional, foi transmitido um filme intitulado “Sardoal- o triunfo da vida”, realizado precisamente para essa candidatura.
Carta de compromisso com vista à geminação
Para encerrar a visita os municípios de Sardoal e de Noiseau, cidade francesa junto a Paris (França) iniciaram um processo para estabelecer um acordo de geminação.
Os presidentes dos dois municípios, Miguel Borges (Sardoal) e Yvan Femel (Noiseau) assinaram “uma carta de compromisso” com o objetivo do “bem estar dos seus cidadãos e para o desenvolvimento de relações duplas” manifestando a intenção de “estreitar laços de cooperação visando um encontro entre as populações do dois municípios e das suas associações representativas estabelecendo parcerias e partilha de ideias”.
Entre os princípios, “promover e desenvolver o turismo; aprofundar relações de intercâmbio cultural e económico através de troca de experiências culturais, desportivas e sociais; proporcionar a realização de novos projetos no âmbito europeu possibilitando o acesso a novas e importantes iniciativas nos mais diversos campos de atividade; promover o desenvolvimento de uma consciência europeia alicerçada nos princípios da cidadania e democracia através da partilha e troca de experiências, opiniões e valores e da promoção de ações e projetos entre cidadãos; conjugar esforços e vontades de colaboração para que a paz e a prosperidade sejam as razões fundamentais que sedimentam a construção de um mundo melhor”.





















